Máquina, eu ainda sei amar

Então eu vi vísceras em ocasiões diversas. Porque sou obrigada a conviver com miséria, fuligens, e sopros nem tão divinos assim. Caminho pelo planeta, nem sempre alegre, nem sempre triste, porém muitas vezes atenta a um atentado (como fosse mulher árabe), uma luta de esquina, de esquerda.

Vou caminhando, apanhando rosas, curando espinhos e beijando a mim mesma por pura piedade de ti. São tantos os tropeços, as viradas, as vielas por onde passo para abraçar meu pai, e o namorado que invento toda vez que choro sem amor, toda vez que luto sem motivo, sim, lá está um namorado, um beijo mordido, e sangue na alma.

Às vezes penso que a luta está perdida, minha voz falha e rouca flutua sobre você, querendo possuir-te, escravizar-te e ser vossa dona. Logo eu que cantei a liberdade em tempos outros. Eu que fui a favor do livre arbítrio e da liberdade de expressão, quero calar-te agora depois que o romance com a democracia dissolveu-se?

Não porque eu quisesse, mas porque a vida me endurece a cada ano que passa. E passa como se fosse apenas um minuto, um segundo roubado de meu peito que sangra junto ao rio de pragas.

Quantas vezes escrevi poemas de olhos fechados, na cama, e o sono me venceu e o poema se foi madrugada a dentro, sugado pelos vampiros e por espíritos que tomam do poeta sua veia principal.

Sem ternura, chicoteei a todos que não me entenderam. Olhei pela janela e lá estava a gárgula que me enfeitiçava e a meus contos que eram negros, e o negror de minhas palavras assustavam, mas impunham meu desejo.

Quantas Alices eu desenhei, quantas de mim eu desdobrei em personagens; quantas poesias roubadas daquele que inventei. Alma nua e a solidão de meus passos ficaram para trás. Hoje, vivo dentro de uma máquina, penso como ela, suspiro e arroto, tudo dentro dela, a máquina de fazer escrever, a máquina que me ama e me morde.

Sinto o gosto acre dos teus beijos, ó máquina cruel, o tempo passa e a hortelã vai mudando o paladar. Teu beijo tem gosto de uísque e meu céu já não é azul.

Busco ainda o amor, o que se fora, aquele que espera no cais do porto, no aeroporto, na cama qeen. Sinto saudades de mim, quando meu vestido rodava negro sobre saltos e eu atraía olhares e mais olhares famintos a me querer.

Hoje sou parte da máquina, sou solidão em meio a multidão. E meu amor eterno, ele se foi porque acabou. Minhas paixões são efêmeras. Eu poderia te amar por um dia, mas te faria feliz. Entretanto, sou parte dessa máquina. Engrenagem virtual. E meus beijos são, hoje, gélidos estalos mal identificados.

Por isso choro enquanto escrevo. E grito e ninguém me ouve. Apenas a máquina. Ela e eu. Para sempre nós.

Onde está você? Eu ainda sou mulher.

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Para Manuel

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4 thoughts on “Máquina, eu ainda sei amar

  1. ¨ E passa como se fosse apenas um minuto, um segundo roubado de meu peito que sangra junto ao rio de pragas. ¨

    Altamente emotivo, muito bom e muito pouco pra dizer o quão bom e. Então tenho q procurar os adjetivos mais altos, como o espetacular e o divino.

    Parabenz, amei :) (com Z sim)

  2. “Não amamos quem queremos, como queremos e porque queremos. Amamos como podemos, e muitas vezes contra a nossa vontade, remando contra todas as marés, envoltos no mistério de uma escolha que não é feita por nós, mas por uma força que nos é superior à qual os místicos chamam destino, os cientistas chamam química e os portugueses chamam fado.”
    Tu me encantas .

    Beijo meu.

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