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Acidente pessoal

Posted in faz-me rir... on Maio 8, 2008 by Daisy

Eles estavam no bar desde as dez horas da manhã. Já passava das três. Entre cervejas e cachacinhas entremeadas com carne seca e jilós, os dois amigos iam discutindo eufóricos em maiêuticas alcoólicas.

O mais velho, já com trinta, só tinha uma perna – acidente de moto -, e o mais jovem, vinte e quatro, era adepto da maconha e da vagabundagem contemplativa.

Pernalta solta um contido arroto:

_ Caminhar tem a ver com o espírito. Não existe correr. O tombo pode machucar.

Brilho responde, olhando a vida através da bunda da garçonete:

_ Tu fala isso porque perdeu a perna, morô parceiro?

O outro ri com a boca enfarofada:

_ Por que todo maconheiro fala sem pensar, meu irmão? To falando sério, porra. É filosofia, caralho. Não lê, dá nisso…

Brilho arregala os olhos preguiçosos e se ofende:

_ Quem não gosta de ser discriminado não deve discriminar. Isso é filosofia, otário.

Pernalta:

_ Eu ter perdido a perna não faz de mim um crminoso, certo? Mas, na moral, encher a cabeça de fumaça e ficar de bobeira enchendo a cara é foda. E ainda por cima eu pagando! Com meu dinheiro suado…

Brilho:

_ Ha, ha, ha! Como, dinheiro suado? Essa grana não é do governo? Não foi por causa do acidente, parceirinho?

Pernalta se remexe na cadeira. Toma mais um copo da cerveja e responde magoado:

_ Quer dizer que perder minha perna não custou nada, né vacilão? Eu me joguei da moto só pra abocanhar o seguro? E não é do governo porra nenhuma! É particular. Do Bradesco.

O outro, aplicando colírio nos olhos ri mais ainda:

_ Já reparou que depois que você recebeu essa porra de seguro, passou a se sentir cliente vip do banco? É Bradesco no céu e Deus na terra!

_ Hei! Não seria o contrário? Deus no céu…

É interrompido:

_ Meu irmão, foda-se! Só sei que acho estranho você andar (he, he), foi mal, você ficar se sentindo porque pegou uma grana boa de seguro. Pô, tu tá aleijado, cara!

Pernalta abre a carteira e chama a garçonete:

_ To sabendo que hoje é teu aniversário. Toma aqui esse troco. Compra um presente pra você! – olha para o amigo – Essa bunda é minha, he, he.

Brilho, chateado:

_ Ainda acho que não vale a pena se foder todo pra ter dinheiro. Esse dinheiro aí tem sangue!

O amigo acidentado faz que vai levantar mas desiste irritado:

_ Agora tu exagerou, meu irmão! Vais rachar a conta?!

_ Só se eu arrancar o dedo. Como os caras da yakuza.

_ É uma piada, chincheiro?

_ Não. Uma constatação. To duro.

_ Valeu… Eu pago.

_ Desculpa aí.

_ Tranqüilo, parceiro.

_ Me faz um vale? Minha erva acabou…

Silêncio. Ambos meditam a respeito de dinheiro, estética, morte e mulheres.

Em uníssono:

_ Desce a saideira!

Niltinho apaixonado? hehe!

Posted in faz-me rir... on Novembro 10, 2007 by Daisy

 

Era carnaval. Eu me lembro bem porque meu carro tinha quebrado e eu não pude ir para Friburgo descansar de praia e Saquarema.

Resolvi ficar em casa, reciclando-me e em retiro. Quietinha, na minha.

Poria cervejas (muitas) no freezer e ficaria em casa assistindo as escolas desfilarem (nunca consegui me decidir por uma – são todas iguais hehe).

Já estava amando aquela solidão. Eu, meus animais e o silêncio absoluto. Meu cachorro Lobo, um lindo pastor canadense me fazia companhia.

Mas Lobo começa a esboçar latidos em direção ao portão. Visitas? Ah, que droga!…

Olho pela janela e vejo meu amigo Niltinho me acenando e pulando feito louco, apontando para uma menina tímida e assustada, encolhida ao seu lado.

Ponderei e resolvi dexá-los entrar, afinal minha curiosidade falava mais alto: Niltinho com namorada?!

