Archive for the Contos Category

Oscar, o Pintarroxo, Wilde e novas amizades!

Posted in Contos with tags on Novembro 23, 2009 by Daisy

Parece confuso. E é mesmo. Explico, amigo. Posso te chamar de amigo? Creio que sim: se entrou aqui, parece confiável. Fica à vontade, meu camarada.
É que eu estava relendo uns contos do Wilde. Os preferidos. Para comparar as escritas, as mudanças de comportamento, mudanças ortográficas – é um livro antigo, enfim. Passei o final de semana lendo Oscar Wilde. Um pouco de Allan Poe, confesso. Releituras. Sou um pouco passado de idade. Um jovem senhor.
De Poe, deliciei-me com O gato negro - que sempre me assusta, Manuscrito encontrato numa garrafaEleonora! Mas vamos ao Wilde:
Reparou no tremor de minhas mãos, não é? Muito observador. Ando deveras meio trêmulo. Estou apaixonado por uma menina. Dezoito anos e meio, veja só!
Olha aqui, na tela do computador, esta notícia: Dois pastores evangélicos se casam. Com testemunha e tudo. Eu, bem, confesso que assustou-me a notícia. Não pela peculiaridade do casal. Mas a peculiaridade de serem, ou se dizerem pastores. Conheço as coisas pentecostais. E lá não tem benevolência com certas… opções.
Eu havia acabado de ler O amigo dedicado, do Wilde. Se não leu ainda, precisas!

Ah!… Este conto dele relata as falcatruas da amizade. Ou o que o homem supõe ser amizade. É a estória de um homem rico que explora um rapazinho humilde, em nome de sua “sincera” amizade. É triste. Muito triste. Principalmente a ingenuidade de Joãozinho que acredita cegamente nas coisas que o homem fala. Um final terrível. E o lúdico dos lúdicos: a estória é narrada por um pintarroxo, que tem como ouvintes um rato celibatário convicto e uma pata, mãe de família. Uma lindeza estes contos de Oscar Wilde.

Sim! Quando terminei a estória, olhei pela janela e fiquei imaginando se haveria no mundo amizade verdadeira. Um amigo, desses que nos ouvem caladinhos. Assim como você. Sede? Bebe água, está fresca. Como ia dizendo, foi quando deparei com a notícia dos rapazes homossexuais. Embaralhou minha cuca. Pastores? De que ovelhas serão? Serão bons amigos? E o Joãozinho me gritando: Quer ser meu amigo, como o Moleiro?…

Levantei-me e fui ao quarto pegar o livro, a fim de ler o conto para o meu visitante. Porém ele não esperou. Depois de beber água e descansar em minha varanda, ele se foi, como todo amigo faz.

Eles simplesmente se vão. Este voou, sem ouvir a estória do pintarroxo. Talvez ele não fosse amigo dos pintarroxos. Era um pardal. E não quis ser meu amigo.

nervos rompidos

Posted in Contos on Novembro 16, 2009 by Daisy

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Ânimo, ânimo!

Aquela voz… aquele cheiro de éter. Os olhos do médico verdes por baixo dos óculos. Ânimo! Reage!

Uma sensação incrível toma conta de mim. Era confortável me sentir nua, me deixava mais à vontade. Dava mais confiança.
Estava sedada. Sei disso porque não sentia dor. Era para sentir. Mas no lugar disso, uma sensação tão boa. Lembranças começaram a visitar-me. Meu espírito subia e descia, juntinho com minha tranquila respiração…

Estava debaixo do chuveiro. César havia me procurado a noite toda. Mas eu não quisera, não o amava mais. Eu estava muito bonita. Uma geral na pele; lifting, drenagem linfática. Estava linda e fria.

À força! Filho da puta. Doeu. Uma dor de coração. Fina e insistente.
As lágrimas quentes destoavam da ducha gelada. Lembrei de minha infância.

Meu avô era músico. Cada criança que nascia na família, ele fazia uma música. A minha era um bolerinho lindo. Sorria para um sofredor… Não conhecia a melodia, só a letra. Ele morreu antes, o meu avô… Nunca me interessei em ir à Biblioteca Nacional pegar a partitura. Um bolero…

Meu gato ficara espantado com meus gritos. A brutalidade de César era realmente repulsiva. Lembro ter caído no chão. Bum! O gatinho saíra correndo. Miaaauuu! Inclemente, me possuiu alí no chão. Eu arranhava ele, suas costas, o mordia. Parecia gostar, pois se excitava mais e mais.

