Alma Nua – A verdadeira história da solidão

Chega de gaveta! Editar agora, só no virtual…

Este é meu primeiro livro que guardei trancado a sete chaves. Trabalhava em uma editora – Espaço e Tempo – em 90 e alguma coisa. Este meu conto prolongado – cem páginas + poemas – participou do então Concurso Nestlé de Literatura que não ganhei, foi para todo Brasil, de qualquer forma não venceria porque melhores autores participaram. Mas tenho que abastecer meu ego, pois Lima Duarte, um dos jurados na categoria Contos, mesmo que não escrito por ele, recebi na versão do ano seguinte, um telegrama me convidando a participar de novo.
Não o fiz. Também não editei o livro. E não quero guardá-lo mais entre minhas dúvidas infundadas, já que fui convidada por uma amiga a editá-lo até em língua inglesa. Virou peça de teatro com direção de Márcio Luiz Pereira, recém chegado da Itália – professor de direção para teatro no Liceu de Artes e Ofícios RJ – mas não estreou por falta de patrocínio.
Não suporto mais guardar comigo. Hoje vou postar o início. Alma, a personagem solitária está provavelmente buscando companhia depois de tanto tempo escondida nas coisas de Daisy Carvalho.

ALMA NUA – A VERDADEIRA HISTÓRIA DA SOLIDÃO – LIVRO

CAPÍTULO 1 (TRECHO)

Acordo. Vou trabalhar. Vou trabalhar?

O sol polidamente me olha pela fresta da janela percebendo meu humor e eu não queria sua companhia depois da noite anterior e preferia estar só.

Então, desci as escadas escuras da minha tristeza e como uma lacraia úmida nesta madrugada, eu estive insone e vazia.

Mas, lembro-me, todos os degraus da mulher da rua debaixo que se suicidara após um violento estupro semana passada, não me aliviava a dor de deitar-me farta de mim, pensando distraidamente nos meus erros irreversivelmente lunáticos, porque eu também me violentei todas as vezes que fiz amor com Você.

Debulho-me em lágrimas leitosas de um esperma celestial, adquirido no meu sonho erótico da minha primeira noite sem seu corpo nu, hipocritamente enrolado ao meu.

Sua viagem fora oportuna, pois já estávamos ausentes e saturados um do outro, assim, melhor que as asas da nossa paixão eterna desintegrassem, infectadas por uma bactéria vinda das profundezas do antiamor e voassem embora antes que nos partíssemos ao meio num momento exato em que estivéssemos embalados na agonizante concupiscência que envolve toda a humanidade.

Olho ao meu redor e sinto a dilatação do ventre de uma barata encurralada pelo pavor de morrer (quem não tem?) com seu feto em forma de ovo, clara e gema de um mesmo jantar, de uma mesma solidão faminta e o telefone tilinta intruso e eu vou lentamente adivinhando ouvir uma soturna voz dizendo foi engano, quando todo meu ser mergulha em desgraça e ansiedade.

Não é engano, mas Você a me perguntar como eu ia e eu respondendo que vou como sempre, com medo e ânsias, dores e fortuna, mas a dialética ruiu quando a barata, que parecia fitar-me, pariu.Vou desligar. Até…!

Volto para a cama com um cigarro entre os dentes, o peito queimando e eu cismando…

Não. Não vou trabalhar hoje. A manhã se foi. Entro em algum cinema já escurecido por um thriller, onde a macabra princesa me faz lembrar um de meus poemas. Recito-o em pensamento, enquanto enquadro as imagens dentro de mim:

A princesa bolinava o vento
Que levava embora seu herói
Embora para o idílio não levasse jeito
Ardia no seu peito a ilusão de ser amada…

Eu queria muito ser amada, mesmo como a princesa do meu pai e o filme falava de reencarnações e que poderíamos renascer insetos então por que usar inseticidas… Enfim, saí da sala rangendo as pipocas entre os dentes, ávida por um drink. Que filme absurdo… Eu já me bastava de loucura…

Chego a casa, esfaceladamente inteira, com meu escarpin com o salto quebrado, que precisei correr para pegar o metrô, o último trem e entregar-me a mais uma noite sem Você a me narrar histórias do seu passado na sombria prisão do Exército onde fora considerado inimigo da pátria porque lutava pela liberdade de seu país e eu contemplava sua perda de tempo: que país ou que cidade poderíamos dizer serem nossos se o planeta sem dono prepara-se para a luta final, destroçando homens e objetos, flores e floras e que se danassem todos os homens normais!…

E, eu sabia, magoava Você antes de irmos para minha cama de lençóis de seda praticar coisas que faziam com que esquecêssemos todo o resto, a banda podre lá fora, os insetos e incestos e o estupro clérigo da mulher da rua de baixo. Como era bom o nosso amor…Não obstante, jamais usufruiria a felicidade…

Não sei bem porque, mas lembrei-me de quando absolutamente não quisera ir para a Faculdade e eu nunca fui muito de falar em palestras estarrecedoras onde, bastante intranqüila era a última a chegar, mas a primeira a sair. Os grandes discursos pareciam zombar de mim, da minha sintética versão do que chamavam eles Filosofia e eu, por dentro, sofria e sabia e sempre saberia que a Universidade tentaria corrigir-me e tornar-me normal, logo eu que tanto implorara ao pai, falando do meu desejo de brincar, quando ele decidira me roubar a infância, levando embora minhas bonecas, para eu ir logo aprender a ler e então deleitar seus ouvidos com a leitura dos Salmos, nos quais jamais conseguiria acreditar.

“Pessoas normais” – 13

Não tem idéia
Do patético antiético
Como é feio
Comer meu espírito
Jogá-lo na linha do trem
Tremer de medo
Do deus que não vem
Vender a imagem
Do belo que desmancha como guache
Na tela do pintor falido
Que borrou tua bunda
Suja de medo.

Esse post inaugural de publicação de livros no meu blog, dedico ao grande amigo pioneiro www.alessandromartins.com.

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Sobre Day

As pessoas que consideram que a coisa mais importante da vida é o conhecimento lembram-me a borboleta que voa para a chama da vela, e, ao fazê-lo, queima-se e extingue a luz. (Tolstoi)
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