Tristeza vida morte alegria e beija-flores

Quando ela chegou em casa já sabia que nada estaria como antes, que ninguém havia tratado de seu jardim, de suas prímulas, dos girassóis e do seu amado roseiral. Muito custou-lhe olhar para ele, outrora tão risonho ao sol… Talvez, se não houvesse uma única rosa viva seu coração doesse menos, mas, ao passar os olhos pelos arbustos ressequidos sentiu que as pernas lhe faltavam, seu corpo frágil cambaleou. Seu roseiral estava acabado, retorcido em mágoas e solidão. Era matagal balançando triste ao vento de inverno numa tarde desonesta.
Lá estava uma única e franzina rosa temporã naquele abandono sem fim.
Enquanto tirava uns espinhos mal educados da saia avistou uns olhinhos esbranquiçados, um retrato de um último olhar, como que a perguntar por que estava morrendo.
Recolheu o pequeno e frágil beija-flor em suas mãos ressequidas e lágrimas rolaram quentes e silenciosas por sua face branca, mais empalidecida pelo vento frio e pela tristeza amarga e rascante de sua vida no cárcere.
Enrolou o pequeno animal em seu echarp, olhou mais uma vez para a rosa abandonada e entrou na casa, a mesma onde fora tão feliz, mas em um tempo muito distante. Só agora se dava conta de como o tempo passara. Os anos, um após o outro se arrastando feito correntes pesadas e sangrentas nas pernas de um homem escravisado. Ela própria prisioneira de seu destino, sabia muito bem, centímetro por centímetro o que era não ter liberdade.
Acariciou o pequeno pássaro morto e soprando sua penugem cantou a velha canção que repetiu por anos na prisão alucinada onde esteve entre a sombra e a luz, o barco e o mar, entre o céu e o inferno.

“Cortina de fumaça, estrelas sem maridos, lua serafim
penetra em mim solidão pontiaguda, gelada investida
meu amor não vai voltar, minha vulva é viúva, é dor em mim

Calado gemido insano choque e pano, é dor sem fim
congela na boca o vento e a rosa intrometida
minha casa foi embora, o meu corpo é calça de brim…”

Seus olhos passeiam pela sala de estar enquanto canta. Lá está sua poltrona predileta encoberta em lençóis, os tapetes persas passam despercebidos por sua análise. Muito tempo, muita vida, muito medo, e muita vontade de gritar.
Mas sentou-se em meio ao poeiral da grande sala de estar e dormiu com seu pássaro morto entre as pernas magras.
De repente se assusta com vozes histéricas acordando-a para o jantar. É a empregada com seu largo sorriso:
“A senhora esteve dormindo por horas a fio… e veja – aponta para a ave – seu beija-flor nem voou, tá mansinho…”
Ela correu até a janela e avistou uma linda tarde de primavera e seu roseiral estava lá, lindo e majestoso a lhe acenar discretamente como se soubesse de seu sonho. O beija-flor se debate tímido e ela o solta com um sopro leve e ele se vai, voando feliz em direção ao majestoso roseiral.

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