Archive for the Belas Category

Manuscritos

Posted in Belas with tags on Maio 29, 2009 by Daisy

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A vida, feita de instantes, não surpreende mais. Bom e mau é você que acorda às tantas e olha ao redor como se o mundo tivesse acabado. Em meio a apocalípticos arrotos, você encara um banho frio porque houve batida de carro, o poste se foi com os fios. Teus cabelos desgrenhados te deixam até mais bonito, mas nem só de beleza sobrevive tua concupiscência.
O lodo e a máscara de Veneza não mais te caem bem. Acabou o carnaval e já é junho, festa de bolos e milho, quentão é meu coração e ainda bem que tenho linda bota e botafogo não ganha, desliga esta televisão, dê descarga e vá logo!
É chegada a minha hora, desta vez eu vou escolher. Pode ser que acerte, e mesmo se eu errar, que bom errar sozinha. Meu nome é Suzana e sou escritora. Medieval, ainda creio em sacrifícios, mulher sangrando, masmorra e muitos amores. Sou bonita e falo muito entre amigos, até descobrí-los inimigos do meu ser.
Este cara aqui na minha cama é o Flávio, um homem, como podem ver, bem apanhado, magro e gentil. Mas não é o meu homem. Aliás, nunca é.
Preciso terminar um conto, pois publico no jornal Esfera, pois é, um grande jornal, porém, meu livro de ficção, “Arroubos de uma mulher sã” ainda não terminei e já gastei todo o dinheiro adiantado. Esse aí só dorme. Acabou nosso caso. Ele não me ama e eu começo a odiá-lo.
Meu nome é Cristina, Suzana é pseudônimo. Ambos são bregas, feios. Eu queria me chamar Anna. Anna Karenina eu queria ser. Mas ele me fez de vadia sem vódka e até quis me enganar com aliança e casório. Eu acho que acabamos. Ele me odeia e eu o desprezo.
Tenho várias botas e não sei qual usar no domingo. Uma de cano longo é perfeita, e cano longo tem o revólver que inventei para matar este que dorme ao meu lado. Ele me deixa e eu morro sem ele. Fez de conta que era eu uma princesa. Só que eu era mais a bruxa que enfeitiça.
Esta é outra personagem, do tal livro que não termino. Só manuscritos que eu sempre toco fogo. Meu nome é tristeza e este que dormia aqui chamava-se ladrão. De todos os meus sonhos eu sonhei escrever ladainhas, sou expert, não acham?
Meu nome é Maria, este é de batismo. Sou Maria, ele é João. João Ninguém é ele.
Eu, sou solidão. Esta cama aí vazia é minha há muito tempo, mas vou jogá-la fora. Vou viajar. Depois termino a estória. Ela não tem mesmo fim. São episódios, sou oportunista, ganho dinheiro com pseudônimos eróticos.
Pernóstico ele era. Eu sou pobre e soberba. Meu nome mesmo é Katrina, que rima com latrina, onde o joguei em pedaços de fotografia.
Esse cachorro não para de latir. O cachorro mesmo, um negro labrador, gordo e chato da vizinha. Nem digo quem ouço no rádio, aliás, computador.
Quis ser romântica, mas é MP3. É um louvor, música gospel, leveza em meu ser. Essa é outra personagem. O cara paga bem. Ele é o João Ninguém, entretanto, ama como poucos. Eu sou sonífero, ele é festa. Meu nome é ele, e ele anônimo é. O livro, eu vou conseguir… terminar.

[Para Anna Karenina]

Difícil é amar uma mulher e simultaneamente fazer alguma coisa com juízo. (Tolstoi)

Dor

Posted in Belas with tags on Abril 27, 2009 by Daisy

esta

Desejos são fragmentos de um mesmo querer, assim, sem muitas frescuras, não há como não desejar. Desejam o homem alheio, o país alheio, a mulher daquele, um sorvete, um carro novo.

Desejos são bucólicos, certeiros, errados, inofensivos, e muitas vezes mortais. Vide Shakespeare. Difícil conter alguns desejos, uns nem tanto, mas há desejos ferozes, mordazes, animalescos, assassinos.

Quem não quis matar alguém, ou algo, uma lembrança…

Desejos loucos, insanidades poéticas, desejos de se afogar por um amor, ou trepar na videira e morrer enforcado de uma vez. Desejos caninos, lobos e coelhas no mesmo pasto com vacas burras e homens maus, muito maus.