Acho que tem beija flor na música. Um bolero com beija flor pode ser legal. Confesso que desconfio da qualidade. Sou ridícula. O avô era maestro.

Entretanto, música pode ser linda com uns dois ou três acordes. Música vem dos anjos. Do céu. Da alma….

Estou sedada. Estou sedada. Se…da…da. O teto é branco. Os olhos do médico são lindos. Quero eles. Agora sinto desejo. Deve ser a droga. Tento estender a mão para alcançá-lo, a sua mão. Beijá-la. Esfregá-la em meus… lábios. Estou nua. Sedada é bom, parece que vou voar. Vou…

César tornara-se asqueroso para mim. Seu hálito de uísque e charuto. Seus dólares, a cocaína. E aqueles amigos insuportáveis. Todos de olho em mim. Desejavam-me. Aliás, tudo que era de César. Mas era a César o que é de César. Só olhavam. Eu vomitava só de pensar.

Estou com quatro anos e brinco de boneca. Não, não quatro. Sim, seis anos… quase dez. Bebi uma garrafa de sinzano miniatura. Na estante do meu avô. Danço com minha boneca. O avô toca o trombone. Será que é a minha canção? Estou inocentemente bêbada. Beijo a boca da boneca e danço bolero…

Escorrego no banheiro. Sangue. Muito sangue. Cortei o pulso no vidro de bancada. Minha mão está pendurada. À César…

Um litro de sangue! Ai, meu Deus, vou morrer, né? Depois de tudo que houve. Que tristeza, morrerei assim, nua e sedada num hospital, apaixonada pelo médico de olhos verdes!

Não… não dá para ler seu nome. Quantos litros de sangue ainda tenho? Três, um pouco mais… já era meu tendão. Tendão e nervo esfacelados. Paralizada a mão. Bem me quer, mal me quer… sem mão.

Tentou suicídio?

Eu?! Logo eu, que amo a vida?

Só não amava mais o César! Cachorro, fedorento. Mau. Lobo mau…

Chapeuzinho vermelho eu era. Teatro na escola. Errei a fala. Todos riem. Ha-ha-ha!

Vou dormir. Sono. Talvez sobreviva. Não chamem o César. Quero um amante. Pode ser o senhor, doutor. Pode ser qualquer um… O bolero. Tá ouvindo, doutor? É… é lindo!…

Suicídio

Posted in Contos with tags , on Outubro 21, 2009 by Daisy

Para o brother Rafael

favela
I

O médico o fitou por longos minutos. Silêncio total. Paciente pálido, dedos nervosos. Ricto de dor. Psicólogo corado, tranqüilo, sereno.

Júlio César, o foguete, assumiu. Vencido pelos argumentos, declarou:

_ Oquei, doctor. Eu me precipitei. Mas e agora?

O médico levantou-se. Andou com passos suaves pelo recinto. Parecia flutuar. Júlio arrepiou-se.

_ Engraçado. Quando eu estava lá, depois de usar crack, maconha e cocaína, eu tinha essa sensação. Sabe, de voar, ver todo mundo flutuando. Mas aqui, de cara limpa… mó doideira, hi-hi.

O médico, de cabelos lisos, longos e branquíssimos, olhou para seu pescoço. Tocou nas cicatrizes deixadas pela faca. O jovem esquivou-se discretamente. Riu:

_ Tarde demais, doctor. Eu te disse.

O médico, com um longo sobretudo de linho, bem fino, deu uns passos pela sala. Inesperadamente falou:

_ Vou até sua casa. Preciso ver tudo de perto.

Surpresa de Júlio:

_ Não há mais o que fazer. Algumas coisas não têm jeito. De morte eu entendo. Lá na favela, já vi muito cair. Depois que o espírito se manda, um abraço! Ressuscitar não é papo pra mim. Nem to aí pra Deus. Pra dizer a verdade, nem pro diabo. Minha pistola é quem me guia ha-ha-ha.

O doutor, com expressão séria:

_ Irei e verei o que posso fazer.

_ Por mim, nada. Mas pode dá uma olhadinha na Pâmela. E no moleque. Ela, com aquela bunda enorme, vai esquecer de mim rapidinho. Mas o moleque, eu queria que fosse diferente com ele. (Tristeza inesperada).

Médico, tirou o sobretudo:

_ Verei o que posso fazer.

