pág. 1
Prefácio
Trata-se da estória de quatro extra-terrestres, Os Santos, que depois de uma guerra santa onde a Igreja foi derrubada, eles vieram em misteriosa missão conhecer o planeta, ou o que dele restou.
Depois da referida guerra, somente três castas dirigem a terra: Os Ateus; Os Novos Cristãos e Os Mercenários.
E tudo indica que Os Santos pretendem tomar o planeta.
Neste livro, a ficção é o que menos pesa pois há uma nuance de amor por toda parte. A literatura será a chave para o entendimento entre eles já que em certas partes quem narra é o santo escritor que, depois de ler, em uma noite, mil livros de autores terráqueos, passa a mudar sua visão dos habitantes do planeta.
Metáforas fictícias são argumentos para a autora contar uma linda estória de tolerância e fraternidade, fazendo uma releitura inusitada das relações humanas.
Introdução
O Primeiro Contato
São três pessoas que se encontraram numa praça. As três com um mesmo objetivo, eu percebo, ou seja, contemplar o entardecer por falta de outra atividade. Mas era apenas a impressão que me causavam porque na realidade senti, curioso, que seus corpos fremiam numa espécie de ansiedade urgente, como se precisassem falar apenas entre si. Como se só eles existissem em detrimento de tudo e todos ao redor. Não obstante, era claro para mim, claro como as águas do rio que silenciavam em oração atrás da praça, que eram aluados altruístas em defesa de algum inquérito pendente por aqui.
Notei, chegando mais perto, que também eram estranhos entre si, porém, a forma como estavam sentados no banco parecia conhecerem-se há muito tempo. Como pertencessem a uma mesma casta ou tribo.
Às vezes eu lamentava ser cego, ainda que talvez por opção, faltava-me em minha missão esta ferramenta ao contemplar o mundo este. Às vezes padecia em certas dificuldades materiais.
Mas minha cegueira, claro, não impedia-me de vê-los exatamente pelo lado interior e o exterior. Um olhar de minha lembrança. Um fato curioso que mais tarde compreendereis, assim que sentir-me à vontade em vossa companhia.
Entretanto não há de ficar no escuro, no input de meu espírito desertor.
Portanto, farei as devidas apresentações destes três personagens que seguirão comigo até as últimas páginas desta odisséia literária, onde deixarei minhas impressões a respeito de vosso planeta.
pág. 2
Cap. I
Os três
Recostei-me em frondosa árvore, sentindo sua energia passar para o meu corpo enquanto os pardais ordinários aconchegavam-se para seus reles ninhos e galhos. Os pardais eram inquilinos da natureza, sitiados em seus desvalorizados atributos de cantorias. E vossos corações não estavam mesmo preparados para comparar este peculiar som destas aves minúsculas a um absoluto silêncio aprisionado no éter.
E, sem parâmetros, notei imediatamente que vosso mundo estaria por padecer em miséria espiritual, vos levando à decadência feérica de uma espécie carente do maior dos sentimentos migrados para este lugar – o amor puro.
Se apenas com o canto destes pardais eu elevei-me em grata complacência, imaginai quanta beleza pura os nativos deixaram de absorver desde os primórdios de vossa existência nesta terra.
Temo que, caso revele agora no início de onde venho, corra o risco de ser considerado um lunático e não desejarei provar o que falo, incorrendo em possível confusão de vossa parte em querer rotular-me mais um profeta ou algo do gênero, já que por aqui vosso lindo povo tende patologicamente ao consumo incompreensível de cultos obscuros e silenciosos. Há, isto eu notei de pronto, há uma compulsiva ânsia a um generalizado monólogo com os céus.
Eu que, como preposto em prerrogativa venho em missão inóspita, não poderia deixar de admití-lo porque de onde venho, não se cultua a mentira e nem a soberba. De fato, alguns sentimentos me assustam por serem por mim desconhecidos. Em contrapartida trago um que certamente não conhece vosso povo.
pág. 3
Meu corpo é leve porque vivo em elevação e êxtase. Nada pode me atingir e vossas conversas não haverão jamais de alcançar-me mais que a dó que sinto de vossos destinos. Muito longe estarei daqui dentro em pouco, até evito um sentimento proibido de onde venho, mas acho que por aqui a repugnância e o desprezo sejam uma constante em corações purulentos, traçados com espíritos mal nascidos.
Sinto uma fúria dentro de mim porque meu amor está acima de toda e qualquer circunferência sentimental. Ele é aberto e infinito. Por isso aceitei prontamente esta missão confiada a mim.
Mas desconfio que haja mais alguns comigo. Aliás, tenho mesmo a certeza. Porém cego, terei de procurá-los pela aí. E já notei que é vasto este lugar. Entretanto terei meu meios – vereis – de encontrar os outros espalhados em vosso domínio. Tavez sejamos quatro.
Como não poderei revelar nossos nomes, por ora, leitor, chame-nos Os Santos.
Por enquanto será suficiente. Nosso primeiro contato está feito e o considero bem sucedido.
