Sonhos Perdidos
Entra por uma porta, sai por outra. É uma nova realidade, conhecida e acostumada. Já viu estas imagens, só a dor mudou de lado. Caminha com ela nas costas e nota que sangra mais, queima sem piedade.
Senta, descansa, procura água e ela está em estado de ferrugem, não vê seu rosto refletido, apenas um borrão, não é verossímel. Mas nada é, afinal. A água limpa as têmporas e o tempo urgindo a faz levantar.
Enquanto isso em outra parte ele se renova ao pôr do sol, esquece as rebordosas e sonha com ela. Também sangra pelos lábios que não mais a beijam. Estremece, ceifa as ervas daninhas que lhe roubaram o amor, o gozo perfeito. O sono.
Ela percebe que os seios estão à mostra, a roupa ficou presa no arame da cerca vizinha, no quintal do outro que em blasfêmias penetrou suas vísceras a fazendo urrar como loba na procura da prole e do sonho perdido. Amarra a saia em volta do busto e escolhe outra porta, outra saída.
Ele resolve a distância e envia pombos correios que vão em seu encalço, céleres e afoitos por entregar o bilhete que os fará cantar outra vez. Será? Está da mesma forma perdido. Se os pombos não voltam, qual porta abrirá desta vez? Dorme nu para tê-la com prazer.
A porta se fecha e sua ferida causa frio. Na espinha dorsal, nos seios pendentes, auréolas eriçadas sem as mãos dele a cobrí-los. Vai em frente, o labirinto se multiplica em possibilidades. Mas a dor é aguda. Ela deita-se e dorme com os seios tristes.
Ele não obtém respostas, os pombos não voltam. Desiste dela e procura outra saída. Onde outro corpo? Como hospedar a alma que a ela pertence? Por onde entrar?
Que boca selar, que corpo beijar se não for o dela… Melhor a morte a ficar sem aqueles seios. Sua tristeza o endurece como pau. Ele sonha com a fogueira em forma de mulher. Faz amor com o mito e dorme também, esperando acordar com o rulhar dos pombos.
foto Jean Saudek
Julho 7, 2008 às 2:01 am
nossa, esse jogo com a palavra ’saída’ é mto bom! angustiante…. labirinto de desejos!
http://camilamarins.blogspot.com
Julho 7, 2008 às 10:53 am
A distância aproxima as pessoas. A proximidade as afasta. Parece uma tendência cada vez maior, viver dos sonhos, gozar com a ausência, ter orgasmos à distância. Gogol ficava atônito com as peculiaridades do destino, que dava cavalos para montar a quem gostava de corrida de cães. E cães para treinar para aquele que gostava de cavalos. Essa era a constante da Rússia de 1835. Hoje encontramos isso em cada alma sensível que encontro. Vivemos numa espécie de escafandro. A impossibilidade física do amor total. E a possibilidade real de fazer do sonho algo palpável. Parabéns, menina, meus parabéns saudosos.
Julho 7, 2008 às 11:45 am
Obrigada pela interpretação, querido.
Também estou com saudades. Esteve contemplativo ou numa boa conversa em algum café de Paris? hehe
Beijão meu amor.
Julho 14, 2008 às 12:39 pm
Oi Camila
Estavas como spam, esse wordpress às vezes me deixa constrangida.
Seja muito bem vinda, querida