De repente, num piscar de olhos, sumiu. O rapaz fechou os olhos, tamborilando no braço da poltrona do consultório. Sua palidez crescia, assim como seus movimentos ficavam cada vez mais lentos. Estava desfalecendo.

II

Quando chegou ao barraco do paciente, o homem de branco seguiu direto para o banheiro. Lá estava o corpo do Júlio. De fato, não tinha mais vida. Ele não mentira. Um corte profundo o secara. Todo o sangue parecia ter saído por ali.

Balançou a cabeça com tristeza. Abriu a porta, sussurrando: Tarde demais.

Quando dobrava a esquina, ainda ouvia a gargalhada cruel: Mais um!

Enquanto isso, a polícia procurava as drogas na casa da namorada. A Pâmela.

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Quando uma sociedade deixa matar crianças é porque começou seu suicídio como sociedade. [ Betinho ]

Antigo

Posted in Contos with tags on Outubro 16, 2009 by Daisy

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Sabendo das limitações e do copo vazio longe do filtro, as pernas, às vezes tremem de cansaço, desânimo. A sede podemos saciar, vez por outra, numa límpida e genuína vontade de gritar.

Um grito surdo. Para muitos, desnecessário. Entretanto, agoniza de véspera, a redenção tão difícil. A carne resfria na chuva. Um corpo é arrastado nas curvas dinâmicas de um tufão. Maremoto. Mar é morto.

Nas dívidas a pagar, os evangelhos e as rugas de Metusalém, efe eme i de um Brasil soberano. Prostitutas mirins. Inferno na terra. Ou, simplesmente inferno. Acabou. A rapadura é doce, mas é dura…

Nordeste, paraíso das meninas de dentes podres, miséria com o padre Cícero, e o espírito dorme. Ronca atrás da porta do esquecimento. Resta minha alma, ó minh’alma encardida sem sabão, só bolhas de um champanhe azedo.

Tudo pode ser falsificado. As companhias de seguro e os correios. O que têm em comum?

A mulher entrou insegura e olhou os selos nos correios. Regularizar o cê pê efe e provar que ainda é viva. Mas suas pernas andam flácidas. Suas noites andam escuras. Ela está só, constata o carteiro galante.

Diz, sorrindo: Ajuda, madame? Ela ri, docemente e mente: Sim.

Dias se passam, o pagamento cai na conta. Reajusta o cinto que a grana aumentou. Comprar tinta suvinil e reformar a sala. Mais o quê? Tarde demais para um sobretudo de couro, sobretudo pelo calor que faz. Rio de janeiro. De janeiro a janeiro tem praia.

O aumento é bom. O chefe, que bonzinho. Uma arma, talvez. Com uma arma, fica mais fácil convencê-lo. O rapaz: Me convencer de quê? Ela, pefumada em flores: Fazer amor.

Ele enrubece como um rapaz do interior: Tem que casar? Ela: Temo que sim. Esqueçamos. Mas ela olha para sua igreja ao longe e se vê em um deserto. Pega o comprovante. O cê pê efe fica legal em dois dias. Até lá eu ando viva. Valeu a pena regularizar o documento.

Este é um documentário. O rapaz muda de idéia e casa. Ela muda de idéia e fica viva. Dois cê pê efes, duas escovas de dente. Amém.

Conto rápido

Posted in Contos with tags on Outubro 13, 2009 by Daisy

dreamcatcher

Trágico

Era tarde demais. Sem chaves, Oneida entrou no partamento do vizinho. A porta ficava sempre aberta. Péantepé, vasculhou o armário. Pegou um cobertor e deitou ali mesmo, no chão do quarto. A cabeça rodava, a poesia arrotava. Finalmente dormiu.
Sonhou com o vizinho. Um senhor muito bom. Honesto.
Entretanto, não esperava aquilo dele.

Conto rápido

Posted in Contos on Outubro 13, 2009 by Daisy

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Bola fora

Sentou-se em frente a ele. Bocejou triste. Estava tudo acabado.
Sem beijo de despedida, resolveu comprar um apartamento em frente ao Maracanã.

