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Dos sustos – Diego Viana

Posted in autores on Outubro 1, 2008 by Daisy

 Tenho imenso prazer em publicar este maravilhoso artigo/reflexão do amigo Diego Viana, do Para ler sem olhar. Aliás, indicadíssimo por mim.

 

“De súbito, salta a meus olhos a razão dos sustos. Refiro-me àqueles que parecem se abater sobre cada vivente de tempos em tempos, regulares como as crises sistêmicas do mercado financeiro, mas bem mais freqüentes. Esses traumas, maiores ou menores, são o mecanismo que a natureza criou para nos trazer de volta à vida, quando estamos, sem saber, há muito levando os dias como autênticos defuntos.

Explico. É um engano conceber nossa existência como um arco no tempo, embora seja nossa interpretação mais corrente: uma parábola que salta do nascimento, na maturidade atinge seu cume suave e daí vai descaindo pela velhice, até reencontrar o eixo das abscissas quando a morte nos alcança. Uma curva assim tão suave não pode representar a vida, essa que é tudo, menos suave, e tão menos viva quanto mais tranqüila e regular.

Para quem a observa com atenção, diria mesmo com carinho, a vida desvenda seu doce segredo. Ela se revela inteira, como um fractal surpreendente. Dentro do tempo que nos é reservado nesta existência, que por sinal é muito pouco, temos o dom de nascer muitas vezes, em várias direções, com intervalos que podem ser incrivelmente curtos. No fundo, em vez de uma só, levamos levamos várias vidas, um fragmento dela a cada vez. E isso faz de nós caleidoscópios pulsantes, com todas as cores e movimentos que um caleidoscópio deve ter.

Que isso implique um sem-número de pequenas mortes para cada um de nós não deveria ser causa de aflição. Quem chegou até aqui já provou sua resistência. Não sucumbiu aos muitos finais que já sofreu, nem ao medo de cada reviravolta, mesmo se chegou a pensar que não mais poderia. A última morte, aquela que atinge também a carne, arrisca perder-se no esquecimento, depois de tantos traumas e tantas primaveras.

É assim que passam os anos, é assim que se forma aquele arco que, por desatenção, tomamos pela vida de verdade. Vivemos por um tempo, depois morremos sem saber. E podemos ficar anos, muitos anos assim. Pobres zumbis, cadáveres ambulantes mas asseados, confortáveis no esquife acolchoado de certezas em que nos enterra o quotidiano.

Quanto mais rápido vier o susto, melhor e menos traumático. Quanto mais nos acomodamos na segurança, tão artificial, que se apresentava, ardilosa, como objetivo maior de qualquer vida, mais teremos de sofrer para aceitar que há muito já não vivemos e precisamos nascer de novo, com o impulso de um bom susto. Mudanças desse gênero são quase sempre muito difíceis e deixam sequelas na versão renascida do defunto.

Como ele pode vir, esse tal susto, todos sabem. Quem se flagrar em dúvida deve desconfiar. Se jamais tiver passado por um, é provavelmente porque ainda está precisando. Ainda vive como um morto e não descobriu. Quando soar o alarme, soará em alguma forma inusitada, imprevisível, sorrateira. Eventos físicos e óbvios, talvez, como a experiência de quase ser atropelado, ou se cortar profundamente com uma faca de cozinha ao fatiar tomates. Mas podem sobrevir ainda os superlativos do padecer moral: separações, traições, desilusões.

Venha como vier, o susto é um novo parto. Acordamos para um mundo que tínhamos esquecido, isto é, acordamos para a vida. Descobrimos o quanto éramos mortos, quão idênticos eram nossos dias, como o são os dias da matéria inerte que fatalmente nos tornaremos. Somos atingidos, reagimos. Sentimos o sangue que corria em nossos vasos sem que déssemos por ele. É para isso que tomamos sustos, é por isso que desabam nossos universos.

Porque sofremos, podemos fruir. Eis um decassílabo que resume a existência.”

