Ode para um pai qualquer ou para Thiago

Não era para ser assim, eu não queria ser pai
eu não pensei que esse filho cresceria, andaria
não sabia que teria o leite e o barulho pra comprar
que minhas pernas andariam por anos em busca
do amadurecimento que jamais chegava em mim
Odiei o filho e tive tempos malditos de dúvidas
pensei na possibilidade de ir-me pra sempre
não mais voltar àquele quarto onde ele dormia
seu sono tranquilo que me deixava inquiteto sem sono

Não queria ser pai, não queria ser o deus dele
minha esperança era saber que um dia eu cansado
poderia recomeçar minha vida sem o peso da vida
que de repente jogara em minhas costas jovens
uma coisa pequena, disforme que chorava
por toda a noite, enquanto eu, também chorava
em soluços de compaixão a mim mesmo
eu estava perdido precisando também de consolo
mas ficava no escuro, impassível escutando soluços
naquele quarto escuro com cheiro Johnsons

Mas nada me abalava, eu não queria ser pai
não era pra ser assim de repente tão pungente
faca entrando por meu cérebro remexendo o meu bolso
contas e vacinas e eu enxangue, espumando de raiva
cheguei mesmo a buscar socorro em outros braços
de mulher que não me enchese o ventre de preocupação
passei noites bebendo e fazendo amor com qualquer coisa
que não engravidasse minha vida e não me fizesse
enlouquecer nas madrugadas febris daquele quarto escuro
com aroma de lavanda e pomadas e flores com cheiro
de desespero, de ver minha vida deixar de buscar
minha faculdade, meu futuro, o meu próprio pai.

Não, eu não queria ser pai, eu não poderia sê-lo
não olhando meus pelos recentes que nasciam no meu rosto
eu era menino ontem e hoje sou pai, não dava pra crer
eu não podia acreditar naquela baba escorrendo do dente
fraldas e trambolhos e eu precisando de colo

Até que um dia só ficamos eu e ele naquele quarto escuro
ele me olha e sorri com um dente apontando branco
eu ignoro seu olhar inocente e retardado, tenho vontade
de sair pra rua e deixá-lo sozinho com seu sorriso
ele parece saber que o desprezo e me chama a atenção
com grunhidos que mais me irritam eu queria gritar…

Mas, o que parecia som ininteligível que saia daquela boca
quase sem dente, quase não pude acreditar, eu me espantei
aquele moleque, serzinho que nada sabia de mim
balbuciou uma, duas, três vezes até eu entender
o que estava acontecendo naquele quarto escuro:
“pa-pa-pa…” era esse o som, ele me chamou de “pai”!

Por algum motivo, o quarto ficou iluminado e o sol
entrou por entre as cortinas azuis com a cara do rato Mickey
Eu peguei meu filho no colo e entendi por fim, em prantos
como era espantoso e milagrosamente sutil e fácil
ser pai daquela criatura…
Assim, passei a manhã toda enrolado com meu filho
e rimos um pra o outro o dia todo…
E, não sei se por coincidência ou não, neste dia
era o dia dos pais…

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Tristeza vida morte alegria e beija-flores

Quando ela chegou em casa já sabia que nada estaria como antes, que ninguém havia tratado de seu jardim, de suas prímulas, dos girassóis e do seu amado roseiral. Muito custou-lhe olhar para ele, outrora tão risonho ao sol… Talvez, se não houvesse uma única rosa viva seu coração doesse menos, mas, ao passar os olhos pelos arbustos ressequidos sentiu que as pernas lhe faltavam, seu corpo frágil cambaleou. Seu roseiral estava acabado, retorcido em mágoas e solidão. Era matagal balançando triste ao vento de inverno numa tarde desonesta.
Lá estava uma única e franzina rosa temporã naquele abandono sem fim.
Enquanto tirava uns espinhos mal educados da saia avistou uns olhinhos esbranquiçados, um retrato de um último olhar, como que a perguntar por que estava morrendo.
Recolheu o pequeno e frágil beija-flor em suas mãos ressequidas e lágrimas rolaram quentes e silenciosas por sua face branca, mais empalidecida pelo vento frio e pela tristeza amarga e rascante de sua vida no cárcere.
Enrolou o pequeno animal em seu echarp, olhou mais uma vez para a rosa abandonada e entrou na casa, a mesma onde fora tão feliz, mas em um tempo muito distante. Só agora se dava conta de como o tempo passara. Os anos, um após o outro se arrastando feito correntes pesadas e sangrentas nas pernas de um homem escravisado. Ela própria prisioneira de seu destino, sabia muito bem, centímetro por centímetro o que era não ter liberdade.
Acariciou o pequeno pássaro morto e soprando sua penugem cantou a velha canção que repetiu por anos na prisão alucinada onde esteve entre a sombra e a luz, o barco e o mar, entre o céu e o inferno.

“Cortina de fumaça, estrelas sem maridos, lua serafim
penetra em mim solidão pontiaguda, gelada investida
meu amor não vai voltar, minha vulva é viúva, é dor em mim

Calado gemido insano choque e pano, é dor sem fim
congela na boca o vento e a rosa intrometida
minha casa foi embora, o meu corpo é calça de brim…”

Seus olhos passeiam pela sala de estar enquanto canta. Lá está sua poltrona predileta encoberta em lençóis, os tapetes persas passam despercebidos por sua análise. Muito tempo, muita vida, muito medo, e muita vontade de gritar.
Mas sentou-se em meio ao poeiral da grande sala de estar e dormiu com seu pássaro morto entre as pernas magras.
De repente se assusta com vozes histéricas acordando-a para o jantar. É a empregada com seu largo sorriso:
“A senhora esteve dormindo por horas a fio… e veja – aponta para a ave – seu beija-flor nem voou, tá mansinho…”
Ela correu até a janela e avistou uma linda tarde de primavera e seu roseiral estava lá, lindo e majestoso a lhe acenar discretamente como se soubesse de seu sonho. O beija-flor se debate tímido e ela o solta com um sopro leve e ele se vai, voando feliz em direção ao majestoso roseiral.

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