Sigamos em frente. Vire a página, por gentileza, amado nativo.
pág. 4
Primeira parte – A chegada
Queira perdoar-me nativo, mas é que de onde procedo, costuma-se ter calma e cortesia nas conversações para que não reste dúvida alguma no resultado final das trocas e acordos.
Por isso vos falarei de minha queda, ou melhor dizendo, minha aterrissagem dolorosa em vosso domínio.
Quando caí, pousei meus descalços pés em lugar de bela vegetação. Absolutamente perfeita a sensação da grama sob meus pés e o frescor da natureza invadindo-me pulmões e o espírito de alegria.
Uma tal felicidade que suponho e sei que nenhum de vós já sentira. Ao menos não verdadeiramente. Mas não vos culpo, entendo que não fostes devidamente preparados para este lugar. Sabemos de tudo, porém não podeis isentar-se de culpa. Isso não.
Tudo ao redor me exalava esplendor, tremores percorreram todo meu corpo, cada parte, das plantas de meus pés ao recôncavo mais profundo de meu cérebro. O que chamamos lá de energia pura transmissora, quando por aqui o sinônimo menos infiel seria vosso amor à natureza.
Minhas narinas dilataram-se e meus sentidos – todos os cinco – abraçaram-me com nosso costumeiro amor.
Em mim nada pode soar falso porque, como o afirmei anteriormente em nosso primeiro contato, não existe mentira em meu mundo. Inclusive devo admitir que muito ando curioso, porque como desconheço o que seja mentira, suponho-me alienado de prática das mais usadas em vosso planeta, já que me parece um artifício comum a absolutamente todos os bilhões de nativos daqui. Entretanto naquele momento não dispunha de paciência para resolver tão simplória equação.
pág. 5
Então saí da mata hospitaleira e vislumbrei vossos concretos armados em cima da terra. Os prédios, os postes, toda uma estrutura que, tenho conhecimento, levou toda uma era para trocarem o verde pelo cinza.
Como disse, a mentira foi minha primeira experiência por aqui.
Dos quatro santos, talvez eu seja o mais contemplativo. Profundos olhos negros como as trevas, porém brilhantes como os sóis de meu planeta. Sou dentre os meus, alcunhado de Visão do Tudo.
Prazer em conhecê-lo, nativo.
Quando equacionei o misterioso sentimento vosso, sentimento excitante sem dúvida, uma vez que a cada mentira proferida, tendes a breve sensação de algum controle sobre os outros. Senti-me em choque hipnótico ao contato com a vossa mentira.
Assim, ao olhar o rincão deste sentimento, um fogo de desânimo, o fogo materializado e encandescente feriu meus olhos e decidi cegar-me enquanto durar minha estadia nesta terra. Desta forma meu cérebro permitir-me-á escolher o que ver e o que enxergar.
pág. 6
Moro em um pequeno apartamento em caquético prédio numa rua fétida e sem muita luz.
Não me acostumo e sempre perambulo tateando as paredes do prédio. Não o quero ver. Concreto decrépito em cima do mato. Já seria motivo suficiente para desistir, porém não desistimos ante uma missão. Geralmente vamos até o fim.
Toda vez que entrava e saía do prédio eu sentia um agradável perfume no ar. Minha desgraça começa aqui porque não somos treinados a apartar o amor de nós, assim, quando dei por mim estava amando uma mulher, provavelmente moradora do inóspito local. E embora em nenhum relatório nosso conste ligações de nós com outros, era fato notório e incontestável que eu a amava.
Não conhecia uma fruta adocicada com a qual fazeis a bebida vinho, algo que muito agradou meu paladar essencial (tenho dois). E, por ter apreciado a uva, experimentei a sensação da euforia alcoólica que me remete ao vosso sexo e amor.
pág. 7
Aconteceu quando estava subindo as escadas, voltando de minha costumeira reflexão, onde ficava na praça assistindo ao pôr do sol. Isso eu fazia todos os dias. Infalivelmente todos os dias. Depois o telúrico descobrirá o porquê.
Ela segura meu braço e me acompanha até meu apartamento. Entra em silêncio.
Não teria como descrever para vós tamanha beleza. Uma maravilha de espécime do sexo feminino. Cabelos de fogo caindo em caracóis até a cintura. Olhos que oscilavam entre o verde e o marrom. Alta, elegante, com boca de fazer qualquer um de vós seduzido. Qualquer um de vós!…
Antes de pretendeis subestimar-me, nativo, devo alertá-lo de que não tereis, em nenhum momento, domínio sobre o que vos falo. Não possuireis qualquer tipo de presunção a meu respeito. Até mesmo este amor que sinto por esta mulher, jamais nenhum de vós sereis capaz de experimentar. Depois, caso não fique enfadado de vós, é possível que continue relatando minha experiência por aqui.
Este não é um relatório oficial mas uma amorosa forma de vos contar o que de fato aconteceu em vosso planeta. Considero justo. Em meu lugar a justiça é quem rege nossas vidas.
Assim, como um sobrevivente, vislumbrareis tudo o que aqui ocorreu desde nossa chegada. Passeis portanto, este livro adiante para seus eventuais e defeituosos descendentes por vir.
pág. 8
A Tragédia e o Padre
A igreja estava vazia. Não somente de fiéis, mas vazia de fé ou qualquer sentimento que conotasse um resquício sequer de espiritualidade.
