Solidão

 Sempre às 16:00…

Todos os dias ele ia à praça. Caminhava com seus passos medidos, seu guarda-chuva, e aquele envelope amarelado, envelhecido pelo tempo que apertava nas mãos também envelhecidas. Eram ainda mãos fortes e seguras e  trazia no rosto algum sinal da beleza juvenil.

Parecia um ritual, todos os dias, naquele mesmo horário, a hora do crepúsculo, a hora em que a solidão era-lhe mais conveniente, a hora da dor se instalar de forma prazerosa em todo o seu ser…

Como sempre, sentava-se com calma no banco, acendia o cachimbo cubano e soltava tranquilas baforadas enquanto observava as pessoas passando, os gatos saindo de suas tocas, era um parque de preservação  aos gatos abandonados.

Ocasionalmente um desses felinos lhe roçava as pernas e ele sem olhar o animal acariciava-lhe os pelos enquanto observava  as árvores tristes de um inverno frio… Ao longe via os bares cheios na hora do happy hour e sentia-se trincado de tristeza e frustração por não ser mais um a conversar e rir entre um drink e outro.

Como sempre fazia, abriu o envelope e de lá tirou uma folha amassada, uma carta de aparência envelhecida, tanto quanto sua postura, mais para cansaço que velhice propriamente, pois não teria mais de quarenta e poucos anos…

Olhou a folha como se fosse pela  primeira vez, empertigou-se e pos-se a ler a carta. Suas feições iam mudando na medida em que lia as linhas bem escritas, eram letras de mulher. No início ele sorria, como saboreasse o contédo, mas aos pucos suas feições endureciam e sempre nesse momento, seus olhos ficavam vermelhos e suas mãos decididas tremiam com um leve espasmo, uma sensação de culpa ou remorço…

Já ia se levantando quando um dos vários felinos do parque o distraiu, pulando em seu colo a pedir carinho. Pegou o bichano nas mãos enquanto sua preciosa carta caía no chão. O vento maldoso soprou a carta aos poucos até que esta recostou-se no lago e de lá saiu remando para o outro lado do parque. Ele nada percebeu, levantou-se e se foi, sem a sua carta.

Ao longe uma mulher bonita observava-o e quando já não podia vê-lo, correu ao lago e cuidadosamente pegou a carta molhada. Reposou-a no banco, sentou-se delicadamente ao lado e sorriu ao ler aquele velho trecho que escrevera há tanto tempo…

“Querido, precisei sair e não se preocupe, voltarei lá pelas 16:00, espere-me no nosso banco, lá no Parque dos Gatos. Trarei uma surpresa, você há de gostar. Beijos, meu amor.”

Dobrou a carta com olhos cheios de lágrimas e resolveu que jamais voltaria àquele parque onde um dia não voltara por ter perdido a memória por tantos anos… Talvez  fosse tarde demais… nem mesmo a surpresa ela saberia dizer qual era…

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