Conto rápido

Posted in Contos with tags on Outubro 13, 2009 by Daisy

Computador
A Moderninha

Ela passou as mãos pelos cabelos. Tossiu. Levantou a saia e sentou ao vaso. Incrédula com o ocorrido. Estivera sonhando? Fornicando? Talvez babando no travesseiro. Banho. Perfume. Email. De novo. Queria de novo.
Olhou o calendário no monitor. Tantos meses assim? Tão rápido. Tão triste.
Desceu as escadas. Morava no segundo andar. Entrou na padaria. Pão doce. Boca doce. Vermelha. Fresca. Ávida. Sete meses? Saudades. Falta de vergonha, mulher!
Aquilo começara com um papinho bobo. No meu blog ou no seu? O amor é ridículo, Fernandinho! (já falei isso?).
Acendeu o último cigarro. Pararia com aquela merda. Sorriu para o mundo.
Na porta da padaria, olhou para ele. Que lindo. Fortinho, hein. Deixou o isqueiro de prata cair, de propósito.
(Será que ele tem um blog?)

A revolta dos corvos – parte II

Posted in Contos with tags , on Setembro 21, 2009 by Daisy

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Leia a primeira parte, por favor.

A Revelação

Edgar pousou a mão no peito. Calma, Edgar, muita calma.
A xícara despedaçara-se no chão. Arrastando os cacos com os pés para um canto, o rapaz, mais calmo, respirou fundo. Um frio brilho cobriu o seu olhar.

Resolveu que desceria e o enfrentaria. Onde ele conseguira aquele Jaguar. Era antigo. Achou muito estranho, pois Joe I’kselam e sua BMW preta eram inseparáveis. Provavelmente alugara o Jaguar para impressioná-lo, pensou. O que tanto temia estava prestes a acontecer. Com a chegada daquele homem, certamente todos correriam risco de vida. E ele ainda precisava receber o detetive Dupin, pois o assassino de Violet não ficaria impune. Era um juramento!

O visitante encontrava-se no jardim generosamente coberto de tulipas, narcissus, hyacinthus, íris, lírios e amarillis. Ainda que muito bem cuidado, naquele final de tarde especialmente, parecia sem vida.

Joe I’kselam observou os passos desengonçados do serviçal. Sorriu irônico. Perguntava-se até onde iria a ousadia daquele personagem. Quase folclórico, Joe nem havia decidido por sua personalidade ao certo. Só num último momento soubera que o rapaz era gay.

Edgar diminuía a velocidade dos passos, como que um animal preparando-se para atacar. As longas unhas estavam afiadas. Mais uma vez o escritor sorriu de sua coragem. Por um momento teve ímpetos de abrir os braços , entretanto, ele estava ali com um outro objetivo. Cenho franzido.

_ Olá, Edgar! Belo jardim. Meus pulmões folgam com a natureza ao redor.

O rapaz o fita em silêncio. Aponta o banco de pedra. Sentam-se. O mordomo esfrega as mãos. Rompe o silêncio:

_ Devo supor que desististe do livro. Que outro motivo levaria um escritor a entrar no território de seus personagens?

I’kselam revira o casaco de couro. Acende um cigarro, enquanto Edgar tosse discretamente.

_ Ah, desculpe-me, Edgar. Esqueci que você não fuma. – irônico.

Edgar se recompõe:

_ Vamos direto ao assunto. O que houve, afinal? Que carro é esse? É pra fazer clima por estamos no século passado? Onde está a BMW?

Joe, sem parar de rir, olha as flores. Está encantado:

_ Como são lindas! Exatemnete como eu as imaginei… Pobre Violet. Esse jardim era para ela. Para que andasse toda manhã, e pousasse suas mãos em cada uma delas, apaixonada…- suspira e olha Edgar com as feições endurecidas – O editor condenou o projeto. O primeiro conto tá uma porcaria. Disse que para homenagear Edgar Allan Poe, tenho que ter culhão.

O mordomo ri. Mão tapando a boca.

_ Você está mesmo fracassado, escritor. Há quanto tempo não lança um livro? Espere, deixa ver. Desde a morte trágica da senhora I’kselam? Pobre escritor de romances obscuros. Sua vida virou ficção. Quem matou sua mulher? Ah! – mordaz – não foi ninguém mais que aquele teu amado carro…

_ Chega! Para personagem prestes a ser apagado, você está indo longe demais. Vim para dizer que acabou. Todos vocês morrerão. O livro está ruim. Repleto de erros primários. Confuso. A editora pulou fora. Estamos todos mortos. Nada mais faz sentido. Não sou Poe, não tenho vida nas entranhas. O vale secou. Não tenho Elenor.