Tempos de ferro e decadência. Depois de A Queda tudo ficara difícil para ele. Perambulava de um lado para outro na sacristia. Sua boca era azeda de forma constante. O que mais fazer a não ser sorver o vinho estocado da adega?
Olha as gravuras nas paredes e nos tetos. São só pinturas. Afrescos desbotados. Cabeças de anjos fora dos corpos. Um odor de mofo tomava conta de tudo. Na parede, a estátua de Cristo resistia empoeirada na cruz.
O padre afasta os longos cabelos negros da testa. Percebe um suave tremor nas magras mãos. O tom de sua pele adquirira uma estranha cor entre o branco e o cinza. Suas veias saltavam grossas, salientando-se desproporcionalmente, ele notava.
pág. 9
Começou a lembrar de quando alí chegara. Na verdade não tivera a itenção de provocar A Queda. Não era de fato interessante para ele ver o homem sem religião, porém jamais saíra mal sucedido de uma missão.
Escolhia sempre estudar o lado espiritual dos homens e das criaturas, sua fé e suas crenças. Até então jamais se envolvera com qualquer nativo que fosse. Seu estoicismo era honrado e respeitado em seu lugar de origem. Não por acaso seu nome era O Sacerdote Lo.
Mas desta vez, não sabia bem o porquê de tamanha melancolia no coração que fazia um som surdo no peito com seus três ventrículos e suas três aurículas. Jamais estivera envolvido por nenhuma criatura que fosse, sempre superior, muitas vezes até sorria em complacência por tanta ignorância vista ao longo de suas viagens.
Havia uma mulher a esperá-lo na assistência da igreja. Mulher. O que um mulher quereria com ele a essas alturas ? Intrigou-se porque não havia mais fiéis, não comungavam mais, em lugar das missas, operários e ateus buscavam nova economia de subsistência depois de O Tratado.
Suspirou resignado e entornou o restante do vinho garganta abaixo. Respingou a camisa branca e o borrão parecia um rosto. Um rosto de mulher, sem dúvida. Absolutamente perfeito. Sorriu porque já sabia o que significava. Já acontecera em outras ocasiões.
pág. 10
Olhou pela porta entreaberta e vislumbrou um linda mulher sentada no banco da assistência. Sorriu, amarrando os cabelos em nó pois estava quente e se o deixa solto poderia também causar má impressão. Já passavam dos ombros e eram cheios. Vasta cabeleira com alguns fios brancos. Estava ficando maduro depois de tanto tempo. Já nem contava mais os séculos. Sorriu de novo com seus dentes alvos e prestou mais atenção à mulher.
Era ruiva e seus cabelos eram cacheados e longos. Bem mais longos que os seus. Um tremor percorreu seu corpo forte e não pode evitar uma ereção ao olhar aqueles olhos verdes que o fitavam de longe.
Não teve escolha: possuiu-a pela força da mente, sem sair do lugar, sem mover um único músculo. O maior dos prazeres para os homens daqui para ele não passava de uma breve sensação de bem estar. Secundário e insignificante.
Caminhou até ela. Sentou-se ao seu lado. Ficaram assim, em silêncio, até este ser rompido por uma voz suave e profunda ao mesmo tempo. Impressionante, aquelas palavras entraram diretamente em seu coração já perigosamente envolvido em emoções. Inevitavelmente baqueado pelos últimos acontecimentos. Por tantas mortes sangrentas.
pág. 11
Ela diz, fitando-o diretamente nos olhos:
_ Não me arrependo. Fizemos a nossa parte. Eles quiseram que fosse assim.
_ Não compreende, não é?
_ Eu precisava montar minha tragédia. Amo a arte e o teatro, você o sabe.
_ Mas foi longe demais, não lhe parece?
_ A igreja já resfolegava. Agonizava sem Ele.
_ Suponho faltar pouco para irmos embora, porém não considero minha missão cumprida totalmente.
Ela desvia o olhar do padre e fixa-o no chão. Sussurra:
_ Por que me possuiu daquela maneira? O protocolo…
Ele segura suas mãos entre as suas e não a deixa terminar:
_ Não falemos de protocolos. Hoje terá reunião dos Ateus. À noite podemos continuar nossa conversa. O que lhe parece?
_ Nos encontraremos na reunião possivelmente, Lo.
Surpreende-se pois jamais Amândera participava das reuniões dos Ateus.
_ Então irás?
_ Hoje não poderia faltar.
E um estranho brilho velou seu olhar antes angelical.
pág. 12
A Reunião
Era o Vaticano, tomado na Revolução pelos Ateus e os Anjos da Milícia.
Toda quarta feira se reuniam ao redor de imensa mesa para discutirem o futuro da economia e do mundo.
Cada casta tinha seu representante: cientistas de tecnologia, agrônomos, banqueiros, poderosos da informática, juízes, advogados, escribas e médicos – todos ateus.
O Sacerdote Lo chegou, precedido de Amândera.