Dia do escritor! – Stanley Tookie Williams e um parecer de Fátima Tardelli

Posted in autores with tags , , on Julho 25, 2008 by Daisy

Não deixe de ler o ensaio de Fátima Tardelli.

Stanley Tookie Williams foi um condenado à morte em dezembro de 2005, por  matar várias  pessoas nos EUA, quando era jovem e fazia parte de gangues.

Não só jovem, como negro, desorientado e sem a atenção imperialista norte-americana que não consegue se desvencilhar do recalque de ter que hospedar afro-descendentes, latinos, cães e orientais em seu solo sagrado.

Williams cumpriu pena de mais de vinte anos, e esgotou todas as possibilidades de receber nova chance na vida, ao menos a prisão perpétua.

 Recebeu indicações ao Prêmio Nobel da Paz e da Literatura, visto que demonstrava arrependimento por sua rebelde conduta na juventude.

Escreveu vários livros infantis, numa clara proposta de alertar crianças e jovens do terceiro mundo para  não entrarem no sub-mundo do crime.

Acontece que, por razões que fogem à razão humana, nem prisão perpétua o escritor conseguiu nos meandros da Lei.

O então governador da Califórnia, o péssimo ator violento Arnold Schwarzenegger, daquela banda bushiana, agindo talvez como marionete de games assassinos, não só negou o perdão a Williams, como decretou, diante de um mundo boquiaberto, a pena de morte do escritor, por via de injeção letal.

O exterminador do futuro  misturou ficção com realidade, neutralizando a boa vontade da solidariedade humana, descabaçando a possibilidade da difusão do amor e salvação da pobreza moral do terceiro mundo infantil através da literatura.

Acredito que o ex-ator nem tenha sabido da grandiosidade de seu ato assassino. Ele não matou o escritor Stanley Tookie Williams, mas uma verdadeira oportunidade de conscientização cidadã em todas as crianças pobres.

Mas pensando bem, o  que o  Imperador ganharia se crianças negras e pobres começassem a ler?

 

Eu saúdo a todos os escritores de todos os tempos!

 Mas minha homenagem este ano  vai para as crianças analfabetas do terceiro mundo, para Stanley Williams e Fátima Tardelli, escritora, e uma advogada idealista que em momentos de ternura visita os blogs dos poetas, deixando um pouco de sua própria poesia.

Geraldo Vandré, nossa Memória é mesmo Curta

Posted in autores on Julho 9, 2008 by Daisy

Disparada
Composição: Geraldo Vandré e Theo de Barros

Prepare o seu coração
Pras coisas
Que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar…

Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo
A morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar
Eu vivo pra consertar…

Na boiada já fui boi
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu…

Boiadeiro muito tempo
Laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente
Pela vida segurei
Seguia como num sonho
E boiadeiro era um rei…

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E nos sonhos
Que fui sonhando
As visões se clareando
As visões se clareando
Até que um dia acordei…

Então não pude seguir
Valente em lugar tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente…

Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto prá enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar

Na boiada já fui boi
Boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse
Por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
Querer ir mais longe
Do que eu…

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
Agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte
Num reino que não tem rei

Geraldo Vandré nasceu em 12/09/1935. Vive em São Paulo e ainda compõe. Nega que foi torturado na Ditadura. Dizem que enlouqueceu.

Se queres ser universal…

Posted in autores on Julho 2, 2008 by Daisy

Retrato de Tolstói (1887), pelo artista Ilya Yefimovich Repin

… começa por pintar a tua aldeia. (Liev Tolstói)

O homem não tem poder sobre nada enquanto tem medo da morte. E quem não tem medo da morte possui tudo. (Liev Tolstói, Guerra e Paz)

 

Acho que muita gente sabe que eu sou aficcionada por escritores do séc. XIX. E que tenho duas paixões russas. Uma é o incomparável Fiódor Dostoiévski - meu preferido e ideal para tudo: escritor, pensador e principalmente impiedoso desconstrutor do homem pré-estabelecido.

