Archive for the alforrias Category

Absurdos universalmente cariocas

Posted in alforrias on Junho 23, 2009 by Daisy

Já era o quarto ou décimo conhaque. Sem contar as tantas long neck goela abaixo, numa esfusiante alegria mentirosa que só a cerveja trazia. As risadas acabrunhadas que saíam da boca de um homem triste. E dor nos dedos, de tanto rodar aquelas malditas chapinhas.

Olhou para a garota de programa. Disse que estava pagando hora extra, que ela escutasse o resto da estória. Ele preferira uma ouvinte a uma sinistra noitada de enlaces carnais. Sexo, dizia, nem sempre lhe era necessário. Não era um cão. Ao menos, não um que não pensasse, e sofresse por amor. É isso mesmo, ele continuou, estou pagando para ser ouvido. Pagando mico porque não sei se falei mesmo com Deus ontem. Você nem precisa analisar ou tentar adivinhar. Apenas ouça. Caladinha. Sem sorrisos condescendentes, sem ironias. Sem blasfêmeas porque pode ter sido mesmo uma experiência sobrenatural.

Onde eu estava mesmo? Hum… Sim, eu havia chegado em casa tarde da noite, depois que minha mulher dissera que estaria apaixonada por outro, e se foi, sem maiores explicações… O quê? Mais uma long? Tá bem, tá bem! Mas ouça com atenção. Sabe quem é Deus, né? Não? Bem, tudo bem. Eu também não sei. Não por incredulidade, mas, francamente.

Eu nem sei o que é genética, física quântica. Esses fenômenos da criação genial me distanciam de Deus. Micro-universos, um sem fim de galáxias. Quem sou eu, certo? Mais conhaque, meu chapa! Manda ver!

Então, eu chegara bêbado em casa. Não sabia se queria vomitar ou cagar. As duas coisas não dava. Assim começou minha agonia. Sou um homem limpo e não conseguia me imaginar vomitando na pia, enquanto a coisa me borrava nas calças. Chorei copiosamente, olhando-me no espelho. Eu via uma cara vermelha, uma imagem safada rindo de mim. Eu estava horrível, cara!

Meu cigarro acabou de novo. Garçom! Um Hollywood vermelho. Será que alguém ainda se orgulha de consumir coisas vermelhas? É política, bobinha! Você até que é bonitinha… Por que entrou nessa de prostituição? Volta a estudar, porra! Bem, eu nada tenho a ver com sua vida. Foi só uma sugestão. Onde eu parei? Ah… acendeu, obrigado, menina.

Resolvi que sentaria no vaso. Se vomitasse, seria no chão. Eu limparia tudo depois. Seria fácil, se não fosse a descoberta de que eu simplesmente não conseguia levantar-me daquele maldito vaso sanitário. Ou seria vaso sanatório? Eu estaria louco? Precisava me limpar e não tinha papel. Jornal de ontem. Nada! Olhei para o lado. Então eu a vi…

Por que você se coça enquanto eu falo, garota? Quer mais dinheiro? Um presente, sei lá! Dou um batom. D’O Boticário. Sei que vocês gostam…

Eu vi a Bíblia da minha mulher sobre a banqueta que deixávamos no canto do banheiro. Era como um revisteiro, entende? Revisteiro… de revistas! Ah! Então. Passou pela minha cabeça, eu confesso. Ocorreu-me usar aquelas folhas fininhas como papel higiênico. Ei, não precisa fazer esta cara! Aliás, eu estou pagando pelos seus ouvidos e só. Toma, bebe conhaque, talvez você sinta menos culpa. Batom rosa. Combina com sua idade. Deve ter uns vinte, não? Deveria ter pudor sobre isso também. Chega desta estória.

Se Deus existia ou não não era a questão. Ele existia sim, concluía com olhos vermelhos e brilhantes. Eu é que sou um vermezinho ignorante, portanto não tenho obrigação de entender o cara que criou isso tudo. Entretanto, o que chamou minha atenção, foi a atenção que Ele me dispensou naquele vaso.

Quanto custa o batom? Vinte pagam? Toma cem pelo seu silêncio. Bons ouvidos, garota. Estuda para ser terapeuta, psiquiatra. Com essa falsa concentração você vai longe. Pigarro. Ela, já relaxada de conhaque e com o dinheiro, fala, como se falasse sozinha. E eis que uma mulher lhe saiu ao encontro, com enfeites de prostituta e astuto coração. Quê? Ela olhou para ele e riu: Provérbios de Salomão, 7, 10. A putinha era inteligente. Sabedoria ou ex-crente? Voilá!