Sentaram-se em lugares afastados, uma espécie de assistência, onde algumas poucas pessoas podiam ficar. Pessoas com poder aquisitivo superior ao dos demais. Por mais que seus corpos fossem vultosos e seu olhar mais profundo, nenhum deles sabia tratar-se de Os Santos.
Sacerdote Lo, conhecido como alto investidor de tecnologia era por esse motivo muito respeitado pelos demais.
Os homens alí Julgavam-se auto-suficientes e supunham terem provocado A Queda por suas próprias mãos e vontades. Embora muitos pontos da história fossem obscuros, eles não imaginavam que forças ‘de fora’ aceleraram A Queda.
pág.13
O Sacerdote mantinha distância, pois não estava certamente satisfeito com o desenrolar dos acontecimentos. Este Status quo o alarmava deveras. Por alguma razão seu coração o alertava de perigo iminente. E ele, o Sacerdote Lo, para as pessoas um ex-padre rico, sabia melhor do que ninguém do perigo inerente a um homem sem fé. Entretanto, olhando para o rosto tranqüilo e impassível de Amândera não pode evitar uma sensação de frio na coluna vertebral. E uma espécie de pontada no lado direito da cabeça. Era o aviso vindo de longe.
Androro tentava se comunicar. O quarto Santo.
Desde de sua chegada ele estivera ausente. Intrigante porém compreensível, a julgar por seus poderes e sua fatal decepção com o planeta. Sem contar que era jovem e determinado e por alguma razão desconhecida de Lo, Androro relutara em vir nesta missão.
O Sacerdote até estranhara o quarto santo ainda não ter se manifestado, mesmo durante a guerra. E por mais que fosse respeitado pelos três, sentia que Androro poderia representar grande perigo para a terra.
Até aqui a guerra fora provocada e resolvida praticamente entre os próprios nativos, mas, se o quarto santo se manifesta em ira, Lo temia não sobrar pedra sobre pedra no planeta.
pág.14
Despertou de sua meditação com um grito. Era o presidente da reunião, o ateu Maximiliano Hernandes que socava a mesa enquanto rugia entredentes:
_ Não vou admitir monopólios na Comunicação!
Edgar Santtoro, presidente da E.S.Virtual Comunication sorria calmo:
_ No Tratado não é previsto nada que possa se assemelhar a um único parâmetro comunista, e todos os senhores o sabem.
Um burburinho tomou conta do local. A palavra comunismo causava mal estar porque algumas entidades estavam se mobilizando e resgatando conceitos marxistas para implantar neste novo milênio pós queda da igreja.
Mas os ateus eram freneticamente contra porque pensavam que Marx poderia ser cultuado como a um deus e não seria difícil os pobres aderirem ao movimento. E depois de A Queda a pobreza advinda com a guerra fazia com que a maioria esmagadora da população mundial fosse de miseráveis. Um perigo para a elite dos ateus.
Lo preferiu sair dali pois a dor na cabeça aumentara. Androro não haveria de estar bem. Por onde andaria este soldado do amor?
Esticou a mão para Amândera e sairam discretamente da reunião.
pág.15
Sentaram-se em um muro de um edifício demolido.
Lo sussurrou:
_ Preocupo-me com…
Ela o corta:
_ Androro…
_ Sinto que não está bem. Posso sentir sua ira. Algo o aborreceu sobremaneira, mas não consigo ver o que é.
Amândera pousa sua mão suavemente no ombro de Lo e sorri:
_ Sei onde ele está.
Lo sobressalta-se:
_ Por que não me disse antes?!
_ Ele não queria que soubesses, temendo que você tentasse persuadí-lo de suas sinistras intenções.
Lo solta os cabelos – hábito antigo quando ficava intrigado:
_ Talvez eu não deva tentar persuadí-lo já que quebra o protocolo da hierarquia. Mas poderei facilmente neutralizá-lo e você sabe que posso. Porém, meu coração não suportaria a dor de uma perda de um dos nossos. Não faz parte de nossos costumes. Jamais nos agredimos.
pág.16
Amândera sorri triste e parece ficar ainda mais linda.
_ Ele está com Visão.
Lo levanta-se do muro perplexo:
_ No outro lado do mundo! Estamos na Europa Ocidental…
_ E eles estão bastante conturbados. Todos estamos. Em nenhum documento do nosso Senado há detalhes minuciosos da vida neste lugar, do pensamento espiritual do nativo… Subestimamos a sordidez humana, caríssimo Lo.
_ Precisamos ter com Visão e Androro. Faremos uma reunião urgente antes que seja tarde demais.
pág.17
Cap. II
Voltando à praça…
Amado nativo, sinto-me envergonhado por minhas últimas palavras ásperas quando vos falei de minha amada com cabelos de fogo. Estive até agora precisando de uns esclarecimentos. E, pensando e meditando esses dias todos sem nada comer, cheguei à conclusão de que conhecera mais um de vossos ingratos sentimentos: o ciúme!
Eu pude sentir – eu posso sempre – que ao falar de minha deusa, o aventureiro leitor, ficastes atraído por sua beleza, por isso aquelas palavras tão rudes proferidas por mim na ocasião. Espero que possamos esquecer este incidente para que eu prossiga narrando vossa própria história.
