Suicídio
Para o brother Rafael
O médico o fitou por longos minutos. Silêncio total. Paciente pálido, dedos nervosos. Ricto de dor. Psicólogo corado, tranqüilo, sereno.
Júlio César, o foguete, assumiu. Vencido pelos argumentos, declarou:
_ Oquei, doctor. Eu me precipitei. Mas e agora?
O médico levantou-se. Andou com passos suaves pelo recinto. Parecia flutuar. Júlio arrepiou-se.
_ Engraçado. Quando eu estava lá, depois de usar crack, maconha e cocaína, eu tinha essa sensação. Sabe, de voar, ver todo mundo flutuando. Mas aqui, de cara limpa… mó doideira, hi-hi.
O médico, de cabelos lisos, longos e branquíssimos, olhou para seu pescoço. Tocou nas cicatrizes deixadas pela faca. O jovem esquivou-se discretamente. Riu:
_ Tarde demais, doctor. Eu te disse.
O médico, com um longo sobretudo de linho, bem fino, deu uns passos pela sala. Inesperadamente falou:
_ Vou até sua casa. Preciso ver tudo de perto.
Surpresa de Júlio:
_ Não há mais o que fazer. Algumas coisas não têm jeito. De morte eu entendo. Lá na favela, já vi muito cair. Depois que o espírito se manda, um abraço! Ressuscitar não é papo pra mim. Nem to aí pra Deus. Pra dizer a verdade, nem pro diabo. Minha pistola é quem me guia ha-ha-ha.
O doutor, com expressão séria:
_ Irei e verei o que posso fazer.
_ Por mim, nada. Mas pode dá uma olhadinha na Pâmela. E no moleque. Ela, com aquela bunda enorme, vai esquecer de mim rapidinho. Mas o moleque, eu queria que fosse diferente com ele. (Tristeza inesperada).
Médico, tirou o sobretudo:
_ Verei o que posso fazer.
De repente, num piscar de olhos, sumiu. O rapaz fechou os olhos, tamborilando no braço da poltrona do consultório. Sua palidez crescia, assim como seus movimentos ficavam cada vez mais lentos. Estava desfalecendo.
II
Quando chegou ao barraco do paciente, o homem de branco seguiu direto para o banheiro. Lá estava o corpo do Júlio. De fato, não tinha mais vida. Ele não mentira. Um corte profundo o secara. Todo o sangue parecia ter saído por ali.
Balançou a cabeça com tristeza. Abriu a porta, sussurrando: Tarde demais.
Quando dobrava a esquina, ainda ouvia a gargalhada cruel: Mais um!
Enquanto isso, a polícia procurava as drogas na casa da namorada. A Pâmela.
Quando uma sociedade deixa matar crianças é porque começou seu suicídio como sociedade. [ Betinho ]


Outubro 22, 2009 às 9:21 am
” Já não posso nem chegar perto das pessoas que antes eu encontrava com prazer, de tanto que as conheço, de tanto que sei o que vão me dizer e o que vou responder, de tanto que já vi o molde de seus pensamentos invariáveis, o vinco de seus argumentos. Cada cérebro é como um crco onde um pobre cavalo circula eternamente encerrado. Não importam quais sejam nossos esforços, nossos desvios, nossos subterfúgios, o limite está sempre próximo e arredondado de uma maneira contínua, sem saídas imprevistas e sem portas para o desconhecido…”
Tirei esse trecho do Maupassant, em um conto chamado Suicídio. Para tentar entender a mente do seu personagem, aquele que matou a sua própria cria, antes de fazer o mesmo consigo. É , é mesmo proteção, seguida de arrependimento. Beijos, meu amor, agora de volta.
Outubro 23, 2009 às 5:56 pm
Há frustração por todo lado, mas nós nos safamos quando escrevemos. Ou pintamos, ou cantamos. Obrigada pela ilustração, sempre no capricho. Às vezes penso que todos morremos, de uma forma ou de outra. Essa violência aqui no Rio mexe comigo.
Beijos, Erwin.