Manuscritos

A vida, feita de instantes, não surpreende mais. Bom e mau é você que acorda às tantas e olha ao redor como se o mundo tivesse acabado. Em meio a apocalípticos arrotos, você encara um banho frio porque houve batida de carro, o poste se foi com os fios. Teus cabelos desgrenhados te deixam até mais bonito, mas nem só de beleza sobrevive tua concupiscência.
O lodo e a máscara de Veneza não mais te caem bem. Acabou o carnaval e já é junho, festa de bolos e milho, quentão é meu coração e ainda bem que tenho linda bota e botafogo não ganha, desliga esta televisão, dê descarga e vá logo!
É chegada a minha hora, desta vez eu vou escolher. Pode ser que acerte, e mesmo se eu errar, que bom errar sozinha. Meu nome é Suzana e sou escritora. Medieval, ainda creio em sacrifícios, mulher sangrando, masmorra e muitos amores. Sou bonita e falo muito entre amigos, até descobrí-los inimigos do meu ser.
Este cara aqui na minha cama é o Flávio, um homem, como podem ver, bem apanhado, magro e gentil. Mas não é o meu homem. Aliás, nunca é.
Preciso terminar um conto, pois publico no jornal Esfera, pois é, um grande jornal, porém, meu livro de ficção, “Arroubos de uma mulher sã” ainda não terminei e já gastei todo o dinheiro adiantado. Esse aí só dorme. Acabou nosso caso. Ele não me ama e eu começo a odiá-lo.
Meu nome é Cristina, Suzana é pseudônimo. Ambos são bregas, feios. Eu queria me chamar Anna. Anna Karenina eu queria ser. Mas ele me fez de vadia sem vódka e até quis me enganar com aliança e casório. Eu acho que acabamos. Ele me odeia e eu o desprezo.
Tenho várias botas e não sei qual usar no domingo. Uma de cano longo é perfeita, e cano longo tem o revólver que inventei para matar este que dorme ao meu lado. Ele me deixa e eu morro sem ele. Fez de conta que era eu uma princesa. Só que eu era mais a bruxa que enfeitiça.
Esta é outra personagem, do tal livro que não termino. Só manuscritos que eu sempre toco fogo. Meu nome é tristeza e este que dormia aqui chamava-se ladrão. De todos os meus sonhos eu sonhei escrever ladainhas, sou expert, não acham?
Meu nome é Maria, este é de batismo. Sou Maria, ele é João. João Ninguém é ele.
Eu, sou solidão. Esta cama aí vazia é minha há muito tempo, mas vou jogá-la fora. Vou viajar. Depois termino a estória. Ela não tem mesmo fim. São episódios, sou oportunista, ganho dinheiro com pseudônimos eróticos.
Pernóstico ele era. Eu sou pobre e soberba. Meu nome mesmo é Katrina, que rima com latrina, onde o joguei em pedaços de fotografia.
Esse cachorro não para de latir. O cachorro mesmo, um negro labrador, gordo e chato da vizinha. Nem digo quem ouço no rádio, aliás, computador.
Quis ser romântica, mas é MP3. É um louvor, música gospel, leveza em meu ser. Essa é outra personagem. O cara paga bem. Ele é o João Ninguém, entretanto, ama como poucos. Eu sou sonífero, ele é festa. Meu nome é ele, e ele anônimo é. O livro, eu vou conseguir… terminar.
[Para Anna Karenina]
Difícil é amar uma mulher e simultaneamente fazer alguma coisa com juízo. (Tolstoi)
Maio 31, 2009 às 3:15 pm
Perfeito!
Saudades!
Bjossss
Junho 1, 2009 às 1:52 pm
Olá, meninos bons!
Também tenho saudades.
Beijos!
Junho 1, 2009 às 2:50 pm
Bom! excelente , texto seu por excelência! PARABÉNS!
Gosto muito! Bom!
bj!
Junho 1, 2009 às 2:54 pm
Brigada, querida.
Beijo, Marcela.
Junho 1, 2009 às 3:06 pm
Foi em um dia de inverno , era bem frio meu coração , não amava e nem me deixava ser amada bonita ,bons olhos. Sim enxergava bem , olhos penetrantes vivos e negros pele branca e um tom de voz intrigante aguçado com uma rouquidão no final , não conseguia amar e se achava bem inteligente e esperta pra sua idade , tinha estudado artes cênicas e cria que a levaram de onde ela podia ser quem ela era , sulapadas da vida tinha ela levado desde a infância pois nervosa a menina de cabelos crespos e ohos gritantes , malcriada e meiga , sentia arrepios mediunicos , criada com avó e bisavó , sentia medo de não ter mãe e de não ser mãe também , passaram-se as infâncias e ela se tornou uma encabulada menina desordenada , amigos de torturas , sim me torturavam me por ser diferente e me amavam por ser eu mesma e sim acabo eu com a cama esvaziada e fria , descubro eu que sou mesmo uma mulher que não consegue amar.
Junho 2, 2009 às 10:36 am
“meu amor
teu cabelo é um reino
onde o rei é a escuridão
tua fronte é um vôo de flores
tua cabeça uma selva ágil
cheia de aves que dormem
teus seios de abelhas brancas
no galho que é teu corpo
teu corpo pra mim é Abril
cada axila aproxima a primavera
tuas coxas alvas cavalos de um carro
de reis
são o ritmo de um ótimo cantor
entre elas sempre há uma doce canção
meu amor
tua cabeça é um cofre
das jóias frias da mente
teu cabelo é um herói
que ignora sua derrota
teu cabelo sobre o ombro é uma tropa
com vitórias e trombetas
tuas pernas plantas de sonho
cujo fruto alimenta o esquecimento
teus lábios sátrapas em escalarte
cujo beijo é uma união de reis
teus pulsos
sagrados
são guardiões das chaves do teu sangue
teus pés nos tornozelos são flores num vaso
de prata
em tua beleza o dilema das flautas
teus olhos são a traição
de sinos vistos por entre o incenso”
e.e.cummings
Ele falou por mim. Ele fala sempre. Beijos.
Junho 3, 2009 às 7:07 pm
Marcela, continue escrevendo. É na prática que crescemos. Estou em eterna prática.
Beijos
Junho 3, 2009 às 7:08 pm
Querido Erwin, Minha tarde será especial, depois deste poema. Obrigada, amado
Junho 4, 2009 às 7:01 pm
Oi me visita no link abaixo.
Um abraço moça.
http://maquinadeletras.blogspot.com/2009/06/viajem-vista-parte-ii.html
Junho 9, 2009 às 2:42 pm
Eu chego a pensar nessa pluraridade que há em nós. A hora em que despertamos todas as personagens, adjetivando-as mediante determinado ponto de vista… Essa alteridade é sinônimo espiritual: Encarnação.
beijos
Junho 15, 2009 às 12:58 pm
meu nome é legião, já dizia um peladão doido encapetado pro jc.
Junho 22, 2009 às 12:58 pm
marcos 5, 1-9