Vontade não dá e passa, é mentira, se não sacia ela mata aos poucos. Pode até esquecer, mas é difícil. Tesão ou não, desejo é desejo, é dormir com esse barulho que nem é muito e nem é por nada, é difícil como uma doença rara.

Amor é ruim, chato, limita as possibilidades de outros desejos. Um cinema cai bem, mas com quem? Maldito desejo de estar com a pessoa que rouba, como o diabo a nossa paz. Leva embora as flores do apocalipse, contradições de embriaguez de quem deseja desejar.

Desejar uma cama macia, um perdão, roupa nova, vestidos e luvas de pelica. A porrada é certa, e na hora de dormir, vira pro lado e sonha com um anjo que cospe fogo e agarra a saia com garras de dragão.

Homens que desejam e não sabem ter. Não me têm, não mais. Isso é desejo: não desejar querer mais alguém. Para isso fazer o quê? Achar outro corpo para hospedar a libido morta em escamas cintilantes. Matar um e beneficiar a outro.

Desejos matam, mas morre quem não os sacia. Morre quem não arrisca. Morre. Eu morro sempre. Vida louca. Vida minha. Vidinha.
Se não cobiço não estou viva, fim de semana, é tempo de desejar. Mas a quem vou querer nesse fim de mundo? Minha cabeça é confusa e esses tecnológicos encontros me insatisfazem.

Na insatisfação corro riscos. Há tentações em meus porões, creio que ficará difícil sair dessa sem um crime. Crime sem castigo. Eu e minha consciência nos bastamos. Na minha ou na sua (cidade)?

Qual é a senha?

Posted in Belas with tags on Março 31, 2009 by Daisy

mulherEla entrou no laboratório de informática da faculdade com o firme propósito de conhecer alguém diferente, seja na rede de bate-papo, seja um qualquer que estivesse sentado ao seu lado.
Nada de prostituição, namoração, fogo no traseiro, nem nada. Apenas o tédio tomara conta de todo seu ser. O pré-vestibular estava um saco. Matematicamente falando ela estava zerada no amor. Um vazio cósmico a abraçava, e pela manhã, nem Freud, nem pai – de – santo. Era tudo chato em sua vida.

Já não queria nem desejava o ex-namorado, tanto que era “ex”. Na verdade queria encontrar sentido nessas relações sérias onde o macho domina até a roupa da fêmea. Ciúmes e cuidados excessivos para depois. Depois nada! Ela sabia o tempo todo que ele era chato, louco, uma espécie de machinho em extinção. Sem coração, muito tesão e só.

É. Estava mesmo amarga naquele dia. Não conseguiu entrar no blog, esquecera a senha da livraria, a senha nova do banco. Qual é a senha da morte?!

Não dava pra ser daquela forma. Como um ser humano, um aparvalhado ser humano mulher poderia chegar àquele estágio? Sem lógica. Pensou que ficaria com o primeiro homem que visse pela frente. Não deu certo. “Bom dia, pai.” Azar, tudo que vinha em sua mente era a palavra azar.

Saiu da internet e entrou na igreja. Silêncio. Menos mal. Fechou os olhos e pediu um milagre. Um milagrinho singelo. Que alguém baixasse seu fogo. Fogo de beijar, se prostituir, rasgar a roupa de seda, devassa seda aquela.

Despediu-se das irmãs e foi ter com o diabo. Olhos claros, skol e cigarros de menta. Pensou que a saia estava muito curta, mas gostou da idéia. Risos e piadas sem graça. Grande papo. O cara não sabia nada de Fellini, Saramago ou Evangelho. Mas tinha um belo sorriso. Um burrinho lindo que falava. Como na Bíblia, ela pensou encantada.

Anoiteceu. Ele se foi, fazia curso de informática. Talvez jovem demais. Ou ela se sentia velha nesse tempo de tédio. Mais de trinta, hum… não é fácil ter quarenta. Idade emocional de adolescente e uma boa plástica. Tava bom, de qualquer forma perdera as senhas da vida eterna.

