“Tenho orgulho por despertar qualquer tipo de sentimento, inclusive o ódio, em qualquer pessoa.”

Essa frase jamais esquecerei e creio que entrará para a estória triste do meu coração.
Na verdade nem sei se foi dita diretamente para me atingir, para me flechar num momento em que me escondia atrás de árvores, amedrontada, vivendo o momento do medo, o medo puro, a lesão espiritual que nos deixa vulneráveis, incapazes de sonhar, ou correr. Eu poderia ter corrido, arrebentado as árvores, me arranhado, caído e esfolado meus joelhos… e mesmo sangrando eu haveria de escutar essa frase por toda minha vida. Minha miserável vida! Miserável dito! Palavras vãs, sintomas leigos.

Camuflada em meus sentimentos, olhava o inimigo com meus olhos tristes e desistentes. Algum raio de sol me dava uma força, mas a frase gritava em meu ouvido e eu fiquei abaixada e covarde atrás do arbusto dos medrosos, dos que amam de verdade, dos inúteis serafins da vida eterna.
Enquanto meu corpo tremia, alguns insetos sorriam de mim: formigas caminhavam em sua trilha, me envergonhando, pássaros voavam e sobrevoavam minha angustiante espera. Rapinas se aproximavam.

Esperava o que? Um olhar de misericórdia, um perdão que eu nem havia errado, um chamado que eu sabia que não necessitaria?…
Me senti pusilânime, de porcelana, arcaica e triste mato no meio das árvores. Uma boneca de madeira em meio à lenha que queimaria minha pobre alma envaidecida presa ao meu corpo covarde que não conseguia sair, nem libertar-se daquela floresta que gritava aquela frase em meus ouvidos puros e desprotegidos.
Pensei comigo que estaria perdida, fracassada, uma mulher desesperada, com útero, veias e pernas ardendo… o fim de quem foi covarde, o desalento de quem não gritou e em siLêncio, obrigou-se ouvir aquela substanciosa frase, aquela frase que me mataria de vez, no meio de macacos e anacondas perversas. Eu era sozinha de verdade.

Mas meus ouvidos atentos chamaram por Deus. É. Às vezes é melhor chamar por Ele, melhor que mandá-lO aos infernos desfazer o que fez. Chamei!, e o céu sorriu de minha estupidez, meu ateísmo já era conhecido nas igrejas e nas favelas e nos guetos e nas rodas de macumba. Eu somente ouvia em mim, estraçalhando minha carne, aquela frase… aquela inacreditável frase de adeus.
Era pra eu aceitar aquele adeus, aquela franca e desprezível atitude de dizer ‘chega’. Fui mais além e no meio da mata, me escondi de medo e amor…
E por amor deixei minha moringa derramar, fiquei eu com sede, sem amar e sem cuspir na cara de quem me matou.

Foi aí, à essa altura, que percebi que havia morrido. Eu morrera de medo, de covardia, terror me sacudindo os trapos do espírito, as vísceras da alma embriagada diante do diabo.
Por amor, fragmentei os restos de minha energia e nem duendes, que nunca existiram, vieram me fazer companhia naquela noite. Na verdade, nem consigo descrever aquela noite, a floresta e as flechas a me perseguirem, algumas me achavam e rasgavam minha carne. A frase. Ela está nos meus destroços, meus escombros, gritando em meus ouvidos surdos. Olho meus pedaços espalhados na terra, mas não poderei juntá-los.
Eu morri.

Morri de amor.

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