Como será que se sentem os velhos?

VOVÓ – Maria Theodora de Carvalho – uma índia do Brasil

Vós

Hoje, não sei o porquê desta amarga lembrança. Ou doce lembrança. Ou cruel lembrança… O fato é que lembrei de minha avó: uma índia pataxó que viveu serenamente por noventa e dois anos, sem perder a lucidez ou vontade de viver.

Minha vó criou-me, não que eu não tivesse famíia, mas acho que perceberam que eu precisava estar aos pés daquela índia morena, de pernas firmes, orgulho no coração, com uma boca pequena que sussurrava para mim verdades incríveis.

Ensinamentos que levarei para o resto de minha vida. Para que não fique um post melodramático nem piegas, vou tentar transcrever para vocês, alguns ensinamentos de minha vó Maria Theodora, que, de tanta teimosia, enfrentou seus deuses e decidiu partir ( 22 de maio), inventando um tombo que fraturou seu fêmur. Atrevida, a minha índia hehe.

Ela dizia:

_ “Não brigo com ninguém, jamais levantei o tom de minha voz. Mas não admito que vozes alheias interfiram em minha vida.”

_ “Trabalhei desde criança. Perdi minha índia mãe ainda criança. Até hoje sinto saudades dela, gostaria de vê-la, ao menos em sonho.”

_ “Não use roupas eróticas. Homem vai sempre entender que você não se dá ao valor.”

_ “Perdi minha gente e vim para o Rio de Janeiro. Vim com uma criança no colo (minha mãe), e mesmo fazendo fila em minha porta, eu pude perceber que homens se aproveitavam de mulher sozinha.”

_ “Casei com Olegário Silva, um capixaba que veio para o Rio como soldado aspirante a músico. Meu marido morreu oficial da polícia militar com vários diplomas, inclusive o de primeiro maestro trombonista da Orquestra Militar da Polícia do Estado da Guanabara.”

_ “Mas minha simplicidade me faz companhia. Tenho dinheiro e casas e conforto. Mas não esqueço minha mãe e a vida simples que levei nas praias de Aracajú, onde desde menina jamais voltei, nunca mais vi meus irmãos que eu tanto amei.”

_ “Perdi, ao longo de minha vida, meu marido, dois filhos, meu único irmão no Rio, meu neto e mesmo assim, quando trovoadas aparecem, me encolho em respeito à natureza. Sempre acreditei em Deus. Sempre amei Nosso Senhor Jesus Cristo, e jamais deixei de acreditar nos espíritos das matas, nos caboclos de lutas.”

_ “Mas quando me casei, não sabia escrever e nem ler. Meu marido, pacientemente me ensinou. Aprendi com boa vontade, porque precisávamos nos comunicar, além de nos amar.”

_ “Quando eu morrer, falem de mim se quiserem. Mas nunca falem que não tive orgulho de minha gente. Falem que fui humilde e jamais valorizei o dinheiro e que sempre o distribui pela minha família e amigos necessitados. Que nunca tive preconceitos. Que meu marido era uma linda mistura que reluzia pele de ébano e que por isso em minha família há brancos, morenos, índios e negros (não é uma ordem necessariamnete): somos a história do Brasil.”

_ “Que presenciei jovens de minha família fumando maconha, tomando coisas que intitulei ‘loló’ para definir a droga como um troço ruim pra se tomar.”

_”Daisy, eu te criei e te amo. És a neta preferida de minha vida. Espero que continue minha história, que não desista de ser uma mulher de fibra, caráter. Espero que nunca use roupas indecentes para encontrar seu grande amor.”

Eu precisava falar de minha índia. Um amor tão grande que pode explicar por que amo tanto vocês… ;)

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Sobre Day

As pessoas que consideram que a coisa mais importante da vida é o conhecimento lembram-me a borboleta que voa para a chama da vela, e, ao fazê-lo, queima-se e extingue a luz. (Tolstoi)
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