Amor, amor, quem explicará?
Era só chegar em casa e dizer “acabou, não quero mais”, porém ele precisava dela, da força, da grana, e até do sexo. A maré tava ruim, o mar sem peixe.
Entrou, pé-ante-pé. Ela já deveria estar dormindo. Foi à cozinha, tirou do freezer a lasanha de lagosta. Que louca e sofisticada. Até quando cozinhava ovos, tinha lá seu requinte. Tudo bem, ovos fritos com ameixa parecia mais coisa de quem fuma maconha e acha tudo “gostosão”.
Mas tudo que ela fazia era bom, gostoso. Até xingar , com aquele biquinho roxo de batom: “Ora, vá se foder!”. Ele ria e achava puro charme. Mesmo de pijama, cabelos alvoroçados, sem maquiagem, ela ficava atraente, o cheiro, restinho de perfume no pescoço, a minúscula calcinha por baixo da roupa.
Jogou a lasanha no microondas e sentiu uma pena danada em ter que deixá-la. Adorava suas poesias, suas surpresas. Quando trocava de carro, de guarda-roupa, a cor da parede, os móveis, os seios. Estava sempre pronta pro amor, pra uma boa cama.
Serviu mais suco de maracujá com acerola, ela pensava em tudo, o suco perfeito, embora ele preferisse massa com vinho, em dias ímpares ela não bebia, eram jantares ‘leves’, que mulher gostosa, talentosa e carinhosa.
Terminou o jantar, ela dormia como uma rainha, um sorrisinho nos lábios cor de boca – batom de dormir. Passou direto pelo quarto, escovou os dentes, se olhando no espelho “cara, tu é um babaca!”
Entrou em silêncio no quarto, no closed e pegou umas roupas. Depois de um ano de amor com uma mulher daquelas, virtuosa, atenciosa, gostosa, saborosa e inteligente…
Depositou um beijo leve naquela testa linda com cabelos espalhados, perfumados, pura seda.
Caminhou sem olhar para trás. Chorava, estava sofrendo. Iria mesmo deixá-la, que pena.
Ah, se ele não fosse gay.

Junho 25, 2008 às 2:13 pm
Um final surpreendente. Dela, ficou a sensação de que tudo se fez, nada mais é possível. O amor se esvaiu por aquele buraquinho inevitável que se abre numa ruptura de situações, que foram firmes.
Dele, ficou a sensação do paulatino desmonte do amor em outras sensações com outros nomes, quer um exemplo : O egoísmo de pensar em si, em deixar a vida boa, a lasanha, os sucos e a alegria; precisou do cimento da dó e da pá do gay para construir o abandono. Bjs.
Junho 25, 2008 às 7:36 pm
Dai, my love!
Ela é simplesmente feliz só. Quem é tudo que ele disse, é feliz por si só, pela sua própria natureza, tanto é que levou um ano para que um “gay” tomasse coragem de deixar mulher tão feliz… Ele sai perdendo!
Beijos.
Junho 25, 2008 às 11:41 pm
Dabal e Paulinho (oi amor!!!)
Estou acompanhando alguns artigos sobre gays na rede. Aqui no RJ um famigerado e evangélico deputado, Ermínio Fonseca está para ver aprovada uma lei sua que institui o gay como ‘doente’, determinando que o Estado se responsabilize pelos doentes, custeando o tratamento de recuperação aos que quiserem se tratar. Ele, o inacreditável político cristão ainda sustenta teses Darwinianas, o que eleva o gay a uma ‘raça’.
Enquanto isso, cientistas suecos dizem ter descoberto que o homossexualismo é biológico, que em estudos de cérebro, descobriram que o cérebro do gay é semelhante ao da mulher hetero, o da lésbica, semelhante ao do homem hetero.
No fundo é tudo preconceito. Se vocês quiserem dar uma conferida no blog Ateu graças a Deus, do B. Júnior, será um prazer apresentá-lo a vocês.
http://ateu.wordpress.com/
E valeu, meus amores pelas opiniões ao meu continho hehe.
(escrevi tudo numa única janela pq a mão dói com o frio ‘absurdo’ aqui no Rio)
Muitos beijos, meus queridos!!!
Junho 26, 2008 às 11:17 pm
Tão bom esse conto, Dai. Algumas escolhas são bastante difíceis, mas em algum momento é preciso deixar de se enganar, tomar uma decisão que não seja apenas cômoda. Não faz sentido voltar a considerar a homosexualidade uma doença, algo a ser tratado, expurgado da sociedade. Foi uma conquista difícil dar às pessoas o direito de exercer a sexualidade de acordo com o que desejam, vencendo hipocrisias e discriminações, que só levavam a uma situação de segredo, de fingimento, para evitar ser excluído. Porém, se alguém achar que o que sente é um problema, que faz mal a si próprio, apesar da sociedade aceitar, aí sim pode ser tratado, esse sentimento e mal estar perante a percepção de si como homosexual, não a homosexualidade.
Melhoras pra você, minha amiga. Beijos
Junho 26, 2008 às 11:40 pm
Nada como a opinião de uma psicóloga
Valeu, minha amiga. Tava com saudade de você aqui no Dai. Seu blog tá uma coisa, os textos excelentes.
Beijo, minha linda!
Julho 2, 2008 às 12:24 pm
uhu..
Excelente desfecho.
Nos faz ter um pouco de vontade de bater nesse cara por sair assim na surdina em vez de se tornar o “amigo gay” e continuar ao lado de uma pessoa inteligente, feliz etc, etc,
mas como mesmo saber o que é possível?
Na vida da gente mesmo a distância não é a melhor medida de segurnaça? O menor sofrimento?
Ficer longe’e sempre mais fácil.
É…
às vezes as pessoas acabam vivendo um ano juntas sem ralmente se encontrar.
Julho 2, 2008 às 11:39 pm
Às vezes até por muito mais tempo, meu caro.
Que bom que você gostou.
Beijo.
Agosto 3, 2009 às 2:33 am
Muito bacana! Ele não precisava ser gay, porque o amor não está em nenhuma das qualidades e habilidades, né? É outra forma de passar uma rasteira na expectativa dos leitores…
Gostei! Parabéns! Crônicas… Um livro de crônicas! Encare a possibilidade!