Acidente pessoal
Eles estavam no bar desde as dez horas da manhã. Já passava das três. Entre cervejas e cachacinhas entremeadas com carne seca e jilós, os dois amigos iam discutindo eufóricos em maiêuticas alcoólicas.
O mais velho, já com trinta, só tinha uma perna – acidente de moto -, e o mais jovem, vinte e quatro, era adepto da maconha e da vagabundagem contemplativa.
Pernalta solta um contido arroto:
_ Caminhar tem a ver com o espírito. Não existe correr. O tombo pode machucar.
Brilho responde, olhando a vida através da bunda da garçonete:
_ Tu fala isso porque perdeu a perna, morô parceiro?
O outro ri com a boca enfarofada:
_ Por que todo maconheiro fala sem pensar, meu irmão? To falando sério, porra. É filosofia, caralho. Não lê, dá nisso…
Brilho arregala os olhos preguiçosos e se ofende:
_ Quem não gosta de ser discriminado não deve discriminar. Isso é filosofia, otário.
Pernalta:
_ Eu ter perdido a perna não faz de mim um crminoso, certo? Mas, na moral, encher a cabeça de fumaça e ficar de bobeira enchendo a cara é foda. E ainda por cima eu pagando! Com meu dinheiro suado…
Brilho:
_ Ha, ha, ha! Como, dinheiro suado? Essa grana não é do governo? Não foi por causa do acidente, parceirinho?
Pernalta se remexe na cadeira. Toma mais um copo da cerveja e responde magoado:
_ Quer dizer que perder minha perna não custou nada, né vacilão? Eu me joguei da moto só pra abocanhar o seguro? E não é do governo porra nenhuma! É particular. Do Bradesco.
O outro, aplicando colírio nos olhos ri mais ainda:
_ Já reparou que depois que você recebeu essa porra de seguro, passou a se sentir cliente vip do banco? É Bradesco no céu e Deus na terra!
_ Hei! Não seria o contrário? Deus no céu…
É interrompido:
_ Meu irmão, foda-se! Só sei que acho estranho você andar (he, he), foi mal, você ficar se sentindo porque pegou uma grana boa de seguro. Pô, tu tá aleijado, cara!
Pernalta abre a carteira e chama a garçonete:
_ To sabendo que hoje é teu aniversário. Toma aqui esse troco. Compra um presente pra você! – olha para o amigo – Essa bunda é minha, he, he.
Brilho, chateado:
_ Ainda acho que não vale a pena se foder todo pra ter dinheiro. Esse dinheiro aí tem sangue!
O amigo acidentado faz que vai levantar mas desiste irritado:
_ Agora tu exagerou, meu irmão! Vais rachar a conta?!
_ Só se eu arrancar o dedo. Como os caras da yakuza.
_ É uma piada, chincheiro?
_ Não. Uma constatação. To duro.
_ Valeu… Eu pago.
_ Desculpa aí.
_ Tranqüilo, parceiro.
_ Me faz um vale? Minha erva acabou…
Silêncio. Ambos meditam a respeito de dinheiro, estética, morte e mulheres.
Em uníssono:
_ Desce a saideira!

Maio 8, 2008 às 1:41 pm
“Nossas lembranças, pensamentos e sentimentos, com certeza, sempre têm o seu repouso em outros mundos, e pouco dependem de nós, aqui. Porque, não importa como eles sejam, os pensamentos de duas pessoas diferentes são, com certeza, muito mais semelhantes do que uma pessoa e seus próprios pensamentos….” Milorad Pávitch, um sérvio genial, alegre, imensamente lido e caudalosamente escrito. Pena que pouco conhecido pelas nossas bandas pernetas daqui, bem ao lado desse boteco maiêutico. Bjs; minha linda.
Maio 8, 2008 às 2:14 pm
preciso conhecê-lo
beijo lindo
Maio 31, 2008 às 2:53 am
Tenho a impressão que alguma coisa genial me escapou nesse texto.,
Vou ter que reler mais tarde.
no mais gostei, apesar dessa sensação de incompleto…
Maio 31, 2008 às 9:25 pm
É mesmo incompleto, uma brincadeira com Sócrates que não acreditava em finalização de idéias… fique tranqüilo Cesar, nada tem de genial, é só um diálogo hehe…
Valeu pela visita,
Beijo
Julho 9, 2008 às 7:40 pm
Qual a diferença de acidente pessoal de impessoal?????
Julho 9, 2008 às 11:25 pm
Talvez não haja nada de diferente. Qualquer coisa que nos machuque, é pessoal. Neste caso, o impessoal ficaria por conta dos administradores de seguros. De qualquer forma, é pessoal.
Gostei da pergunta. O que você acha, Cristina?