Sertão dentro de mim

Não tem chovido na minha cabeça, eu não bebo água, nem saliva tenho para beijar mais…
Minhas costas doem e minhas palavras perdem o sentido. As mãos tremem e descanso no cansaço de tanto escrever para ninguém.
Vou lá fora e vejo uma tarde deserta sem que eu saiba onde achar um amor, uma esperança de correr na praia espantando as garças… e as gaivotas.
Não chove em meu telhado, as calhas são gárgulas a rirem-se de mim, a antena destorce a imagem da tv e lá dentro, no fundo de todo meu ser uma voz grita sem esperança de ser ouvida, e apenas ouço ruídos e passos nos corredores da casa vazia, um tilintar sonâmbulo de fantasmas que me perseguem e eu desmaio entre as gotas da chuva que não me alcançam, ainda que fique no jardim de meu quintal, é somente o vento que cola meu cabelo nos olhos, impedindo-me de olhar um horizonte.
Só me resta voltar para dentro do meu terror, esquecer das vezes em que chovia em mim…
Só me resta entrar no quarto de minha solidão e esquecer o arco-íris que eu observava de minha varanda quando ainda tinha olhos para enxergar o belo…
Tudo que tenho agora, tudo que restou de minha vida está sendo levado pelo vento, desmanchado pela chuva, numa tormenta de horror, me encharcando numa torrente de dúvidas e eu, entre os poetas das páginas dos livros, descubro uma forma de fugir de minha agonia, do amor que soterrou minha canção, proibiu-me de olhar pro sol… e sentir a chuva no rosto que era feliz…
Agora sou espectro.
Já não espero mais a chuva…

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