O rapaz olha o escritor com certa comiseração. Um corvo pousa sobre a árvore defronte a eles.

_ Convenhamos. Antes, poderia até ser. Mas hoje, querer homenagear Edgar Allan Poe, você, com essa cabeça desequilibrada? Tem dó.

O escritor fecha os olhos, com uma tulipa na mão:

_ Este beijo em tua fronte deponho. Vou partir. E bem pode, quem parte, francamente aqui vir confessar-te que bastante razão tinhas, quando comparaste meus dias a um sonho… O que vejo, o que sou e suponho não é mais que um sonho num sonho.

O corvo solta um grunhido.

_ Gosto das poesias de Poe, – disse Edgar, por um momento baixando a guarda. Mas voltou à defensiva. Partiria para o ataque, finalmente.

_ Escritor, nada tenho contra ti, fui criado manso e amigo. Mordomo.Tu me concebeste, não sou muito satisfeito com seu pouco caso ao me compor. Porém, digo que este conto vai ser terminado. A morte de Violet não ficará impune!

Quando Joe I’kselam iria retrucar, sentiu forte pancada na cabeça. A última imagem que viu, foi a da velha senhora, tia de Violet, com um bule de chá na mão, e um sorrisinho de vitória nos lábios enrugados.

A revolta dos corvos – parte I

Posted in Contos with tags , on Setembro 18, 2009 by Daisy

meninacom corvos
Para Edgar Allan Poe, com receios.

Parte I – O homicídio

Auguste Dupin não tardaria a chegar. Entretanto, era tarde demais. Quando Edgar ligara para a polícia, achou que salvaria a vida de Violet, sua patroa, que agora sangrava como um porco no chão de madeira, no centro da aconchegante sala de estar. Três apunhaladas fatais. Abdômen, pescoço e coração.

A garganta branca, fazia com que seu cadáver tivesse algo de sobrenatural. Como se ela já fosse morta, antes de morrer. E o fraco fogo na lareira contribuía para as sinistras imagens.

Balançou os longos cabelos negros, enquanto com um chute carinhoso afastava o gato, para que este não lambesse o sangue de sua dona. Um raio rasgou o céu, as árvores dançaram ao som de Wagner que a patroa pusera na vitrola, antes de atender a porta.

Um arrepio percorreu-lhe a espinha. Sua testa estava úmida de suor, apesar do frio. Outra vez esquecera de mandar chamar o técnico do aquecedor. Pobre Violet, suspirou Edgar, tomando o gato nas mãos, e correndo para a dispensa, um lugar adequado para trancafiá-lo, por hora.

Enquanto uns corvos batiam nas vidraças, reinvindicando o alimento que Violet lhes dava toda tarde, ela encontrava-se no segundo andar, depois de tomar três comprimidos. Valium. Normalmente seria considerado muito, quase suicídio. Contudo, neste caso, era dose normal. A patroa sempre implicava com isso, dizendo que acabaria se matando com tantos remédios. Quanta ironia, sorriu o homem, com dentes tristemente encavalados.

Subiu vagarosamente as escadas com um fumegante chá inglês, sem deixar de dar mais uma olhada para Violet. Sentiu compaixão. Observou aqueles tão bem tratados cabelos que agora, empapados de sangue perdiam o brilho ariano dos cachos. Ainda tinha o rosto de menina, apesar de já ter completado vinte e seis. O outrora alegre corpo, jazia inanimado, com as pernas levemente abertas no tapete grosso.

Mais um trovão. Falta luz, como era de se esperar. Às escuras, Edgar apalpa os consoles do corredor, no segundo andar para alcançar as velas. As lamparinas ficavam na cozinha. Não desceria todos aqueles degraus, mesmo porque ela esperava seu chá com ansiedade. E o rapaz não quereria vê-la nervosa outra vez.

Acendeu as velas num castiçal de prata com três buracos. Porém, antes, dirigiu-se ao sótão. Precisava fechar os portigos, antes que aqueles odiosos morcegos invadissem a casa. E, certamente eles não eram frugíveros. Aquelas raposas voadoras adqüiriram o hábito de beber sangue depois que a cidade, há um século, fora devastada por uma praga de gafanhotos. Os moradores sobreviveram comento carne e leite. Não tiveram boa colheita por décadas. Tempo suficiente para que os animais adaptassem seus hábitos à nova realidade. Desta forma, voavam de dia e comiam carne.

