Novos escritores – Adriana Costalunga

Adriana Costalunga (1968), é de Campinas (SP). Graduada em Comunicação Social, com Pós-Graduação em Administração, cursa a Faculdade de Direito. É redatora e revisora de textos de publicidade. Colaborou com crônicas para os jornais Diário do Povo, de Campinas, e Diário de Sorocaba. Atualmente estagia em um escritório de advocacia. Em 2006, lançou o livro “A arte de conquistar clientes”, sobre empreendedorismo, pela R G Editores.

O açougueiro

Era dia de faxina na casa de Zulmira quando o toque insistente do telefone a fez descer do alto da escada onde limpava uma prateleira.

— Desculpe-me a ousadia… — foi o que logo ouviu de uma voz galante.

— Há tempos venho ensaiando para te ligar…

O coração começa a bater descompassado. Quem diria? Alguém a notara por aí! E pensar que o marido nem chegou a perceber que pintara o cabelo de vermelho…

— Eu quero marcar um encontro com você…

Ao ouvir a proposta, Zulmira enrubesceu. O coração parecia querer pular fora de seu peito. E agora? O que dizer?

— E então? — insistiu a voz.

— Eu… eu… não posso… — gaguejou.

Quem seria este homem? Aquele vizinho novo que vivia às voltas com um poodle? Não! Ele parecia ter um jeito meio afetado. Deus meu!, seria o Odorico? O açougueiro? Bem que percebera que ultimamente ele sempre lhe escolhia a melhor peça…

— Eu sei que você é uma mulher casada… eu entendo… mas é apenas um encontro…

— Não, eu não posso! — repetiu com firmeza.

Afinal de contas tinha lá os seus princípios, e ainda por cima dois filhos adolescentes. E se fosse mesmo o Odorico? Ah! O Odorico sim valia a pena. Um homem que mexia com a carne daquele jeito, o que é que não faria com uma mulher?

— Ninguém ficará sabendo… eu prometo! — continuou ele, persuasivo. – E tenho certeza que será uma noite inesquecível… Começaremos com um jantar à beira-mar… Depois iremos navegar durante a madrugada… Zulmira deixava-se levar pela imaginação quando foi surpreendida por uma pergunta:

— Você gosta de ostras?

— Ostras? — repetiu, sem saber o que responder. Nunca comera ostras em toda sua vida, mas lera numa revista da cabeleireira que ostras eram afrodisíacas.

— Se você não gosta eu…

— Não! Imagine… gosto sim! — exclamou.

— Eu posso esperá-la amanhã à noite? — perguntou–lhe o homem. — Estou bastante ansioso para encontrá-la.

E agora? Deixaria a vida passar sem lutar por algumas boas lembranças? Este pensamento fora suficiente para convencê-la.

 — Sim! — respondeu decidida.

— Onde podemos nos encontrar?

— Faz o seguinte Telma: às 8:30 você me liga…

— Ei! Peraí! Meu nome não é Telma!

— Não?!! — exclamou o homem, aturdido.

— Não! — confirmou Zulmira, com a voz zangada.

— Mil perdões! — disse ele e desligou envergonhado num baque rápido. E sem mais nada por esperar daquela tarde, Zulmira continuou a espanar a prateleira, pensando, de quando em quando, num longo suspiro, que a vida é assim mesmo.

Anúncios

Sobre Day

As pessoas que consideram que a coisa mais importante da vida é o conhecimento lembram-me a borboleta que voa para a chama da vela, e, ao fazê-lo, queima-se e extingue a luz. (Tolstoi)
Esse post foi publicado em Contos. Bookmark o link permanente.

Sua opinião me interessa ;)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s