Mas um atalho para chegar ao paraíso ela conseguira. Chegou em casa e resolveu ligar para o celular dele. Por que não? Aprenderia coisas com ele. E ele com ela. Ficou feliz e pensativa por uns instantes. Sim! Ligaria para o milagre bíblico. Mas… cadê o número? Por que não levou o celular pra rua? Onde está o maldito guardanapo com o número?!

Deitou-se na cama pedindo a Deus a senha do inferno. Chega.

A Divina Diva Hilda Hilst

Posted in Belas on Julho 19, 2008 by Daisy

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Do Desejo
 

E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?

Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas

Obscenas, porque era assim que gostávamos.

Mas não menti gozo prazer lascívia

Nem omiti que a alma está além, buscando

Aquele Outro. E te repito: por que haverias

De querer minha alma na tua cama?

Jubila-te da memória de coitos e de acertos.

Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

(Do Desejo – 1992)

  * * *

 Colada à tua boca a minha desordem.

O meu vasto querer.

O incompossível se fazendo ordem.

Colada à tua boca, mas descomedida

Árdua

Construtor de ilusões examino-te sôfrega

Como se fosses morrer colado à minha boca.

Como se fosse nascer

E tu fosses o dia magnânimo

Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

( Do Desejo – 1992)

 * * *

 Que canto há de cantar o que perdura?

A sombra, o sonho, o labirinto, o caos

A vertigem de ser, a asa, o grito.

Que mitos, meu amor, entre os lençóis:

O que tu pensas gozo é tão finito

E o que pensas amor é muito mais.

Como cobrir-te de pássaros e plumas

E ao mesmo tempo te dizer adeus

Porque imperfeito és carne e perecível

 E o que eu desejo é luz e imaterial.

 Que canto há de cantar o indefinível?

O toque sem tocar, o olhar sem ver

A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.

Como te amar, sem nunca merecer?

(Da Noite – 1992)

Fauna

Posted in Belas on Junho 1, 2008 by Daisy

Fez pouco o cachorro inglês em pedigrees falsificados. Lindo como o sol e triste qual macaco na jaula, assim foi-se o cara mais amado da vida dela que escrupulosa guarda em segredos os suspiros e as náuseas de tanto amar o coelhinho assustado com casamento e prolixas noites de sexo e prazer entre papos e furados argumentos – quem amaria mais que os pombos celestiais?

O leão a rugir sobre seu túmido e tímido prazer de estar sem jamais ser; uma lacraia úmida deslizara em seu peito de herói antiácido de bêbadas cantorias com viola desatinada e morta; ele então correu como um cavalo sem ereção aos estábulos das pobres éguas camponesas. Sem faro seu falo adormeceu insano. Onde agora tanto prazer, oh! rato inteligente entre os seus!

Mamata da marmota e ela mortificada sem saber gritar ou se em silêncio a nave abandonar, deixaria o burro seguir com seu fardo levando entre as tralhas da carroça o peso do arrependimento, e não olharia ele para tal galinha, os porcos concordaram e a pantera negra desmaia em opináceas buscas e evangélicas torturas; era ele anjo ou a face azul de Lúcifer?

Veado em chifres que sangraram a donzela com raiva, cadela espumando a saliva do ofídeo momento, e em cobaia se viu também macaco e urrou como a ursa maior, incorrendo pelos campos de centeio…

E como gazela ouviu por último o riso da hiena macho a machucar de novo o coração em fogo da leoa abandonada nas savanas do destino e ai dela, sorte sua acordar um pássaro só para cantar a dor do lobo e homem, o lobisomem, o homem sem pedigree…

 

 

 

Carta de amor

Posted in Belas on Maio 27, 2008 by Daisy

 

 Este post vai para Cochise que odiou “O amor é gay” aí embaixo he, he, he.

 

Rio de Janeiro, 16 de maio de 2008.

Querido, como vai você?

Dá para perceber que estou sem computador. Seu telefone, bem, talvez não tenha pago a conta. Prefiro esta a uma opção que envolva a palavra desprezo.

Enquanto escrevo-lhe estas palavras que pretendem ser doces, eu observo uma lua cheia que transborda em mim uma ternura jamais sentida. Imagina você, querido, que é ela, a lua cheia que praticamente ilumina meu quarto e a folha perfumada de jasmim onde redijo esta carta de amor.

