Raphael e o narrador do quinto andar

Certo. Eu serei o narrador. Como todos devem saber, ser o narrador é igual a sofrer, passo-a-passo, qualquer estória contada. Ou melhor, observada.

Porém, antes, vou falar de mim. Minha personagem veio para contar um absurdo que ocorreu num certo quinto andar de um prédio ainda em construção, na praia.

Já narrei muitos casos, mas isso já faz tanto tempo. Hoje, me contento em observar pássaros e a política que em nada mudou. Rio, pensando que só mudamos de lado, quer dizer, a ditadura agora usa maquiagem democrática.

Irônico. Se irei narrar uma estória erótica que aconteceu naquele prédio, o mais indicado seria que  o narrador fosse outro, mas enfim…

Pensando bem, por que  o próprio escritor do conto não a quis contar? Aliás, o escritor geralmente se mantém do lado de fora. Sempre sobra para o narrador.

Às vezes, até acho que escritores são aberrações, porque nem sempre o que se conta é bonito ou prazeroso. Inda mais uma estória dessas. Num momento de sobrevivência à vilolência urbana, o cara quer falar de sexo!

 

Bem, de qualquer forma, serei eu a narrar. Narrar uma estória erótica, que surgiu a partir de um grito. Um simples grito de quem só queria obter orgasmos naquele tal quinto andar. Seria isso um facto anormal? Digno de virar um conto? Ou o escritor anda mesmo carente? Alguns escritores desforram nas personagens suas frustrações. E quem narra, segura o peso psicológico da situação.

O ‘meu’ escritor deve estar ficando senil. Este que resolveu analisar um grito na madrugada. Um grito de uma mulher se elevando ao êxtase.  E lá vou eu, narrar tudo o que aconteceu naquela noite de insônia. Minha, é claro.

Sou uma sexagenária. Passei dos sessenta há algum tempo. Cansei de ouvir estórias eróticas, inclusive piadinhas sobre minha idade, pois cheguei aos sessenta e nove. Quanto mau gosto. Algumas piadas deveriam passar pela censura. Nossa! O que estou dizendo?! É o sono…

Tenho lá minhas experiências, a maioria delas eróticas, confesso. O escritor não costuma errar, afinal de contas.

Assim, o que me trouxe aqui foi o Raphael.

Raphael era um rapaz atrevido que morava no mesmo andar que o meu.

Nesta noite, eu dormia tranqüila, quando fui acordada por passos no corredor. Mais parecia uma cavalaria na alvorada. Militares tomaram o poder? O engenheiro errou nos cálculos? Não, era aquele casal insaciável outra vez.

Quando jovem, fazia tudinho que fazem hoje, entretanto, tínhamos respeito à lei do silêncio, ainda mais na sacanagem.

Pensando melhor, esta estória é mesmo digna de ser contada. Sexo é, e sempre foi bom – para mim é pura terapia. Vez enquando eu faço minhas festinhas. Mas esse Raphael! Que menino ousado, um deuzinho do sexo, o sem vergonha.

Como dizia, eu acordara no meio da noite com aqueles excitados passos no corredor…

Eu, ainda menina, levava os garotos da vizinhança para uma casa abandonada na minha rua. Eu era a professora e hoje, com muito orgulho, devo admitir que muitos experimentaram sexo pela primeira vez com essa aqui, que vos narra. Mas Raphael – por que com ph não sei. Parece alfabeto dos meus tempos. O Raphael era muito bonito e suas sungas…

Perdão, parece que o espaço acabou. Sinto, mas não resisti em falar de mim.

Ou o escritor amassa o rascunho, ou o deleta. Ou conte ele mesmo sua estória erótica do menino Raphael. Volto para meu chá. O escritor que se vire, tenho mais o que fazer. E lembrar…

12 Respostas para “Raphael e o narrador do quinto andar”

  1. Prof Gasparetto Diz:

    Aprecio demais suas reflexões e indagações.
    Somos protagonistas de tudo ao redor, as palavras nos cobram, as letras nos assustam até! Mas não deixamos de escrever em alguns vazios um pouco de nós mesmos. Ou nos deletam, com tempo ainda de recuperar algo, ou nos formatam, apagando definitivamente o que poderia somar a tantos outros rascunhos!

    Te aprecio muito, mesmo que distante!


    Vidas Endossadas

    I
    Quem quer um amor
    que bordado está de cicatrizes
    e que há muito tempo
    está sobrevivendo?

    II
    Quem quer um amor
    cheio de recortes e lembranças
    que ao colar momentos
    coleciona muitos medos?

    III
    Quem quer um amor
    que se apagou nos retratos
    e ofuscado pelos flashs
    está se recolhendo?

    IV
    Quem quer um amor
    que explorou mil motivos
    que se explodiu de alegrias
    e que hoje está se perdendo?

    V
    Quem quer um amor
    que enfrentou o desconhecido
    pra conquistar um grande amor
    e iludiu desconhecendo?

    VI
    Quem quer um amor
    que memos em pedaços
    sonha em se construir
    em mil abraços querendo?

    VII
    Quem quer um amor
    que tantas imperfeições da vida
    se lapida por acreditar
    que alguém decifre os seus segredos?

    VIII
    Quem quer um amor
    que se aventurou pelas estradas
    e percebeu que há tantas jogadas
    e emoções tecendo?

    IX
    Quem quer um amor
    que leu nas entrelinhas interesses
    e por não querer ser um só pertence,
    preferiu sair perdendo?

    X
    Quem quer um amor
    que saiba navegar pelas varandas
    palavras e calores tão eternos
    e saber enfim o que está acontecendo?

    XI
    Quem quer um amor
    que quando necessita estar presente
    esquece do passado tão somente,
    que larga tudo e vem correndo?

    XII
    Quem quer um amor
    que as filosofias não entendem,
    que a história, e que as letras não compreendem,
    e que alguém dissesse simplesmente: “- Eu te entendo!”?


    até mais!

    Dom Gaspar I

  2. Eu! Eu quero esse amor, poeta ;)
    Eu o aprecio com todo meu ser.
    Beijos, Dom Gaspar. :)
    Valeu demais!!!

  3. MARAVILHA! me pareceu uma crise de identidade do próprio escritor , e tem umas críticas estilo Arnaldo Jabor , o conto ou crônica fica distante da atribulacão do narrador com o personagem…

  4. A vitalidade, essa coisa que não sabemos como denominar completamente, impulso vital talvez, é digno de vários contos eróticos, bilhões deles que perambulam por aí, sem ter muita noção do erotismo que percorre seu corpo. Sem refletir nele. Apenas pulsão. Creio que estão certos, volte, volte professora, e termine seu conto. Viva um pouco mais, deixe o chá pro lado de lá, venha pro de cá.
    Beijos.

  5. É, Marcela. Oi! :)
    Você, que é atriz, deve entender mais que eu hehehe.
    Beijo gatonaaaa! :P

  6. Se me pede, Mister Ervin, prometo não ficar ruborizada. Sexo na cabeça hehehe.
    Beijo, meu grande amor. :)

  7. Quero saber o restante da narração!!! Bjus

  8. hehehee

    Muito bom! Fácil e gostoso de ler.

    Bjs!

  9. Oi Aline:)
    Quem sabe a narradora mude de humor ;)
    Beijo lindinha :)

  10. Oi Robson :)
    Sua visita é um prazer. Ando sem tempo, mas irei visitar os amigos em breve. Estou na base da lan house hehe.
    Beijo.

  11. Obrigada pela homenagem. :)

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