E para provar que encontro-me mesmo arrependido, vos mostrarei algo maravilhoso: descreverei como nos transportamos de um lugar a outro porque sei o que é a curiosidade, pois esta também a temos, por isso viajamos pelos Universos.
Mas, antes, estimado nativo, deixai-me contar o que aconteceu na praça, naquele nosso primeiro contato, pois temo que aquelas três pessoas ainda estejam por lá, porque esqueci de liberá-las.
Sim, eu posso imobilizar vossos movimentos, embora não deveis vos assustar pois em nenhum momento espero eu ter que assoberbar-me em superioridade ante vossas vidas e corpos, já que de onde procedo não há supremacias maliciosas ou mal intencionadas. Principalmente de mim, um operário das escritas.
pág.18
Lá estão os três, ainda sentados e fitando o pôr do sol. Aproveitarei para assistí-lo também. Mas não vos farei esperar, posso ir conversando enquanto capto minhas energias solares.
Essas três pessoas foram por mim vistas e escolhidas para dar-me suporte cerebral. Não, não vos alarmeis. O termo pode parecer predatório mas não se trata disto. Apenas há coisas que não temos descritas e documentadas em nosso Senado, portanto eu necessito saber sempre de alguns detalhes sobre vós.
O ciúme e a mentira eu descobri a sós, porém me obrigo ao niilismo, já que não poderia envolver-me com vosso povo. Entretanto podeis relaxar, honorável nativo, não vos tenho rancores e nem total descrença. Afinal, eu vejo ao fundo e sei que há algo de bom latejando em vossa alma espiritual, ainda que portadora de alguns defeitos de fábrica. Sim. Há a Fábrica.
Eu vi que já conhecestes minha amada Amândera. Não poderia dizer de pronto ser ela a minha santa, eu ainda não confiava suficientemente em vós. E por temer por vosso bem estar omiti a procedência do amor de minhas vidas. Principalmente agora que senti ciúmes.
Provavelmente este sentimento poderá pôr minha missão a perder – preciso lutar contra - porque sei que por onde anda minha deusa, luzes belas espalham-se ao redor e vossa constituição física e mental não estarão jamais preparadas para conter-se diante de tamanha beleza superior a de vossas mulheres.
Com todo respeito, estimado nativo. Sou um cavalheiro, por isso, assim que mais íntimos formos, descreverei como nossas mulheres nos deixam felizes. E havereis de concordar comigo.
pág.19
E, por mais que eu possa parecer um santo sem palavra e honra, acabei de receber mensagens do Sacerdote Lo. Estou com algumas dificuldades com o quarto santo, o Androro.
Terei que sair ao seu encontro mas não esquecerei de minha promessa. Haverei de vos contar como nos transportamos, amado nativo. Honra, para nós, é fundamental em nossa existência.
Sei que também desejareis saber mais sobre Androro, porém, este é ainda um ponto obscuro em minha confiança em vós porque sei que lealdade não é considerado um sentimento prioritário por aqui.
Sinto muito, querido nativo. Ainda não.
Mas na sequência, quando virares a próxima página, tereis grata surpresa. Não poderia deixar meu leitor telúrico sem nada para gozar.
pág 20
Os Cristãos
Estavam alarmados, e de certa forma um desespero tomava conta de todos alí naquele subsolo, sede de suas reuniões partidárias.
Eram os Novos Cristãos Comunistas (N.C.C) que na verdade nada tinham de cristãos, não como o Cristianismo havia sido praticado até então.
Esta Irmandade era uma célula americana, mas já se espalhavam pela Ásia e Europa. A Sede era em Roma, assim como na elite dos Ateus, toda e qualquer resolução partia de lá.
Sucedeu que fizeram um estudo científico da Bíblia e decodificaram sinais de extrema importância para eles.
Ernest Lion era especialista em decodificar senhas e tudo o mais que um ex-raker tivesse acesso. Assim, segundo a irmandade, os ensinamentos deste livro santo nada tinham de sagrados, mas informações de alto sigilo para o homem contemporâneo.
Nesta noite Ernest declararia aos irmãos segredos por ele descobertos na Bíblia.
Alisou a longa barba que já chegava encobrir seu pescoço e um calafrio percorreu seu corpo.
pág.21
A Revelação das Escrituras – Por Ernest Lion
Ernest Lion senta-se em poltrona diante de gigantesca tela porque a reunião será acompanhada simultaneamente por todas as células espalhadas no mundo.
Aos poucos os membros vão chegando e acomodando-se em seus lugares – cadeiras de madeira maciça e de ferro com dourado envelhecido, saqueadas na pós-guerra.
Lion, como sempre alisando sua longa barba, observa seus irmãos, antevendo a reação deles depois que proferisse tão surpreendente revelação.
Olha para Lucas e Victor, seus filhos adolescentes e imagina qual seria seu futuro depois dA Volta Prometida.
Sorriu em desânimo ao lembrar-se de quando ia à igreja com a mãe e de como sempre fingira estar rezando. Sentia-se diferente dos outros garotos por não ter fé. Algo em seu íntimo gritava para não crer. Ou crer, mas com cautela.