O rapaz fechou as janelas. Olhou o relógio. Com dificuldade constatou já passar das 17:00. Logo o detetive Dupin chegaria. Refletiu no que realmente deveria dizer a ele. Aquele sim, uma raposa velha. Não havia um crime que não desvendasse. Sempre escreviam sobre ele no The Spectator . O policial era cristão protestante e tinha lá suas esquisitices, todavia, não se tinha notícias de homem mais correto naquela região.

O franzino e alto mordomo não conseguia raciocinar, pois ela o gritava, desejando seu maldito chá. Quando estava prestes a entrar no quarto, empalideceu mortalmente, ao olhar pela janela. A última pessoa que ele esperava ver, acabava de estacionar o Jaguar no pátio da mansão vitoriana. Com as pernas trêmulas, abafou um grito homossexual. Seus lábios só conseguiram sussurrar socorro!

(Continua)

Rosecléa vai casar!

Posted in Contos with tags on Setembro 15, 2009 by Daisy

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Ela estava em dúvida. Eram dois vestidos perfeitos. Um, mostrava os peitinhos, ousados eles ficavam no decote. Com vinte e sete anos, estava na hora de largar de ser besta. Mordomia era uma cidade pequena. Achar um homem, tarefa das mais difíceis. Pra transar, tinha os bêbados lá do bar do Zé Palhinha. Porém, para casar, isso era muito mais difícil.

Olhou para o outro vestido. Este mostrava as coxas. O vestido era muito bonito, entretanto, a fazia lembrar daquela noite, no matinho atrás da igreja. E lembrava-lhe também, com amargura, que ainda era meio virgem. Meio virgem.

Estavam felizes. Certos de que aquele seria o melhor momento de suas vidas. Ele, sentado. Ela, em pé. Beijos, beijos. As vozes roucas, mãos ensandecidas. Boca molhada, avidez dos amantes inocentes. Beijo, beijo.

Rosecléa sentira, na ocasião, uma espécie de desmaio. Ouvira uma voz grossa e envelhecida chamando pelo seu nome. Pensou ser a voz de Deus. Sorrira, pensando em como era abençoado seu amor. Mas a surpresa a fizera gritar. Era o Padre Neto, bisbilhoteiro como sempre. Cortara o barato daquela noite.

A menina, mui triste, fora para casa. Odiara o padre Neto, e quanto mais achava que pecava contra sua santidade, mais o odiava por fazê-la pecar.
O fato era que o fato não fora consumado. Pararam no meio do caminho. Meio amor. Meio sexo. Meio virgem.

Armandinho, anos depois. Dez, exatamente. Depois de alguns noivados fracassados e estudos na cidade grande, ele voltara.

Olharam-se no açougue. Na sorveteria. E na lanchonete. Por fim… na igreja! No batizado do sobrinho dele. Suspiros. Lembranças. Uma sensação de algo inacabado.

Começaram a se falar. Ele ia em sua casa e conversavam até tarde. Entretanto, nada de intimidades. Vinte e sete! Ele também. Precisavam se casar.

Assim, no dia do noivado, Rosecléa estava em dúvida. Qual dos dois vestidos?
Optou pelo dos peitinhos. Precisava mostrar que, apesar da idade, eles estavam lá, duros e empinados como antes. As celulites, ela pensou, com um sorrizinho indecente, ele só veria depois de casados.

Estava pronta! Faltavam alguns minutos para as nove. Horário marcado para o jantar de noivado. Dez horas. Gotas de suor na testa. O olhar dos pais inquisidores. A imagem do padre os condenando. Onze horas. Nada.

Até que bateram à porta. Só podia ser. O padre. Sempre ele! Para avisar que o rapaz, num ataque de covardia, se fora para a cidade grande. Desistira do casamento. Rosecléa olhara para o homem com um misto de ânsia de vômito e desejo incontrolável de xingá-lo. De alguma forma ela tinha culpa nesta estória. Chorou um pouco. Crises espirituais e muito desejo contido.

Subiu para seu quarto. Quando todos dormiam, ela rasgou o decote do vestido. Saiu, no meio da noite.

Depois de umas cachacinhas mineiras, olhou atentamente para um rapaz de blusa xadrez. Sorriu convidativa…
E constatou, sorridente, que não era tão ruim assim, o bar do Zé Palhinha.

And the hard
Words
I ever feared to
say
can now be
said:
I love
you.
(Bukowski)