O Corcunda e o fardo

 

Escrever, escrever até morrer, sangrar de dor e risos catatônicos, escrever em desespero, escrever calado, calmo, não parar, não descanso, se parar eu morro, se morrer a obra é inacabada, o inferno não quer, o céu sorrirá, olha os anjos, eles odeiam, o jeito é escrever e escrever;

 Carregar palavras nas costas, o fardo do assombro e da inspiração, beber a água, mas ter que ir, osteoporose nos ossos mortais balbuciam palavras, mas as melhores, as mais douradas escrever, escrever sem dedos, sem mãos, não importa, deixa sangrar, gangrenar!

Preciso falar de flores, pobreza, dor, prazer e medo, passar em toda parte, percorrer as vilas, as cidades, beber com homens mortos, alimentar a fome e em cinzas chorar por toda guerra; reportar e escrever, reiniciar, abordar pessoas, rabiscar os tolos, escrever o fim.

Contorcer de dor mas não parar, olhar em volta, estão rindo, quem é louco aqui? deixa eu passar, não vê que pesa meu saco de escritos, o meu fardo? se não ajuda sai da frente, não me odeie, não me ame e acima de tudo não me tenha inveja!

 O fardo é de doer, não é pros senhores, deixa que carrego em dez mil viagens, eu agüento, suporto a solidão, só me deixe passar, eu preciso escrever, escrever até abrir em céus ardentes um mundo de negros pássaros…

 Numa gaiola que me prende, eu só quero cantar e escrever, escrever com cimento e ferro, mais forte que toda árvore, nenhuma árvore será fincada, eu sou de pedra e vigas , eu suporto, eu quero suportar!

Saia do caminho, vá viver a sua vida, venda tangerinas, sapatos ou cocaína, eu sou descalço, eu sou mendigo da prosa e poesia, sou rato sem dentes, escrivão do deus demônio, é preciso escrever, escrever até à morte, saia do caminho, devolve minha vida, eu só preciso passar!…

Ou sai ou morre. O lábio é doce mas se me trava escorre o fel, não me obrigue à loucura extrema, sai da frente, é preciso escrever, levar o fardo, carregar as pedras, explodir o coração.

 

 

 

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