Quem não tem colírio apela pro diálogo ;)

Quando morei em Saquarema, Região dos Lagos aqui no RJ, além de pegar umas ondinhas de jacaré e body board na marola, fiz algumas amizades com gente muito louca. Dentre esses ensandecidos, conheci o Niltinho, um playboy de idade já avançada, mas sem nada na cabeça, só queria fumar, pescar e andar de lancha. Era meio vesgo e muito gente fina.
De vez enquando ele aparecia em minha casa para contar seus “causos” vida a fora.

Num desses dias, final de tarde, eu na minha, sentada em meu quintal gramado, corpo em forma, pele bem torrada e saboreando uma cerveja, eis que chega Niltinho todo risonho, com os olhos super vermelhos e alguns peixes para pormos na brasa, na mimha churrasqueira que ficava nesse meu belo quintal gramado.

_ Oi, Daisynha! Trouxe uns peixes pra gente assar, pode ser?
_ Claro, pega o carvão aí no armário, debaixo da churrasqueira e manda ver!
_ Hoje passei sufoco, tava com meu carro no centro…

O carro de Niltinho era um bugre mais que velho, sem documento, ele não tinha carteira e nem o carro tinha freio. Pergunto, fingindo surpresa:

_ Sério?! O que houve desta vez…
_ Dois PMs me pararam…
_ Ih!
_ Eu com esse olho vermelho, já viu, né?

Niltinho tinha de fato uma inflamação constante de tanto ficar no mar, mas os olhos ficavam mais vermelhos ainda quando ele resolvia “viajar”.
Pergunto de novo, mas já não finjo surpresa:

_ Deu dinheiro pra eles?
_ Nada… pior que tava sem óculos, ‘vou me ferrar’, pensei…

Vai falando enquanto atiça a brasa e despeja os peixes no meu tanque limpinho de cloro:

_ Putz, mas eu me dei bem porque PM é tudo burro, né…
_ Ah, não fala assim, tem uns que até são legais…
_ Legais ou não, o lance deles é tomar nossa grana. Inda mais eu: sem documento, sem freio, sem óculos, na mão deles!..

Abre a barriga do peixe, joga as vísceras fora enquanto entorna um longo gole de minha cerveja geladíssima, sem a menor cerimônia.

_ Pô, acabei com tua cerveja, Daisy!
_ Problema não, meu freezer tá cheinho, vai lá e traz mais duas latas pra nós!

Ele volta com sal grosso e cerveja de minha cozinha. Retoma o fôlego e continua a contar o que para ele era uma odisséia:

_ Tu acredita que os filhos da puta me encararam e disseram que eu iria morrer num dinheiro…
_ Vixe! Perdeu dinheiro…
_ É ruim hein… Eles disseram que pelo carro tudo bem, cidade pequena, eu morador antigo… mas que por meus olhos vermelhos eu iria pagar caro, que era vacilação minha, atentado ao pudor!..
_ Atentado ao pudor?!…

Mas não pude deixar de concordar com os PMs, os olhos de Niltinho estavam assustadores: duas bolas alucinadas de erva pura. Niltinho, longe de perceber meu olhar estupefato, vira os peixes que já começavam a exalar agradável aroma.

 Pega mais duas latas de cerveja e volta com o peito estufado, sempre fazia assim quando se preparava para o clímax da estória. Dá um sorriso maroto pra mim e joga na minha boca um naco pelando de peixe, que eu engasgo, mas disfarço, resolvendo com uma golada de Skol.
Ele diz, me fitando com aqueles olhos “chave de cadeia”:

_ O PM disse pra mim: “Esse olho com a cor do inferno não tem explicação, tu vai dançar, meu irmão!”

Engraçado que Niltinho tinha o dom de imitar as pessoas, eu quase vi o PM na minha frente falando. Outro naco invade minha boca desatenta. Ele continua:

_ Mas aí, eu disse que cada olho estava com um problema diferente, coisa rara, que até o médico não se aproximou muito de mim na consulta mais cedo! – cara de sem vergonha.

Engasguei de verdade e tive que tomar uns tapas nas costas para desentalar.

_ Que doença tu disse que tinha, cara?!

Niltinho, cínico e cruel:

_ Disse que num olho eu tinha “estalactite” hahahaha!…

Eu tinha que perguntar:
_ E no outro olho, meu Deus!

Niltinho bêbado:
_ No outro era mais grave ainda: é “estalagmite”, chefe, muito mais contagioso!…

Eu, boquiaberta, não querendo perguntar mas era inevitável:
_ E aí, tomou umas porradas, bicho?

Niltinho, tomando minha latinha das mãos:

_ Nada, Daisysinha, eles se afastaram, um mais metido disse com a voz grossa para parecer inteligente: “Vai, rapaz, minha sogra já teve isso, vai, pode ir…” hahahaha!…

Bem, comi meu peixe e fiquei pensando que algumas famas são pra sempre, ou seja, por essas e outras, PM tem fama de burro e carioca de malandro.
Quero mais cerveja!

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