Ele era tão louco por mar e surf que raramente o via com alguém. Pensavam até que éramos caso porque sempre estava no meu pé. Um grude.

Mando ele entrar, já antegozando os momentos de alegria que o cara me traria. Que meu retiro se danasse, eu gosto é de rir! hehe!

_ Entra, Niltinho! O portão tá aberto!

_ Prende o Lobo, ele pode estranhar a Juju!

“Juju”? Olhei melhor a menina e ela era mesmo rosada como uma jujubinha de morango. Então não era surfista, então… Niltinho estava apaixonado!

_ Prende o Lobo!

_ Ele não morde!

_ Só meu tornozelo, né?

_ É brincadeira dele!

_ Né não, Daisynha! Um dia ele leva a sério. Prende ele aí!

Pela curiosidade eu cedo e prendi meu pastor na garagem. Niltinho entra com um saco de peixe na mão.

Sorrindo, tentando parecer um sorriso natural de boas vindas fí-los entrar.

A menina era bem magrinha, linda, mas muito tímida mesmo.

Niltinho enlaça sua cintura e anuncia:

_ Esta é Juliana, minha Juju, né, gatinha? Nos esbarramos na Barraca do Coco ontem! Paixão à primeira vista. Fulminou, né Juju?

A menina faz um esforço sobrehumano para olhar em meus olhos. De onde teria saído aquela minhoquinha? Desculpe mas este era o termo usado para designarmos as pessoas bem do interior que mal sabiam falar hehe. Mas na boa.

Niltinho entra em minha sala, praticamente joga a menina numa poltrona de vime e corre pro meu freezer, claro.

_ Pode beber, Niltinho. Vê se a… Juju quer suco de abacaxi.

_ Não, parceira, ela vai de cerveja, né, princesa?

A menina ensaia com os lábios, mas não consegue falar. Niltinho joga no seu colo magrinho uma lata de cerveja. Ela se assusta e noto que nem tem forças para abrir a lata.

Niltinho atencioso, abre para ela e estala um beijo em sua boquinha tímida. A menina fica vermelha, literalmente e juro que pensei que iria sair correndo. Fez um movimento mas desistiu.

Eu, querendo que ela ficasse à vontade:

_ Juju, você gosta de camarão na brasa?

Ela finalmente me olha:

_ Pode ser… – a voz parecia um suspiro derradeiro.

_ Niltinho, véio, acende a churrasqueira e manda brasa!

Niltinho:

_ Ah, Daisynha, eu pensei em fazer um pirão de bagre! Dá o maior gás! A gente fica fortão, né não? Eu trouxe um montão! – abre o saco pra eu ver.

Olhei pra menina e pude entender o que meu amigo queria dizer. Só de olhar pra ela dava ternura: uma varetinha com perninhas. Tadinha.

Minha cozinha vira um recanto de bagre. Um cheirinho bom toma conta do ar.

Eu olho pra Juju:

_ Mora aqui em Squarema?

Niltinho como sempre responde por ela:

_ Não! Ela é de Jaconé. É cria de lá, né, gatinha?

Jaconé é um municipiozinho entre Maricá e Saquarema. Um lindo lugar entre o mar e a montanha.

A menina não responde porque parece estar engasgada com a cerveja. Seu rosto está em fogo.

Niltinho vai falando enquanto prova o molho do bagre.

_ Ela veio passar uns dias na casa da tia porque o pai dela é um tremendo cachaceiro. Bate nela às vezes. E na mãe dela! Nem o gás ele comprou. Tiveram que cozinhar em fogueirinha no quintal, né Juju?

A menina desta vez se levanta, está disposta a ir embora, tamanho constrangimento que Niltinho, sem perceber, lhe causava. Mas desiste e senta-se de novo.

Mas Nilton não dá trégua.

_ Ele está desempregado e na casa dela às vezes nem comida tem. Aí, ela e a mãe vão para a feira esperar a hora depois da xêpa. Pegam a legumada de graça. Zero oitocentos, sacou?

A menina está em franca debilidade emocional. Eu sorrio sem graça e faço sinal para meu amigo maneirar mas Niltinho, depois de fumado e com cerveja, vira um troço.

