Gaúchos e Cariocas – Luis Fernando Veríssimo

Essa crônica maravilhosa é uma crítica ao mau hábito do brasileiro em se apartar por naturalidade. Uma brincadeira saudável de Veríssimo que ama o Brasil como um todo. Sou carioca e tenho alguns amigos gaúchos, inclusive o André Gazola que eu amo. Tenho amigos paulistas, mineiros, goianos… o brasileiro é um povo maravilhoso! Eu amo todo mundo ;)

POR VERÍSSIMO – GAÚCHOS E CARIOCAS

É preciso dizer que estávamos naquela brumosa terra de ninguém, que fica depois do décimo ou décimo-quinto chope. Tão brumosa que não dá mais para distinguir entre o décimo e o décimo quinto. Tínhamos sido apresentados no começo da noite mas já éramos amigos de infância. Em poucas horas nossa amizade passara por vários estágios, desde o “leste Memórias de Adriano?” até as piores confidências, e agora nos comportávamos como confrades, como se nossa amozade fosse mais antiga que nós mesmos. Isto é, estávamos brigando.

_ Vocês gaúchos…
_ O que é que tem gaúcho?
_ Pra mim gaúcho é tudo veado.
_ Não radicaliza.
_ Se tem que dizer que é macho, é porque não é.
_ Lá no sul se diz que numa briga de gaúcho, paulista, mineiro e carioca, o gaúcho bate, o paulista apanha e o mineiro tenta apartar.
_ E o carioca?
_ Fugiu.
_ Viu só? Pensam que são mais machos que os outros. Diz que as bichas de Paris protestaram porque as bichas cariocas estavam invandindo o seu mercado: “Voltem para o Rio. Go Home!” Aí as bichas cariocas reagiram: “Ah, é? Então tirem as gaúchas de lá.”
_ Está aí, fugiram. Mas tudo isso é mágoa porque são os gaúchos que mandam neste país. Vocês estão assim desde que nós amarramos os cavalos alí no obelisco.
_ Aliás, essa fixação no obelisco…
_ Gaúcho é o único brasileiro sério.
_ Sem graça não é sério.
_ Só o gaúcho fala português. Essa língua de vocês não existe. Paulista põe ‘i’ onde não tem. Vocês falam chiando. Onde tem um ‘r’ botam dois e onde tem dois botam quatro.
_ Vocês falam espanhol errado e pensam que é português!
_ Mas o que a gente diz é pra valer. Não é como carioca que diz uma coisa e quer dizer outra.
_ Ah, é?
_ É. Quando carioca encontra alguém, diz: “Meu querido”, quer dizer que não se lembra do nome. “Precisamos nos ver” quer dizer “está combinado, eu não procuro você e você não me procura”.
_ O que vocês não aguentam é que nós, cariocas, somos informais, bem-humorados…
_ Isso é mito. Entra num “Grajaú-Leblon” lotado na Nossa Senhora de Copacabana, às três da tarde, no verão, que eu quero ver o bom humor.
_ Não radicaliza.
_ Os mitos cariocas. O Zico, por exemplo…
_ Eu sabia. Eu sabia que ia chegar no Zico!
_ O Zico é uma entidade abstrata criada pelo inconsciente coletivo do Maracanã.
_ O campeão do mundo. Campeão do mundo!
_ Porque não entrou nenhum inglês no calcanhar dele. Se encosta um, o Zico cai.
_ É. O bom é o Batista.
_ Não troco um Batista por dois Zico.
_ Ai meu Deus. Ai meu Deus!
_ Outra coisa: mulher.
_ Claro. Mulher. A mulher carioca não vale nada.
_ Vale. Mas é sempre da mesma cor. Mulher tem que ir mudando de cor com as estações. Quando chega o verão as gaúchas vão tostando aos poucos, como carne num braseiro de chão, até estar no ponto. Só ficam prontas mesmo em fevereiro. A carioca está sempre bem passada. É como comer churrasco em bandeja.
_ É. A medida de todas as coisas, para o gaúcho, é o churrasco. A comida mais sem imaginação que existe.
_ Vai dizer que comida é isto que vocês comem aqui?
_ Mas bá.

Eu estava levando o chope à boca e parei.

_ O que foi que você disse?
_ Eu? Nada.
_ Você disse “mas bá.”
_ Não disse.
_ Disse. Eu ouvi nitidamente um “mas bá”.
_ Está bem. Eu disse.
_ De onde você é?
_ Dom Pedrito.

Estava no Rio há menos de dois anos e chiava como uma locomotiva no cio. Mas não me senti triunfante. Me senti derrotado. Eu estranhara ele não ter dito: “Se você gosta tão pouco do Rio, o que é que está fazendo aqui?” Eu não poderia responder a não ser com a verdade, que era fascinado pelo Rio. Uma característica de gaúcho é que gaúcho é fascinado pelo Rio. E ali estava ele como prova que depois do fascínio vinha a rendição, a vitória carioca. Acabou a discussão. Nos despedimos e saímos, cada um cambaleando para um lado. Na saída ele ainda disse:

_ Precisamos nos ver…

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7 comentários em “Gaúchos e Cariocas – Luis Fernando Veríssimo

  1. Sou carioca mais adoro o sul! principlmente as gauchas!!! barbaridade….hehehehe.

  2. mas bah… conheci um garoto carioca em sp e estamos juntos há dois anos morando em niteroi. Eu me rendi a estes homens belos, sarados e morenos… Mas ele tambem se rendeu à beleza da mulher gaucha, durona e com posição firme. Ele, alias, prepara um bom churrasco, toma chimarrão e já fala até tche! Viva o Brasil!

  3. Rapaz gostei muito, Muito mesmo da sua matéria
    sou do Rio e sempre digo a todo que o unico estado no Brasil que admiro fora o meu,
    é o Rio Grande do Sul, Rio Grande e de Janeiro não tem só o “Rio” em comum,
    más o carisma também, e claro as belas mulheres rsrs
    abraços

  4. que bacana mesmo este conflito perfeito e necessário,onde estiver um gaúcho e um carioca juntos, haverá ibope cultural, sou amante de minha cultura,ou seja tradicionalista de uruguaiana e moro há 20 anos no rio e gostaria muito de mostrar meu trabalhao que estra arquivado faz um bom tempo, e tu sabes que toda e qualquer cultura bem divulgada, realmente é um prato cheio para todo colunista profissinal.

Sua opinião me interessa ;)

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