O homem que ficou só

mãos

CONTO de DOMINGO – O homem que ficou só

Ele não olhava para os lados, e nem se preocupava mais com a solidão das pessoas ao redor. Apenas convivia com o barulho infernal de sua cidade que lhe confundia a cabeça e um simples ruído de carros deixava seu coração em alerta.

Foi numa manhã de domingo e ele estava mesmo sem saber o que fazer, como agir, o que falar. Só dera tempo mesmo para tentar estancar o sangue da mão, tirar os vestígios do crime cometido. Enquanto caminhava na rua, mão enrolada em flanela, ia se perguntando intimamente se valera à pena ter lido Diógenes, Heráclito, Apolônio para viver daquele jeito, cuspindo pelos cantos da boca sua agonia de tanto pensar, entre um comprimido e outro, entre o banheiro e o quarto, esbarrando sempre em tapetes de livros espalhados pelo chão, o chão que os profetas pisaram, mas a terra devoraria seu corpo enxangue num próximo momento…

Solidão era o que mais ele mastigava por isso seu corpo era magro e seus cabelos ralos caíam pela testa suada de pensar no nada. Uma mulher passa por ele neste momento e dedica-lhe um sorriso de compaixão. Mas ele não queria compaixão, queria paz e suturar o sangue de sua mão. Que elas fossem pro inferno- sua mão e a transeunte do bem!

Tantas teses, poemas e pensamentos escritos, tantas poesias desnudas e sensuais àquela amante selvagem que lhe deixara a alma e as costas com marcas de arranhões em meio à taças e mais taças de vinho e morte. Olhou para trás e a mulher sorridente ainda se preocupava com sua dor infame. Sacudindo a cabeça, acendeu como pode um cigarro e soltando baforadas iradas, voltou a pensar com ódio por que lera Cícero, por que fora à Roma, nada perdera por lá, ainda mais em século tão distante…

Caminhava o poeta maldito, sem mulher, sem gozo, sem fúria ou paz, apenas um poeta que sangra, por dentro e fora, com seus passos vacilantes e a boca suja de pelos de quem há muito não liga em escanhoar a barba. Um homem que sofre a dor do mundo, a agonia dos que nada têm pra pensar… e como ele já pensara na maldita vida!…

Agora todo seu braço está dormente e o sangue escorre insistentemente por seu corpo, manchando com aquele vermelho desesperado sua calça Pierre Cardin ultrapassada e frouxa. Vai passando os olhos pelos transeuntes da rua para ele deserta, e sofre por não ensinar o que leu e escreveu. Então, por Deus, por que perdera tempo lendo Sartre, Heidegger, e a deliciosa Simone de Beauvoir…

Sentia ainda o perfume lascivo daquela mulher insensata que nada lhe dera além de inúmeros orgasmos entre um poema e uma citação de Kant. Além de beijos rachados de terror e hipocrisia ao fingir ser a musa do poeta bandido, o poeta andarilho, pobre e rico, feio e belo, negro e aço, aço de paixão e membro entumescido. Um poeta marginal, confuso e louco que só queria amar e jamais ter lido ou escrito. O poeta que já não acredita em nada, em ninguém… Pra que ter lido a Bíblia de trás pra frente se no final das contas descobre que não há Deus em nenhum lugar, em nenhuma atmosfera, em nenhuma alma, principalmente na alma daquela mulher sem coração nem escrúpulos ao fingir paixão com lânguidos suspiros mentirosos…

Agora respira, será socorrido por médicos ignorantes e frios que não sabem, ele pensa, não sabem que cada gota daquele sangue vale cada livro que leu e jogou fora, cada poesia que amassou para enxugar o suor de sua testa ou enrolar um baseado. Era sangue de toda sua vida e os carniceiros não sabiam, só se importavam em não sujar seus jalecos brancos e imaculados. E pra que ter lido e escrito por toda sua vida se a mulher da sua alucinada paixão o deixou… Então aí está, pensa o poeta, não precisei mais de minha mão, costurem o que sobrou porque não leio, não amo… e não escrevo mais…

Fim

Compare Preços de: Roteiros de cinema, Faculdade de roteiristas no Buscapé.

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