Estou emocionada, pois há muito não fazia uso da caneta. Mesmo sendo uma ordinária bic, sinto que cada palavra, ao demorar formar-se, memoriza mais e mais esta desmedida paixão que sinto por você, meu amado.

Como disse, sem computador, tornei-me a mais romântica das princesas. Agora, neste exato momento, estou sorrindo, olhos fechados, mordendo a bic e imaginando o carteiro te chamando e o Rex latindo, tão surpreso quanto você.

Sabe, amor… sem computador e você sem telefone talvez possibilite uns instantes de reflexão. É possível, meu anjo, que nossas almas se entrelacem pela distância entre uma carta e outra. Pensa nisso. Pensa em como nosso amor é lindo e em como o silêncio grita em nosso coração, um desejo absurdo de estar junto de quem ama.

O computador só fica pronto semana que vem. Dará tempo de você responder esta missiva. ‘Missiva’… vovó falava assim.

A lua está tão brilhante lá no céu que sinto vontade de chorar, amor. Chorar como jamais chorei diante do pc.

Querido, faz um favor. Não telefona por enquanto e nem mande e-mail esta semana. Deixe as palavras carregarem no papel perfumado a força do meu amor por ti.

Ah, a carta era só pra dizer que estou com muitas saudades. Espero que quando esta o encontrar eu já não tenha morrido. Morrido de tanto amor.

Da tua,

….

Jovem Blues

Posted in Belas on Maio 18, 2008 by Daisy

Alberta Hunter

Auxiliando o conto a seguir

Olhei em volta e senti alívio. O medo já não estava alí. Nada mais poderia impedir que eu caminhasse em direção à velha casa de minha infância.

Sabia que acharia marcas e vestígios daquele tempo sombrio onde tantas coisas mudaram a minha vida.

Onde estaria hoje a minha infância? Morrera de fato? Não na minha cabeça. Talvez eu nem tenha crescido.

Olho na varanda e releio poesias em forma de velhas samambaias e goiabeiras aposentadas, meu prédio de mentira, ilusão de infância cega.

Eu era feliz, de certa forma. Aprendi a conviver com o abandono. A criação de rosto magro, saias sóbrias e mão de punição. A tia.

Virei cantora de blues e com minha banda percorro cidades de norte a sul.

Porém nesta cidade que hoje me encontro, é o lugar onde nasci. As lembranças não fazem bem e a terra do quintal encobre medos e solidão do passado que soprei com as mãos e que foi embora.

Não. Hoje não haverá show. Arrumem as coisas, vambora.

Melhor o silêncio. Sem show. Nem blues.

 

 

 

 

Doralice

Posted in Belas on Março 13, 2008 by Daisy

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Naquele bairro classe média todos eram amigos de infância. Ou quase todos.

Jacó, o amigo mais calmo, resolvera abrir um barzinho. Desses onde encontram-se os tais amigos de infância. Uns, músicos, outros militares, escritores, vagabundos, alcoólatras, gays e simpatizantes. Todos amigos de infância.

Era uma sensação de bem estar, afinal eram uma tribo e cada um sabia dos segredos do outro.

Idiossincrasias à parte, havia Doralice. A Dora. Dizem que era a mais bonita menina do bairro. E até hoje, mulher de seus quarenta anos, casada, separada, casada de novo, ainda era muito bonita e comunicativa. Formada em Comunicação, Dora trabalhava em rádio, produzia eventos artísticos. Uma vida bem agitada. Cult, como ela mesma classificava.

Dora bebia bem. Chegava sempre no barzinho, sentava-se, cruzava as pernas e toma-lhe cervejas geladas.

Não fossem os drinks quentes…

Dora era dessas pessoas que têm pavio curto. E ainda por cima não era do tipo que ’sabia beber’.

Toda vez que excedia nos drinks, ela via coisas onde não existiam, como achar que estavam falando dela, que reparavam sua roupa, ou ainda que subestimavam sua inteligência.

Mas Dora atravessava uma difícil fase em seu segundo casamento e desta forma passara a desconfiar de todos os homens. Levantou bandeira homofóbica e passou a achar que os homens estavam virando gays. Que o mundo era gay.

Até aí tudo bem se ela não estivesse ficando psicótica com o assunto.

Assim, toda vez que bebia olhava em volta e via os amigos com olhos antropológicos. Na primeira oportunidade vociferava, bêbada como só ela sabia ficar.