E continua a matar a garota:

_ Quando ela era pequena, o safado deixou ela se queimar, ela tem uma cicatriz horrível nas costas. Já falei que tem plástica pra isso!

A menina chora, eu vejo seus olhos rasados de lágrimas contidas. E Niltinho cada vez mais empolgado com o samba na TV e o bagre. Dançando continua falando:

_ O pai batia nela porque fazia xixi na cama até os dez anos! Que safado. Que é que tem fazer xixi? É fisiológico! Todo mundo faz. Apesar  que na cama é meio sinistro, mas eu não vejo por que apanhar por isso!

Niltino sai da cozinha.

Foi a gota d’água.

A menina literalmente saiu correndo! Sério. Niltinho tinha ido ao banheiro e quando voltou, nem deu pela falta da garota. Só quando foi pegar mais cerveja.

_ Ué! cadê  a Juju?!

Eu respondo como que ainda em transe:

_ Se foi…

_ Por que?  Você deixou ela com vergonha de alguma coisa? Ela é muito tímida, Daisynha!

Tem horas que eu pesnso que convivemos com alienígenas aqui, sabe…

Eu respondo, enquanto olho  a Mangueira desfilar:

_ Acho que VOCÊ a envergonhou falando aquelas..

Ele me corta:

_ Tá vendo aquele cara alí, na ala dos faraós?! Que está com o chapéu na mão?!

Olho pra TV e digo:

_ Sim…

_ É meu parceiro. Já aprontamos muito no Flamengo e no morro! hahahaha! Todo ano ele desfila! É o cara! Grande Duda!

Eu SEI que não deveria mas pergunto:

_ E a Juju, cara?

Niltinho embevecido pela escola de samba fala com um sorriso largo:

_ Puta que o pariu! Queria estar no Rio agora!…

Vale a pena conhecer a figura melhor:

http://dai.lendo.org/niltinho-saquarema-e-a-igreja-universal/

Niltinho, Saquarema e a Igreja Universal

Posted in faz-me rir... on Outubro 29, 2007 by Daisy

Recebi uma visita inusitada esta semana: Niltinho! Ele mesmo, de novo. Não nos víamos há uns três ou quatro anos. Como sua família mora no Flamengo, eis que ele resolve aparecer aqui no Rio.

Mas desta vez não há nada muito engraçado para contar. Sei lá, depende do ponto de vista. Pode até ser cômico mas tenho minhas dúvidas se não seria trágico: Niltinho está na Igreja Universal!

Eu também fiquei chocada quando ele chegou em minha casa com uma cara pálida, sem bronze e olhos limpinhos. Sem óculos escuros!

Ele me abraçou saudoso e foi logo dizendo:

_ Estou bonitão, né Daisynha?

Bem… de fato sua aparência era a de um ‘obreiro’ com calça jeans (nunca o vira de calça), camisa social, tênis (só o via descalço), mas não saberia dizer se estava mais ou menos bonito pelo simples fato de eu estar diante de uma outra pessoa!

_ Você está… diferente, Niltinho!…

_ Sou de Jesus agora, na boa! Esta é minha onda. Não fumo mais maconha e nem fico de bobeira pegando onda e pescando peixe pra trocar pela erva.

_ Nossa!

_ É, minha filha, Deus é maravilhoso! Está fazendo uma puta obra em minha vida… e você sabe que fazer qualquer modificação em minha vida demanda talento e perseverança, né?

_ Mas (atordoada), quando isso  começou, cara?

Niltindo se empertiga e saca de sua mochila uma… Bíblia! Eu quase não acredito quando ele começa a cantar a pedra dos Salmos pra mim:

_ “Ele converteu rios em desertos, e mananciais em terra seca;…”

Eu, ouvindo a Palavra em plena sexta-feira:

_ Nossa!

_ Tu já imaginou se o Homem resolve secar o meu marzão?

_ Xiii…

_ Vai vendo, vai vendo!… Que estranho abrir logo nesta parte! – coçando o queixo

Noto que o rosto de Niltinho se contorce em franca angústia existencial. Ele guarda sua Bíblia na mochila e sorri. E eu já conheço bem aquele sorriso:

_ Cara, tu já imaginou EU sem pegar onda? Sem pescar meu peixe?

_ Mas se não está pegando onda, tá branquinho igual leite hehe.