Dois mil anos se passaram e só agora o mundo entenderia o que significava o Retorno do Cristo.
Salvatore, chefe desta célula americana chega em sua habitual calma mantida às custas de drogas.
Como todos os Novos Cristãos Comunistas , cultivava barbas e a sua era espessa e negra. Passava dos sessenta mas era robusto e jovial.
Senta-se em poltrona especial, uma autêntica Luis XV.
Faz um sinal, dando por iniciada a reunião. Seus olhos brilham intensamente e Ernest Lion sabe que nesta noite, o chefe estava certamente sob efeito do skankedy, droga química derivada da primitiva canabis sativa. Última palavra em alucinógino. Um misto da planta com poderoso barbitúrico que causava sensação jamais sentida de poder e força, sem falar na expansão imediata da mente.
Lion experimentara numa ocasião de depressão mas não gostara, pois sentira-se o próprio Deus que jamais acreditara.
O telão digital se acende e o imponente rosto de Edgar Russeau Jr. aparece. Ele é o membro fundador do N.C.C.
Está em Roma juntamente com outros membros fundadores do Partido.
pág.22
Lion pigarreia, faz um nó na longa barba e se prepara para falar o que indubitavelmente causará comoção e júbilo.
Sorriu discretamente ao lembrar do seqüestro do Papa, no dia dA Queda quando este participava de uma cerimônia de Jubileu. Considerava irônico esta associação das palavras. Júbilo e Jubileu.
Finalmente começa a falar com sua voz suave e pausada:
_ Boa noite, senhores. Como já era de minha perspicaz desconfiança, e de alguns outros pesquisadores no mundo, a Bíblia é um livro cifrado em ocultos códigos. Mensagens estas que ficaram escondidas obscuramente por tanto tempo, a espera deste milênio.
Observa os olhos atentos de Russeau no telão. Depois encontra o olhar de Salvatore que o incentiva a continuar pois, impaciente, muitas vezes não suportava este costume de falar pausadamente que Lion possuia.
Calmamente o raker desfaz o nó da barba e prossegue com um sorriso enigmático que irrita Salvatore, porém sabia que estavam todos, no mundo inteiro em expectativa para ouvir sua descoberta.
Prossegue, calma e divertidamente:
_ Porém nenhum pesquisador chegou onde cheguei. Não entrarei em detalhes porque a linguagem tecnológica é o que menos interessa, eu suponho, senhores.
Olha para a tela e Russeau diz, com voz de timbre forte, própria de comando:
_ Prossiga e conte-nos logo! Dispense termos científicos! Por hora será suficiente. Nossa tecnologia ainda não é 100% segura. Você mesmo o disse Lion. Entregue o relatório a Salvatore e prossiga, por favor!
Um homem da comissão pega um minúsculo aparelho das mãos do cientista comunista. Este continua, após fazer novo nó na barba:
_ Invertendo algumas frases na altura dos enigmáticos versos do Novo Testamento, usando um programa secreto que desenvolvo há anos…
Olha para todos entre divertido e poderoso.
_ Descobri que de fato Ele voltará em breve!
pág.23
Os Anjos da Milícia
Laford chega à Empresa. Estaciona seu carro modificado, um furgão com meio teto solar (para eventual fuga), à prova de balas.
Uma espécie de soldado toma-lhe as chaves para estacionar o carro.
Entra no prédio por uma porta automática onde se encontram mais dois soldados.
Vestem-se com jeans e camisetas pretas e usam coturnos herdados dos exércitos que agora estavam divididos entre os partidos atuais. Os que sobreviveram à guerra. A maioria têm a cabeça raspada e tatuagens estranhas nos braços. Como símbolos em sânscrito e hebraico.
O que Laford chamava de Empresa era a sede dos Anjos da Milícia, uma organização formada por ex-militares e civis que atuavam neutros na política. Eram mercenários, por isso estavam ao lado da elite dos Ateus. Estes, ricos, mantinham tudo sob controle embora começassem a incomodar-se com o N.C.C.
Laford sabia que essa Irmandade Cristã pesquisava algo que poderia mudar o mundo de novo. Sorriu um sorriso gélido e excitou-se com a possibilidade de uma nova guerra. Era chamado entre os seus de ‘O Sanguinário do Apocalipse’.
pág.24
Já fazia alguns anos que nada acontecia e Laford já não suportava o marasmo e aqueles patéticos Ateus que só pensavam em controlar o mundo e ganhar dinheiro. Pensou que os mataria com prazer. Um a um, aqueles persnóticos e presunçosos ateus.
Ex-general do exército, sempre fora um homem frio mas exímio estrategista e numa possível guerra política, seu trabalho valeria muito dinheiro. Peso de ouro e isso não faltava aos Ateus pois toda a riqueza da igreja fora saqueada por eles. E Laford liderara o saque e portanto sabia que havia tesouros incalculáveis como uns pergaminhos (nunca soubera como chamá-los), uns antigos escritos que Laford desconfiava serem os tais testemunhos, os evangelhos de Madalena e Judas. E mais umas anotações que Laford sequer sonhava saber do que se tratava.