_ “Aqui neste bar só tem viado!”

Os amigos não ligavam porque sabiam que Dora passava por uma fase delicada. Segundo casamento desfeito. Crise de idade. Essas coisas.

_ “Não vejo ninguém com mulher aqui nesse bar. Me engana que eu gosto! Só dá viado! Vi-a-do!!”

Jacó, o dono do bar, refletiu e achou que de certa forma Dora estava certa. Muito homem reunido, sem contar com os que eram mesmo gays.

Jacó resolvera então convidar umas garotas para enfeitarem o bar. Umas meninas dúbias que saíam da terma e iam para lá.

Dora não dava descanso:

_ “Agora é o apocalipse! Puteiro desgovernado! Cadê a polícia? Aposto que tão vendendo droga também!”

Jacó, deprimido tentou convencer a amiga descompensada a ir para casa mas foi surpreendido por um tapa no peito:

_ “Sai daqui, idiota! Tu também é viado! Não te vejo nunca com mulher! Me larga!”

E Dora foi ferindo, magoando e ofendendo a todos os amigos de infância.

Jacó, desiludido com a vida e com os negócios, passou o bar para outro amigo, o Cláudio. Só que Claúdio era militar. Mas para Dora não fazia a menor diferença:

_”Você pode até ser homem, mas eu sei o que você faz neste bar depois de fechado com essas piranhas aí. E tua mulher, cadê?”

A situação estava ficando fora de controle. Até que numa madrugada de sábado, Dora cumprira sua promessa e chamara a polícia, dizendo que naquele bar rolava de tudo.

A polícia já estava indo embora, depois de mil explicações dos amigos. Mas Dora, de olhar enviesado (mais pela bebida) apontou para os policiais:

_”vocês também são…?”

Não deu tempo de terminar a pergunta. Os policiais a algemaram e ela passou umas horas na delegacia, refletindo sobre as opções sexuais das pessoas.

Valeu a experiência, pois parece que a moça está de namoro com o policial que a prendera.

E no bar dos amigos tudo voltou ao normal.

Mas quando Dora entra, mesmo para só comprar cigarros, dá pra escutar de longe um silêncio de terror.

Estava chovendo…

Posted in Belas on Janeiro 23, 2008 by Daisy

Era uma sensação aterradora e confortável ao mesmo tempo. As fileiras da chuva na janela a encantavam enquanto tomava um capuccino quente e doce, usando apenas uma camiseta branca Hering e uma calcinha verde com babados rendados. Cabelos molhados ainda da chuva no fórum e suas pernas eram mesmo fantásticas após o creme massageado com tanto cuidado.

Pegou o jornal e de novo sorriu daquela sua foto sem graça. Seria bonita? Não saberia dizer. Apenas estava lá, o vestido vermelho e sensual, a alcinha escorregando pelo ombro esquerdo e somente ela decifrava aquele olhar de flash naquela coluna.

Levantou-se do sofá e entrou no corredor comprido que levava ao seu quarto. Abriu a porta e escolheu um vestido bem curto para usar com botas, aquelas de cor preta e bico fino que alcançavam seus joelhos perfeitamente redondos e firmes.

Não usaria o vestido da foto. Preferiu o preto que fazia a cintura mais perfeita que um corpo de mulher pudesse desejar.
Ficou linda de verdade. O batom cereja e o bracelete de ouro acompanhavam um perfume exótico que misturava essências florais e cítricas.

Revirou na bolsa e achou a piteira longa. Os cabelos foram secos com o secador manual e estava pronta para sair.

Sair de sua tristeza, sua solidão causada pela má educação dos machos sociais. Riu desta colocação e riu de si mesma, uma fêmea totalmente insólita e má.

Abaixo de seu prédio de luxo em Ipanema tinha um restaurante bem aconchegante que servia deliciosos pratos de massas com frutos do mar. Mas os drinks eram perfeitos. Tudo era sublime para ela naquele dia depois do fórum, onde deixara seu ex-marido com desejo e ódio ao vê-la sair com seu vestido vermelho em seu carro importado, vencedora e poderosa.

Ela tomou uns drinks, deu a metade de um salário mínimo para os garçons e se foi feliz.