_ É, dei um tempo da vagabundagem… Mas sei que a hora que quiser ela tá lá, minha praia de Saquarema, me esperando…

Niltinho estava mesmo transtornado. Eu, esfregando as mãos nervosa já, tento consolá-lo:

_ Mas… olha só: nada o impede de dar um mergulho, né? E pegar sua onda… Pode levar minha prancha que nem to usando, depois, se quiser eu compro uma.

Niltinho estava mesmo abatido:

_ Só tem um problema: como vou pegar minha onda sem uma ‘onda’?

_ Ai, ai… isso eu não posso resolver, cê que sabe…

_ Vamos à praia então, parceira?

_ Sim, aqui no Recreio mesmo, o mar tá legal.

Mas Niltinho queria ir para o Arpoador matar a saudade dos tempos em que se batiam palmas para o pôr do sol todas as tardes.

Fomos então para lá, mas na hora do esperado pôr do sol, o tempo fechou. Niltinho ficou em pânico, pensando na passagem da Bíblia. Voltou para Saquarema muito arrasado.

Isso foi na sexta-feira. Hoje ele me liga feliz da vida dizendo ter resolvido seus problemas:

_ Alô, Daisynha! Tó queimadaço de sol! Que final de semana! Peguei trocentas ondas hehehe!

Como sempre eu pergunto inocentemente e atenciosa:

_ O pastor deixou, foi?

_ Nada!

_ Então…

_ Fumei um dos grandes e conversei com Ele. Tu não vai acreditar: ouvi sua voz dizendo “Vá, meu filho, pega tuas ondas e fique na paz. É tudo natureza, eu que fiz…”

Desliguei o telefone pensando que meu amigo tinha lá suas razões hehe.

Essas estórias de Niltinho parecem invenção, mas não são. No próximo post publicarei sua foto!

Olha o que este maluco já aprontou comigo:

http://dai.lendo.org/mais-uma-do-niltinho-meu-salvador/

Mais uma do Niltinho – Meu salvador!

Posted in faz-me rir... on Outubro 6, 2007 by Daisy

Eu estava em casa. Niltinho chegou com os olhos esbugalhados. Morar em Saquarema foi de fato uma experiência antropológica. Seria mesmo trágico se não fossem o marzão e os caixotes que eu tomei.

 Não sou surfista profissa mas umas marolas eu encaro sim. Mas nem sempre a gente está sozinha no mar. E o mar de Saquerema é mar aberto, está quase sempre bravo. Mesmo em maré baixa ele é selvagem.

Neste dia estávamos na praia eu, uma amiga nossa e Niltinho. A praia era em frente à minha casa. Chique, né? Bons tempos.

Estava aproveitando para pegar umas ondinhas com body board. Tranquilo. Até Niltinho falar:

_ Daisynha, vai mais pra lá (fundo) que você consegue pegar uma boa!

_ Mas a maré tá virando, cara!

_ Tá não, ainda demora. Dá procê pegar mais umas. Qualquer coisa eu to aqui.

Fiquei um pouco em dúvida porque nem pé de pato eu estava usando. Se o mar sobe eu me lasco. Como disse, eu só brinco, não sou surfista, nunca fui, mas carioca sempre brinca no mar, é nosso quintal.

E lá fui eu dando braçadas pra dentro do marzão de Saquarema, me sentindo a malandra.

_ Niltinho! – eu gritei – qualquer coisa me salva he-he-he!!

_ Vai, maluca! Você é boa, tem disposição!

Minha amiga, não sei o porquê, cismou de cair também. Mas essa não sabia mesmo nada de mar. Pegou sua prancha e foi comigo lá pra dentro. Estava tudo tranqüilo.

Mas quando olhei para Niltinho, me apavorei: ele estava deitado na areia, viajando como sempre e ainda tinha um discman nos ouvidos.

Peguei uma ondinha gostosa e pensei que Niltinho estava certo. A maré não subiria tão rápido.

Ficamos, eu e a amiga de bobeira conversando lá dentro. Ela não parava de falar: ‘meu namorado blá-blá-blá…’

Eu, como sempre distraída, fiquei ouvindo as estórias (mentirosas em sua maioria) de minha amiga.