Ela levantou-se e andou em direção à porta de saída. Ele pensava se fora mesmo Deus que o tirara do vaso e o limpara no chuveiro. Apenas acordara na cama. Limpinho. Gritou para a garota se ela concordava que fora Deus naquele banheiro. Ela joga os cabelos para trás e dá mais um daqueles sorrisos soberbos. Não, não foi Deus. Foi sua mulher! Tá.

Domingo

Posted in alforrias with tags on Abril 6, 2009 by Daisy

homem
Domingo é um bom dia. Distração. E até, muitas vezes, um dia de pura comunhão com nada. Ou não. Quem seria eu para profetizar este dia bom.
Domingo é antigo, Raul se entediava por ter que dar pipocas aos macacos. Darwin? Ah, chega desse papo.
Domingo, às vezes pode ser bom. Deveria ser bom, se não fossem esses erros que cometemos nos dias que antecedem este dia.
Domingo é bom, folga, preguiça, jantinha rápida e nenhuma vontade de estar com ele.
Passei um domingo bom. Passei, antes, por ele. É, na verdade, um péssimo dia, se você estiver com homens. Não confie em homens.
Arrependo-me, pois poderia ter passado este dia confiando num beija-flor, numa formiga. Entretanto, estupidamente, pensei em homem, ao invés de resgatar a natureza que não tarda a acabar.
Não confiemos nos homens. Aos domingos menos ainda. Os homens mentem. São hipócritas e não merecem, nem céu, nem inferno. Os homens mentem. Não confiem neles.
Domingo não existe mais. Pena ver as igrejas debatendo-se, num momento em que não há mais homens de confiança. Não, não confiem nos homens.
Tente as borboletas, as gaivoras, corsas. Focas? Experimente qualquer coisa diferente de homens. Até as tartarugas são honestas, mesmo minhocas se prestam a algo. Mas não creiam nos homens.
Não há diabo a nos irar. Nem Deus a errar ou envergonhar-se da criação. É certo que o erro, nós os cometemos. Traimos a nós mesmos. Não creiam em si mesmos. Não acreditem nos homens.
Um bom domingo seria bom sem estar pensando em outrem. Sem estar com vontade de matar a criação. Por que eu tenho como vizinho um homem? Por que não um gato? Uma abelha? Baleia seria pedir demais…
Não peço, exijo: não quero homem por perto. Sobrevivo sem ele, nem quero ser humana mais.
Um domingo seria bom sem falsas palavras, caso tivéssemos coragem de dizer a verdade a respeito de nós mesmos. Não devemos crer na gente. O povo mente. Teu marido mente. Tua esposa mente.
Um bom domingo seria estar só, em meio a pipocas, esquecendo-se da humanidade, e assistindo várias vezes aquele mesmo filme.
Domingo que nada!
Homens nada valem, afinal. Não confie na humanidade. O homem errou sempre. Mentiu sempre.
Quem dera ser uma simples borboleta, ou um leão dos bons.
Provavelmente adestrariam-me, porque homem não presta. É puro veneno que matou baleias e esperanças.
Domingo só é bom se for de mentira. Não procure a verdade, ela não te libertará.
Antes, te mostrará quão falso é o homem. Não acreditem nos homens. Seja um beija-flor. De preferência se for domingo.

Engraçado

Posted in alforrias on Fevereiro 18, 2009 by Daisy

Às vezes. Ou, por várias vezes, minhas mãos tremem. Isso começou aos sete anos, quando eu pretendi escrever coisas que saíam de mim.

Tempos depois, eu ainda sentia este tremor inexplicável, ao apertar entre meus dedos uma caneta, ou teclas de alguma antiga máquina de escrever. Imaginem que já datilografei meus números, e inúmeras vezes descobri resultado zero.

Entretanto, me parece bucólico e besta lembrar de tempos idos. Coisas do Além.

Muito bom é para mim ser feliz. Assim, de forma genuína, esquecer dos tantos motivos para me redimir. E quando penso em Tim Maia, desfaleço em orações.

O que você perguntaria a Deus, caso tivesse esta oportunidade?

Começo eu: “Deus, por que ainda estou sem computador no Recreio (praia) e meu tempo na simpática Lan House acabou?”

:) Beijos:)

Renovação

Posted in alforrias with tags on Janeiro 23, 2009 by Daisy

essa1

 

Assim como as águias, devo parar, vez por outra,  para questionar opções na vida. Repensar no tempo dos meus sonhos.

Elas, essas aves adivinadas, perdem um precioso tempo quando decidem pela renovação, ou seja, recolhidas no topo de alguma montanha, esperam com a paciência dos dias, pela misericórdia do renascimento.

