Sonhos Perdidos

foto Jean Saudek 

Entra por uma porta, sai por outra. É uma nova realidade, conhecida e acostumada. Já viu estas imagens, só a dor mudou de lado. Caminha com ela nas costas e nota que sangra mais, queima sem piedade.

Senta, descansa, procura água e ela está em estado de ferrugem, não vê seu rosto refletido, apenas um borrão, não é verossímel. Mas nada é, afinal. A água limpa as têmporas e o tempo urgindo a faz levantar.

Enquanto isso em outra parte ele se renova ao pôr do sol, esquece as rebordosas e sonha com ela. Também sangra pelos lábios que não mais a beijam. Estremece, ceifa as ervas daninhas que lhe roubaram o amor, o gozo perfeito. O sono.

Ela percebe que os seios estão à mostra, a roupa ficou presa no arame da cerca vizinha, no quintal do outro que em blasfêmias penetrou suas vísceras a fazendo urrar como loba na procura da prole e do sonho perdido. Amarra a saia em volta do busto e escolhe outra porta, outra saída.

Ele resolve a distância e envia pombos correios que vão em seu encalço, céleres e afoitos por entregar o bilhete que os fará cantar outra vez. Será? Está da mesma forma perdido. Se os pombos não voltam, qual porta abrirá desta vez? Dorme nu para tê-la com prazer.

A porta se fecha e sua ferida causa frio. Na espinha dorsal, nos seios pendentes, auréolas eriçadas sem as mãos dele a cobrí-los. Vai em frente, o labirinto se multiplica em possibilidades. Mas a dor é aguda. Ela deita-se e dorme com os seios tristes.

Ele não obtém respostas, os pombos não voltam. Desiste dela e procura outra saída. Onde outro corpo? Como hospedar a alma que a ela pertence? Por onde entrar?

Que boca selar, que corpo beijar se não for o dela… Melhor a morte a ficar sem aqueles seios. Sua tristeza o endurece como pau. Ele sonha com a fogueira em forma de mulher. Faz amor com o mito e dorme também, esperando acordar com o rulhar dos pombos.

4 Respostas para “Sonhos Perdidos”

  1. nossa, esse jogo com a palavra ’saída’ é mto bom! angustiante…. labirinto de desejos!

    http://camilamarins.blogspot.com

  2. A distância aproxima as pessoas. A proximidade as afasta. Parece uma tendência cada vez maior, viver dos sonhos, gozar com a ausência, ter orgasmos à distância. Gogol ficava atônito com as peculiaridades do destino, que dava cavalos para montar a quem gostava de corrida de cães. E cães para treinar para aquele que gostava de cavalos. Essa era a constante da Rússia de 1835. Hoje encontramos isso em cada alma sensível que encontro. Vivemos numa espécie de escafandro. A impossibilidade física do amor total. E a possibilidade real de fazer do sonho algo palpável. Parabéns, menina, meus parabéns saudosos.

  3. Obrigada pela interpretação, querido.
    Também estou com saudades. Esteve contemplativo ou numa boa conversa em algum café de Paris? hehe
    Beijão meu amor.

  4. Oi Camila :)
    Estavas como spam, esse wordpress às vezes me deixa constrangida.
    Seja muito bem vinda, querida :)

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