Sentou-se em seu escritório e começou a ler os jornais, antegozando a guerra iminente pela tomada do Poder. Outra vez sorriu malicioso.
Levantou-se e acendeu umas velas para Francisco de Assis, santo de sua devoção desde criança, quando aprendera com a mãe que este era um bom santo que ajudava a cuidar dos animais.
Como o matador era louco por cachorros e lagartos, associou Francisco de Assis à sua vida.
pág.25
Francesca entra na sala e Laford, do alto de seus cinquenta anos grisalhos mas robusto e muito atraente com seu perfil moreno, descendência árabe, automaticamente se excita com sua tenente dublé de ninfomaníaca.
Alta, sedutora, mesmo de jeans, camisetas e botas. Cabelos curtos, de um castanho dourado, olhos escuros e frios como o aço. Era visão suficiente para Laford excitar-se. Pensava que Francesca era sua versão feminina. Tão sanguinária ou mais que ele. O próprio demônio, como diriam os ex-padres, os que restaram e que se encontravam presos nos porões de seu domínio.
Os ‘padres maus’, como os chamava Laford. Os ‘padres bons’ eram uma espécie de serviçais da Milícia, com poderes de oração. Muitas vezes faziam as vezes de conselheiros matrimoniais e assumiam posição de orientadores espirituais dos mercenários, por ordem e vontade de Laford.
_ Laford! – A voz fria e rouca de Francesca o traz de volta de seus pensamentos
- Desconfio que o N.C.C. esteja a um passo de alguma descoberta valiosa.
Laford sussurra muito sério:
_ Saberemos em breve. Ninguém haverá de quebrar o Tratado sob pena de morrer em minhas mãos.
Ela sorri maliciosa enquanto senta-se no colo do amante.
Rezava no Tratato que nenhuma descoberta inerente ao homem como um todo poderia ficar em sigilo…
Laford acaricia os seios da tenente enquanto murmura excitado:
_ Ninguém passa o General Laford para trás…
Francesca beija-o sofregamente e puxa seus cabelos com suas unhas que mais pareciam pequenas lanças, lixadas de forma a ficarem afiadas.
pág.26
Amândera, o Amor e os Ateus…
Os Ateus e o Sacerdote Lo ignoravam o que Amândera fora fazer naquela quarta feira em sua reunião costumeira, em Roma, na sede principal daquela estranha sociedade.
Saira precipitadamente com Lo, entretanto, já ciente das intenções dos Ateus, ela implantara uma espécie de sonda telepática no cérebro de Edgar Santtoro, o presidente, quebrando mais uma vez o protocolo de sua missão, porém era inflado de amor e boas intenções seu coração.
O perigo, ela bem o sabia, era seu constante estado apaixonado. Só fora naquela missão por insistência de Lo e Visão.
Carragam 8, o dirigente executivo de seu planeta, ainda pusera em dúvida a sua vinda nesta viagem, porém, sabiam todos que o seu era um dos corações mais altruístas e puros do Universo. E Carragam era o oitavo na linha discipular do governo e jamais nenhum de sua linhagem houvera cometido um único engano sequer. Eram espíritos plenos de perfeição.
Porém, Amândera pensou que jamais havia conhecido um mundo como este que a conduzia em oscilações de sentimentos que iam do desprezo ao ódio, e muitas vezes era acometida de uma tristeza tão profunda, que seus olhos marrons ficavam tão verdes que roubavam o verde ao redor, deixando tudo empalidecido.
pág.27
Os nativos realmente a deixavam em estado reflexivo e ela não aceitava um povo que dava as costas à natureza e aos ensinementos natos em seus espíritos. Ao invés disto, buscavam filosofias vãs em confiança de homens adúlteros e no charlatanesco ensinar dos homens ditos superiores.
Por que simplesmente não faziam a coisa certa? Por quer não aprenderam a escutar a voz do coração? E por mais que de fato fosse defeituoso este órgão no nativo, ela sabia que de qualquer forma era do coração, por mais deficiente que fosse, que este se restabeleceria ante seu habitat natural. O espírito ainda queria a paz e o amor.
Saiu de suas divagações com um leve tremor no corpo. Sabia e sentia que Visão a desejava, mas também tinha ciência de que o nativo haveria de ser prioridade. E que, sem ela, provavelmente Androro cumpriria sua catastrófica ameaça.
Já sentia-se abalada por ter provocado A Queda de forma tão irada. Não era mesmo sua intenção, apenas, era das artes – em seu planeta as artes eram deusas vivas – a música, literatura, cênicas, pintura.
Quis fazer um teatro em Roma e os efeitos especiais sairiam de seu corpo e jamais nenhum nativo sonhara com tal espetáculo.
Porém a igreja interferira e mesmo a proibira. E Amândera apenas exibiria uma das mais belas cenas de sensualidade da história, ao mostrar Jesus Cristo e Madalena fazendo amor como poucos casais em todo o Universo.
Sorriu e não pode deixar de sentir desprezo pela forma como os nativos se relacionavam por aqui: com tanto desamor e mentiras que seu acasalamento não era considerado sério nem procedente nos relatórios oficiais do seu Senado.