Lá no alto sobrevivem em pleno sofrimento, e esperam o renascer do bico para assim arrancarem as velhas unhas. Com as novas unhas, retiram dolorosamente suas penas. Sem contar sua valentia ao violentar seu antigo bico contra a pedra, para início de sua renovação. Aí, ela se cala, e aguarda.

Assim somos nós. Talvez, menos corajosos que essas aves, mas também somos passíveis de renovação.

Doer, dói. E muito. Entretanto, se vejo pelo lado milagroso da escolha, ou seja, do direito de voltar à vida, livre de velhas e cansadas atitudes, é possível voltar a ser feliz e voar de encontro ao novo dia. Poder ser eterna depois da dor.

Águia sou eu também. Difícil é me recolher nas montanhas, arrancar o bico, retirar as unhas e depenar-me em plena solidão.

Porém,  não custa tentar. A natureza me ensina.

 Eu desejo os céus, entretanto, sou antes, discípula da águia.

Semeadura

Posted in alforrias on Setembro 1, 2008 by Daisy

É como sentar sobre a pedra do esquecimento, pousar a cabeça nas mãos, e dormir no tempo. As folhas caem, e caem mesmo misérrimas no campo das margaridas.

Qualquer identidade desfaz a real vontade de ser mais que um ser. De poder voar. Mas as asas se quebram, e somente Ícaro poderia falar mais sobre o ar. Eu, assim como um vaso remendado, um milharal que não vingou, ouço o rulhar de aves ao redor do campo. E lá, nada poderei colher. Sou desta forma, como o espantalho a assustar meu próprio amor.

Não poderia nem mesmo ir ao fundo do poço… vai que não encontro água? Se minha saliva seca, quem mais eu poderei beijar?

São momentos, estes quase nenhum, onde a mulher se sente amada, de um jeito quase mágico. Mas se é magia, tudo pode mudar à meia noite.

 Mesmo sendo meio dia.

Vida

Posted in alforrias on Agosto 8, 2008 by Daisy

Tudo pode parecer nostálgico, já visto e pensado. Nada é tão inédito ou original. As pessoas se parecem, as dúvidas, as de sempre, sorvetes, nem adianta inventar: chocolate!

Em termos gerais, tudo é igual como sempre foi, homens andam, correm, para depois sentarem sobre a inércia do igual. Nada de novo, o céu sem disco voador, e livros imensos, pensamentos, vírgulas e nada há mais para falar.

Será o fim do mundo, ou as coisas são mesmo assim, somos dessa forma, tão iguais? Choramos, rimos, discordamos, e filosofar pode ser o único caminho, desde que não seja único.

 Nada de novo, tanto faz, Hong Kong, Sidney, África, desertos somos nós, despatriados, e talvez nem seja o céu, limite do limite.

Nada de novo porque se repetem palavras, letras tremidas ou inventadas, tudo dará em nada, é limitado, tudo é pouco e não há como fugir de tal constatação. Arte, moderna ou não, ou nem arte sempre será, será arte, esboçar a monótona tentativa de reinventar a vida?

Sem chances, sem nada, nada de novo. Homem sem rumo, astronauta confuso… e, de certo mesmo só o poeta a olhar estrelas, viu… poeta, estrelas… palavras cansadas. Ataraxia, mumificadas reverberações. Nada muda as palavras. Certo mesmo, quem sabe, a vontade de escapar do confuso cárcere espritual. Acho que é isso.

Flores não nascem do nada, mas semente, vem de onde? Então é tudo igual, você, o girassol e o capim que a vaca pisa, estúpida criatura sem nome. E, Deus, como vacas são iguais!

Nada de novo, a não ser uma dorzinha aqui… acolá. Dores são poderosas, se multiplicam e espalham-se vaidosas a se mostrarem únicas. Mas talvez sejam as dores também bem iguais.

Nada pode ser inédito, nem novo, nada chama atenção. Que merda, melhor ser criança, ainda é. E elas são irritantemente iguais. Mas isentas de culpa. Isso faz a diferença. Sem culpa, sem limite.

Limites são o inferno que norteia nossos pensamentos. Limites enlouquecem raças, povos; e costumes são tão iguais.

Nada há de novo, nada a narrar, nem um OVNI eu vi, mas as pessoas são alienadas, alien de mim, e, eu posso jurar, as pessoas são iguais, normais, e não importa a língua, o título. Somos forçosamente iguais.

Novidade, hum… pensar que Hitler foi criança, Arnaldo Antunes e eu também.

Que mesmice ser gente.