De repente eu olhei pra trás e vi uma onda que se eu chamasse de gigantesca estaria sendo condescendente. Era uma puta onda mesmo!

Tudo bem, eu pensei, deixo ela passar e na próxima volto pra areia.

Niltinho dormia nessa mesma areia, totalmente entregue em sua eterna viagem alucinada. Niltinho sempre foi um cara totalmente canabístico, sério. Uma coisa.

Minha amiga estava ficando pálida já. Eu disse calma (eu mais ou menos calma).

_ Olha só, gata. Respira fundo e na próxima é só bater os braços e as pernas e saímos daqui.

_ Tá bom, Daisy. Tranquilo. To calma.

_ Sei! he-he-he!

Então veio a onda. Tudo aconteceu muito rápido.

A garota soltou sua prancha e se agarrou a mim. Eu pensei que chegara meu dia. E Niltinho dormindo os sonhos dos justos e do Bob Marley lá na areia. Pensei que se morresse ele seria minha última visão. Ninguém merece, olhar Niltinho enquanto morre afogada por causa dele mesmo.

 

A vantagem de ser maluca é que a relação com a morte é outra, quer dizer, eu não teria noção da dimensão de morrer afogada nos mares de Saquarema he-he-he.

Negócio seguinte. A onda estorou em cima de nós! Pranchas voando e  eu me afogando porque a guria se agarrava em meus ombros, me afundando. Aconteceu umas três vezes: eu emergia para tomar fôlego e ela de novo me afogava para ficar com a cabeça fora d’água.

Todas as vezes que eu conseguia olhar a vida, eu via Niltinho – meu salvador – dormindo na areia, provavelmente sonhando com o Hawai.

No terceiro ‘mergulho’ eu já aceitava a idéia de que iria partir desta pra melhor. Mas só queria fôlego, um pouquinho que fosse, apenas para xingar Niltinho, meu assassino! Depois eu morreria feliz.

Mas como dizem, tem uns santos aí que cuidam de pescadores e surfistas. Mesmo não crendo tanto assim eu acho que alguém nos salvou. O mar ficou calminho e consegui nadar até a areia. A menina também. A menina? O demônio que me mostrou como os peixes se sentem fora de seu habitat. Me senti com aquela boquinha deles abrindo e fechando até virar pirão.

Enfim (ufa!) chegamos à areia. Me joguei quase desmaiada ao lado de Niltinho. Tentava recuperar forças para esganá-lo ainda dorminndo pra ele nem saber por que morria.

Mas de repente ele acorda com aqueles olhos vermelhos e sorri pra mim:

_ Qual é Daisynha! Tá com maior cara de campeã! Encarou quantas?

_ Quantas tentativas de assassinato?

_ O que foi, o que rolou lá dentro? Se deu mal?

_ Não, imagina, sua amiguinha só me afogou várias vezes!

_ Putz! Bem que meu sono estava meio conturbado!

_ Ah! Legal! E se eu morro, hein!

_ Qual é, você é forte, mulherão de fibra! he-he!

Meus olhos desviaram de Niltinho e olhei para o marzão, pensando se não teria uma forma de eu matá-lo sem levantar suspeitas. Mas me levantei e fui pra casa, agradecendo aos deuses e jurando que nunca mais eu falaria com Niltinho.

Para quem (ainda) não conhece esta figura, ei-lo.

http://dai.lendo.org/quem-nao-tem-colirio-apela-pro-dialogo/

Quem não tem colírio apela pro diálogo ;)

Posted in faz-me rir... on Agosto 24, 2007 by Daisy

Quando morei em Saquarema, Região dos Lagos aqui no RJ, além de pegar umas ondinhas de jacaré e body board na marola, fiz algumas amizades com gente muito louca. Dentre esses ensandecidos, conheci o Niltinho, um playboy de idade já avançada, mas sem nada na cabeça, só queria fumar, pescar e andar de lancha. Era meio vesgo e muito gente fina.
De vez enquando ele aparecia em minha casa para contar seus “causos” vida a fora.

Num desses dias, final de tarde, eu na minha, sentada em meu quintal gramado, corpo em forma, pele bem torrada e saboreando uma cerveja, eis que chega Niltinho todo risonho, com os olhos super vermelhos e alguns peixes para pormos na brasa, na mimha churrasqueira que ficava nesse meu belo quintal gramado.