Quando parou no sinal, um menino a abordou, pedindo dinheiro para cheirar cola e pó. Ela sorriu e o convidou para dentro de seu carro. Pararam. Sentaram-se no banco onde Drummond calmamente ouvia sua conversa.

Falaram sobre tantas coisas. O menino admitira que queria assaltá-la e ela, rindo, disse que o sabia mas que sua vida já havia sido seqüestrada fazia tempo por um marido estranhamante passional que a empurrara das escadas e a fizera perder seu bebê.

O menino riu e a convidou para ser sua mãe. Ela sorriu e disse que poderiam tentar.

O menino recostou a cabeça negra em seu alvo ombro perfumado e perguntou relaxado e feliz:

_ O que você faz? Você é rica? Tinha uma foto sua no jornal…

Ela o acaricia:

_ Naquela foto estou ganhando um prêmio porque escrevi um livro muito bonito…

O menino animado:

_ Eu sei ler! Qual o nome do seu livro?

Ela o beija na testa suja e responde com um sorriso realmente de satisfação:

_ Chama-se: “Por que perder tempo com maridos? Adote uma criança”…

E saíram felizes de mãos dadas. A escritora percebeu que tudo que se escreve, ou acontreceu ou haverá de acontecer.
Afinal escrever era magia que dominava a alma somente de alguns mortais…

Beijos

Posted in Belas on Janeiro 21, 2008 by Daisy

TUDO começou quando ela olhou-se no espelho e se viu apenas um espectro abandonado num fundo de quintal onde roseiras e arbustos espinhosos envolviam seu corpo de pele eriçada pelo também abandono.
Os cabelos voavam com um vento leste que para ela parecia a visita da morte a buscá-la enfim. Finalmente para um lugar que pudesse ser um porto seguro onde lá, pudesse divagar eternamente entre seus sonhos e crenças no amor.

Enrolou os cabelos em nó amargo e suspirou de olhos fechados enquanto animais silvestres riam, brincando ao redor de sua solidão. E como era eterna sua solidão e solitária sua eternidade nos labirintos desavisados onde se perdera de forma irreversível e única.

Fora menina só e em seu quintal algumas bonecas de pano encardido faziam-lhe companhia. Entre árvores centenárias e alguns pés de limão, escondia sua tristeza e as palavras de seu pai, um rude senhor bíblico que a apunhalava com versos santos que deixaram seu irmão menor morrer com pulmões inflamados. Era Deus o dono da cabeça do pai. Era Deus o assassino voraz de criancinhas…

E em meio a desesperanças, pegou suas coisas e saiu de casa levando sua bolsinha antiga de fuxico enquanto a vizinhança previa seu futuro incerto de perdição.

Deixou suas pernas caminharem pelo mundo enquanto aprendia a chorar sem que ninguém visse. E seu primeiro lar fora um prostíbulo onde dentre tantas rosas encontrou Rosa, a mulher que a amou mais que toda sua família reunida à mesa de jantar. Aquela mesma mesa onde podia sentir de longe da cabeceira o horrível hálito de conhaque do apedeuta pai a lhe proliferar palavras de maldição.

Mas agora tudo era passado, ela pensou mordendo os lábios, enquanto beijava uma das rosas secas daquele jardim no fim.

De todos os seus homens, todos maus, ela resolvera arriscar seu já estraçalhado coração num amor que viera de longe, prometendo vida nova e bons caminhos. E até um jardim florido, com girassóis, rouxinóis e cigarras anunciando um belo verão.

Era um amor medicinal, que curaria suas feridas e suas tão antigas dores. Era uma paixão que a traria de volta à vida que sempre fora cinzenta e triste, acabrunhada e sem sentido. Enfim, ela resolvera voltar a beijar e deitar-se tranqüila no peito de um pássaro viajante que pousara em sua cama e a iludira com tantos beijos e sorrisos.

Mas ele se foi. E agora as únicas certezas que podia sentir em sua alma eram duas: a primeira era que o pai a amaldiçoara para sempre e que Deus vencera.

A segunda era que antes de morrer para a vida esperaria pacientemente que ao menos um beija-flor a beijasse sinceramente como jamais fora beijada em sua intrépida existência.

Assim, adormeceu com a tal rosa seca em seu peito arfante e o único detalhe que denunciava ainda estar viva era uma morna lágrima que parou no
meio do caminho e abrigou-se em sua boca sem beijos…