Mas Liev Tolstói, esta sumidade pintada no quadro acima, me enternece desde menina. Eu o amei inicialmente por ser o pacifista pós-guerra de Criméia, ainda que tenha participado dela.

Mais adiante, quando estudei por quatro anos Filosofia Oriental e mergulhei na alma politicamente espiritual de Gandhi, lembro ter me sentido muito feliz porque extasiou-me aquela amizade de dois grandes homens. Dois grandes homens, dois amigos que trocavam simpatias através de cartas. Tolstói e Gandhi. A junção perfeita para o homem moderno não se perder espiritualmente.

 De um lado, um yogui determinado a se impor ante a frente inglesa. De outro, Tolstói quebrando a banca do papado cristão, até ser expulso da igreja ortodoxa.

 Citei três pilares que me sustentam enquanto base mais sólida. Mas hoje minhas reverências vão para o realista inconformado. Leon Tolstói.

Nota – Indico o escritor considerado o fundador da literatura russa, Alexandre Pushkin - séc. XVIII – XIX, estonteante poeta e romancista.

Robert Frost

Posted in autores on Maio 27, 2008 by Daisy

Acabei de ler umas poesias de Robert Frost, esse que é talvez o maior poeta norte americano do séc. XX, ganhador de quatro Pulitzer.

A poesia chama-se Mending Wall, ou Muro Remendado.

Vou ao médico amanhã ver minha mão (ainda engessada) e fiquei pensando se não tivesse companhia, que vizinho chamaria para ir comigo. Leia esta maravilha e pense se você tem um bom vizinho…

 

Muro Remendado (Mending Wall)

Alguma coisa existe que não aprecia o muro,
Que enfia bojos de terra gelada por baixo,
E derrama as pedras superiores ao sol,
E faz buracos onde até dois podem passar abraçados.
O trabalho dos caçadores é outra coisa:
Eu cheguei depois deles e fiz a reparação
Onde não deixaram pedra sobre pedra,
Mas conseguiram pôr a lebre fora do esconderijo,
Para deleitar cães latidores. As brechas, quero dizer,
Ninguém as viu fazer ou as ouviu fazer,
Mas na época primaveril dos arranjos encontramo-as lá,
faço o meu vizinho saber para lá da colina;
E um dia encontramo-nos para percorrer a linha
E assentarmos o muro outra vez entre nós.
Mantemos o muro entre nós enquanto avançamos.
A cada um as pedras que caíram para cada um.
E algumas são formas e outras são tão como bolas
Que temos de usar um feitiço para as equilibrar:
“Fica onde estás até voltarmos as costas!”
Ficamos com os dedos ásperos de as manipular.
Oh, somente outro gênero de jogo ao ar livre,
Um de cada lado. Mas vai mais longe:
Aí onde se encontra, nós não precisamos de muro:
Ele é todo pinheiros e eu sou um pomar de maçãs.
As minhas macieiras nunca atravessarão
Para comer os cones sob os seus pinheiros, digo-lhe eu.
Ele só me diz, “Boas cercas fazem bons vizinhos.”
A primavera instiga-me e pergunto-me
Se lhe posso despertar a razão:
“Porque razão fazem bons vizinhos? Isso não é
Onde existem vacas? Mas aqui não há vacas.
Antes de construir um muro eu inquiriria para saber
O que estaria a incluir ou a excluir,
E a quem era suposto ofender.
Alguma coisa existe que não aprecia o muro,
Que o quer no chão”. Poderia dizer-lhe “duendes”,
Mas não são duendes exactamente, e eu prefiro
Que ele o diga a si próprio. Vejo-o por ali,
A agarrar uma pedra com firmeza pelo topo
Em cada mão, como um antigo selvagem armado de pedras.
Move-se na escuridão e parece-me,
Não apenas a das florestas e a da sombra das árvores.
Ele não irá atrás do dito de seu pai,
Gosta de ter pensado naquilo tão bem
E diz novamente, “Boas cercas fazem bons vizinhos.”