Era carnaval. Eu me lembro bem porque meu carro tinha quebrado e eu não pude ir para Friburgo descansar de praia e Saquarema.
Resolvi ficar em casa, reciclando-me e em retiro. Quietinha, na minha.
Poria cervejas (muitas) no freezer e ficaria em casa assistindo as escolas desfilarem (nunca consegui me decidir por uma – são todas iguais hehe).
Já estava amando aquela solidão. Eu, meus animais e o silêncio absoluto. Meu cachorro Lobo, um lindo pastor canadense me fazia companhia.
Mas Lobo começa a esboçar latidos em direção ao portão. Visitas? Ah, que droga!…
Olho pela janela e vejo meu amigo Niltinho me acenando e pulando feito louco, apontando para uma menina tímida e assustada, encolhida ao seu lado.
Ponderei e resolvi dexá-los entrar, afinal minha curiosidade falava mais alto: Niltinho com namorada?!
Ele era tão louco por mar e surf que raramente o via com alguém. Pensavam até que éramos caso porque sempre estava no meu pé. Um grude.
Mando ele entrar, já antegozando os momentos de alegria que o cara me traria. Que meu retiro se danasse, eu gosto é de rir! hehe!
_ Entra, Niltinho! O portão tá aberto!
_ Prende o Lobo, ele pode estranhar a Juju!
“Juju”? Olhei melhor a menina e ela era mesmo rosada como uma jujubinha de morango. Então não era surfista, então… Niltinho estava apaixonado!
_ Prende o Lobo!
_ Ele não morde!
_ Só meu tornozelo, né?
_ É brincadeira dele!
_ Né não, Daisynha! Um dia ele leva a sério. Prende ele aí!
Pela curiosidade eu cedo e prendi meu pastor na garagem. Niltinho entra com um saco de peixe na mão.
Sorrindo, tentando parecer um sorriso natural de boas vindas fí-los entrar.
A menina era bem magrinha, linda, mas muito tímida mesmo.
Niltinho enlaça sua cintura e anuncia:
_ Esta é Juliana, minha Juju, né, gatinha? Nos esbarramos na Barraca do Coco ontem! Paixão à primeira vista. Fulminou, né Juju?
A menina faz um esforço sobrehumano para olhar em meus olhos. De onde teria saído aquela minhoquinha? Desculpe mas este era o termo usado para designarmos as pessoas bem do interior que mal sabiam falar hehe. Mas na boa.
Niltinho entra em minha sala, praticamente joga a menina numa poltrona de vime e corre pro meu freezer, claro.
_ Pode beber, Niltinho. Vê se a… Juju quer suco de abacaxi.
_ Não, parceira, ela vai de cerveja, né, princesa?
A menina ensaia com os lábios, mas não consegue falar. Niltinho joga no seu colo magrinho uma lata de cerveja. Ela se assusta e noto que nem tem forças para abrir a lata.
Niltinho atencioso, abre para ela e estala um beijo em sua boquinha tímida. A menina fica vermelha, literalmente e juro que pensei que iria sair correndo. Fez um movimento mas desistiu.
Eu, querendo que ela ficasse à vontade:
_ Juju, você gosta de camarão na brasa?
Ela finalmente me olha:
_ Pode ser… – a voz parecia um suspiro derradeiro.
_ Niltinho, véio, acende a churrasqueira e manda brasa!
Niltinho:
_ Ah, Daisynha, eu pensei em fazer um pirão de bagre! Dá o maior gás! A gente fica fortão, né não? Eu trouxe um montão! – abre o saco pra eu ver.
Olhei pra menina e pude entender o que meu amigo queria dizer. Só de olhar pra ela dava ternura: uma varetinha com perninhas. Tadinha.
Minha cozinha vira um recanto de bagre. Um cheirinho bom toma conta do ar.
Eu olho pra Juju:
_ Mora aqui em Squarema?
Niltinho como sempre responde por ela:
_ Não! Ela é de Jaconé. É cria de lá, né, gatinha?
Jaconé é um municipiozinho entre Maricá e Saquarema. Um lindo lugar entre o mar e a montanha.
A menina não responde porque parece estar engasgada com a cerveja. Seu rosto está em fogo.
Niltinho vai falando enquanto prova o molho do bagre.
_ Ela veio passar uns dias na casa da tia porque o pai dela é um tremendo cachaceiro. Bate nela às vezes. E na mãe dela! Nem o gás ele comprou. Tiveram que cozinhar em fogueirinha no quintal, né Juju?
A menina desta vez se levanta, está disposta a ir embora, tamanho constrangimento que Niltinho, sem perceber, lhe causava. Mas desiste e senta-se de novo.
Mas Nilton não dá trégua.
_ Ele está desempregado e na casa dela às vezes nem comida tem. Aí, ela e a mãe vão para a feira esperar a hora depois da xêpa. Pegam a legumada de graça. Zero oitocentos, sacou?
A menina está em franca debilidade emocional. Eu sorrio sem graça e faço sinal para meu amigo maneirar mas Niltinho, depois de fumado e com cerveja, vira um troço.
E continua a matar a garota:
_ Quando ela era pequena, o safado deixou ela se queimar, ela tem uma cicatriz horrível nas costas. Já falei que tem plástica pra isso!
A menina chora, eu vejo seus olhos rasados de lágrimas contidas. E Niltinho cada vez mais empolgado com o samba na TV e o bagre. Dançando continua falando:
_ O pai batia nela porque fazia xixi na cama até os dez anos! Que safado. Que é que tem fazer xixi? É fisiológico! Todo mundo faz. Apesar que na cama é meio sinistro, mas eu não vejo por que apanhar por isso!
Niltino sai da cozinha.
Foi a gota d’água.
A menina literalmente saiu correndo! Sério. Niltinho tinha ido ao banheiro e quando voltou, nem deu pela falta da garota. Só quando foi pegar mais cerveja.
_ Ué! cadê a Juju?!
Eu respondo como que ainda em transe:
_ Se foi…
_ Por que? Você deixou ela com vergonha de alguma coisa? Ela é muito tímida, Daisynha!
Tem horas que eu pesnso que convivemos com alienígenas aqui, sabe…
Eu respondo, enquanto olho a Mangueira desfilar:
_ Acho que VOCÊ a envergonhou falando aquelas..
Ele me corta:
_ Tá vendo aquele cara alí, na ala dos faraós?! Que está com o chapéu na mão?!
Olho pra TV e digo:
_ Sim…
_ É meu parceiro. Já aprontamos muito no Flamengo e no morro! hahahaha! Todo ano ele desfila! É o cara! Grande Duda!
Eu SEI que não deveria mas pergunto:
_ E a Juju, cara?
Niltinho embevecido pela escola de samba fala com um sorriso largo:
_ Puta que o pariu! Queria estar no Rio agora!…
Vale a pena conhecer a figura melhor:
http://dai.lendo.org/niltinho-saquarema-e-a-igreja-universal/