Porque lá, o amor era inerente a todos e não raro, celebrava-se o casamento de dois homens com uma mulher, ou o contrário, de uma mulher com dois homens.
Isto era o Amor!
pág.28
A cegueira e o Amor
Confiável nativo. Estive só em minha casa – este cômodo fétido e amargo -, deitado no chão por dias e noites até que, fraco, fui hoje assistir ao pôr do sol. Arrisquei meu bem estar, mas desta vez não foi por vossa culpa.
Desculpai minha ausência, mas foi difícil manter Androro sob o controle do raciocínio lógico. Nosso equilíbrio é perfeito, porém vosso mundo está, como li em algum lugar, de pernas para o ar.
Escuto um insistente burburinho e um irritante badalar de sinos. São os crentes protestantes remanescentes que insistem em reerguer o que jamais voltará a existir. Mas são tão insignificantes suas tentativas de um fictício ressuscitar que nenhuma entidade ou governo chegam a se abalar com estes pobres subprodutos de vós.
No entanto encontro-me tão sobejamente entristecido com vossas atitudes que chego mesmo a querer voltar para casa. Sinto desejo apaixonado de ir-me, porém sei que vosso mundo trasformar-se-ia em um nada! Como foi no início.
Minha amada, envolvida com política, parece ignorar-me sobremaneira. Este é um bom motivo para deixar um homem sem chão e céus.
Daqui, eu posso olhar todas as mulheres e fêmeas dos Universos, porém nada e nem nenhuma mulher, nem mesmo as de nosso planeta – as mais lindas e perfeitas - poderiam comparar-se à minha deusa, objeto último de minhas existências.
Mais uma vez observo minha vida no plural e isto certamente aguça vossa curiosidade que considero pertinente, já que vos considero um amigo, amado nativo, meu leitor!
pág.29
Andei lendo superficialmente vossa vasta literatura e assim quedei-me a vos respeitar definitivamente como amigo, pois surpreendeu-me verdadeiramente muitos escribas de vosso mundo.
Vi que muito vos esforçardes em vosso cérebro para vossa adaptação aqui. E, de ontem para hoje, após ler mil livros vossos, sei que não poderia ignorar vossa literatura e vossa cultura, documentadas em belíssimos livros. Alguns certamente levarei comigo, pois que estou mesmo muito surpreso com muitos escribas de vosso domínio.
Porém, alertai-vos! Ainda possuo os cinco sentidos que podem por vossa segurança em risco à revelia de minha vontade.
Este nosso fundamental sentido é o que nos protege de eventuais investidas de inimigos, já que essencialmente vivemos e respiramos Amor.
Este poderoso sentido é que nos faz, no bom sentido, dominar tudo ao nosso redor.
Amigo telúrico, há povos que ainda sonham em nos dominar há séculos, porém nada tememos porque por mais que sejam respeitáveis inimigos e possuam armas poderosas, não têm o Amor, elemento metafísico, fundamental combustível para o alimento deste nosso quinto sentido. Compreendeis o que falo, nativo? Amor é fundamental elemento eletrônico do nosso corpo, mente e espírito.
Desta forma, em posse deste elemento químico em nosso espírito, transmutamos e vivemos várias vidas. O que para o amigo pode significar o que chameis Eternidade.
pág.30
As Saudades de Visão
Sinto falta dos passeios pelas ruas do meu domínio, das raras árvores e das terras vermelhas onde crianças brincam nuas como se estivessem nadando em belos rios e fabulosos mares como os vossos.
Vosso céu é de um azul inigualável, jamais visto igual por mim que tanto já viajei pelai. No entanto calo-me em agonia ao observar vossa cegueira e tamanha é minha dor ao perceber este fatal erro de cálculo que vos fizestes cair aqui, nesta maravilhosa terra.
Na ocasião achou-se que saberiam lidar com o planeta com suas infindáveis riquezas naturais, mas eis o quase final de vossa aventura na terra.
E querido nativo, depois de ler os mil livros, eis que encontro-me em estado de graça convosco.
Tamanha emoção me permite finalmente vos considerar um verdadeiro companheiro.
De onde venho, como já vos faleis - e perdoai minha provável redundância -, lá a justiça é soberana e a tudo controla, portanto considero justo elevar o nativo a meu companheiro intergaláctico de agora para adiante.
Entretanto devereis, em troca, prestar a máxima atenção em tudo que começarei a vos revelar e saibeis que jamais, em nenhuma era, eu ou qualquer um de nós nos dispusemos tão afetivamente a salvar um povo. Embora a palavra ’salvar’ seja mesmo um tanto forte já que não sabemos eu, Amândera, Sacerdote Lo ou Androro, qual será de fato a nossa ação no final das contas.
Mas não há necessidade de sobressaltos. Podeis confiar em vosso amigo aqui.
Caso haja mudanças nos planos, sereis o primeiro a saber, amado companheiro nativo. É fato!
FIM DA PRIMEIRA PARTE.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~



Setembro 29, 2008 às 4:13 pm
Tema parecido com o da Trilogia Fronteiras do Universo, do inglês Philip Pullman, q estou terminando de ler.
1 abraço.