_ Oi, Daisynha! Trouxe uns peixes pra gente assar, pode ser?
_ Claro, pega o carvão aí no armário, debaixo da churrasqueira e manda ver!
_ Hoje passei sufoco, tava com meu carro no centro…

O carro de Niltinho era um bugre mais que velho, sem documento, ele não tinha carteira e nem o carro tinha freio. Pergunto, fingindo surpresa:

_ Sério?! O que houve desta vez…
_ Dois PMs me pararam…
_ Ih!
_ Eu com esse olho vermelho, já viu, né?

Niltinho tinha de fato uma inflamação constante de tanto ficar no mar, mas os olhos ficavam mais vermelhos ainda quando ele resolvia “viajar”.
Pergunto de novo, mas já não finjo surpresa:

_ Deu dinheiro pra eles?
_ Nada… pior que tava sem óculos, ‘vou me ferrar’, pensei…

Vai falando enquanto atiça a brasa e despeja os peixes no meu tanque limpinho de cloro:

_ Putz, mas eu me dei bem porque PM é tudo burro, né…
_ Ah, não fala assim, tem uns que até são legais…
_ Legais ou não, o lance deles é tomar nossa grana. Inda mais eu: sem documento, sem freio, sem óculos, na mão deles!..

Abre a barriga do peixe, joga as vísceras fora enquanto entorna um longo gole de minha cerveja geladíssima, sem a menor cerimônia.

_ Pô, acabei com tua cerveja, Daisy!
_ Problema não, meu freezer tá cheinho, vai lá e traz mais duas latas pra nós!

Ele volta com sal grosso e cerveja de minha cozinha. Retoma o fôlego e continua a contar o que para ele era uma odisséia:

_ Tu acredita que os filhos da puta me encararam e disseram que eu iria morrer num dinheiro…
_ Vixe! Perdeu dinheiro…
_ É ruim hein… Eles disseram que pelo carro tudo bem, cidade pequena, eu morador antigo… mas que por meus olhos vermelhos eu iria pagar caro, que era vacilação minha, atentado ao pudor!..
_ Atentado ao pudor?!…

Mas não pude deixar de concordar com os PMs, os olhos de Niltinho estavam assustadores: duas bolas alucinadas de erva pura. Niltinho, longe de perceber meu olhar estupefato, vira os peixes que já começavam a exalar agradável aroma.

 Pega mais duas latas de cerveja e volta com o peito estufado, sempre fazia assim quando se preparava para o clímax da estória. Dá um sorriso maroto pra mim e joga na minha boca um naco pelando de peixe, que eu engasgo, mas disfarço, resolvendo com uma golada de Skol.
Ele diz, me fitando com aqueles olhos “chave de cadeia”:

_ O PM disse pra mim: “Esse olho com a cor do inferno não tem explicação, tu vai dançar, meu irmão!”

Engraçado que Niltinho tinha o dom de imitar as pessoas, eu quase vi o PM na minha frente falando. Outro naco invade minha boca desatenta. Ele continua:

_ Mas aí, eu disse que cada olho estava com um problema diferente, coisa rara, que até o médico não se aproximou muito de mim na consulta mais cedo! – cara de sem vergonha.

Engasguei de verdade e tive que tomar uns tapas nas costas para desentalar.

_ Que doença tu disse que tinha, cara?!

Niltinho, cínico e cruel:

_ Disse que num olho eu tinha “estalactite” hahahaha!…

Eu tinha que perguntar:
_ E no outro olho, meu Deus!

Niltinho bêbado:
_ No outro era mais grave ainda: é “estalagmite”, chefe, muito mais contagioso!…

Eu, boquiaberta, não querendo perguntar mas era inevitável:
_ E aí, tomou umas porradas, bicho?

Niltinho, tomando minha latinha das mãos:

_ Nada, Daisysinha, eles se afastaram, um mais metido disse com a voz grossa para parecer inteligente: “Vai, rapaz, minha sogra já teve isso, vai, pode ir…” hahahaha!…

Bem, comi meu peixe e fiquei pensando que algumas famas são pra sempre, ou seja, por essas e outras, PM tem fama de burro e carioca de malandro.
Quero mais cerveja!