Mais uma do Niltinho – Meu salvador!

Eu estava em casa. Niltinho chegou com os olhos esbugalhados. Morar em Saquarema foi de fato uma experiência antropológica. Seria mesmo trágico se não fossem o marzão e os caixotes que eu tomei.

 Não sou surfista profissa mas umas marolas eu encaro sim. Mas nem sempre a gente está sozinha no mar. E o mar de Saquerema é mar aberto, está quase sempre bravo. Mesmo em maré baixa ele é selvagem.

Neste dia estávamos na praia eu, uma amiga nossa e Niltinho. A praia era em frente à minha casa. Chique, né? Bons tempos.

Estava aproveitando para pegar umas ondinhas com body board. Tranquilo. Até Niltinho falar:

_ Daisynha, vai mais pra lá (fundo) que você consegue pegar uma boa!

_ Mas a maré tá virando, cara!

_ Tá não, ainda demora. Dá procê pegar mais umas. Qualquer coisa eu to aqui.

Fiquei um pouco em dúvida porque nem pé de pato eu estava usando. Se o mar sobe eu me lasco. Como disse, eu só brinco, não sou surfista, nunca fui, mas carioca sempre brinca no mar, é nosso quintal.

E lá fui eu dando braçadas pra dentro do marzão de Saquarema, me sentindo a malandra.

_ Niltinho! – eu gritei – qualquer coisa me salva he-he-he!!

_ Vai, maluca! Você é boa, tem disposição!

Minha amiga, não sei o porquê, cismou de cair também. Mas essa não sabia mesmo nada de mar. Pegou sua prancha e foi comigo lá pra dentro. Estava tudo tranqüilo.

Mas quando olhei para Niltinho, me apavorei: ele estava deitado na areia, viajando como sempre e ainda tinha um discman nos ouvidos.

Peguei uma ondinha gostosa e pensei que Niltinho estava certo. A maré não subiria tão rápido.

Ficamos, eu e a amiga de bobeira conversando lá dentro. Ela não parava de falar: ‘meu namorado blá-blá-blá…’

Eu, como sempre distraída, fiquei ouvindo as estórias (mentirosas em sua maioria) de minha amiga.

De repente eu olhei pra trás e vi uma onda que se eu chamasse de gigantesca estaria sendo condescendente. Era uma puta onda mesmo!

Tudo bem, eu pensei, deixo ela passar e na próxima volto pra areia.

Niltinho dormia nessa mesma areia, totalmente entregue em sua eterna viagem alucinada. Niltinho sempre foi um cara totalmente canabístico, sério. Uma coisa.

Minha amiga estava ficando pálida já. Eu disse calma (eu mais ou menos calma).

_ Olha só, gata. Respira fundo e na próxima é só bater os braços e as pernas e saímos daqui.

_ Tá bom, Daisy. Tranquilo. To calma.

_ Sei! he-he-he!

Então veio a onda. Tudo aconteceu muito rápido.

A garota soltou sua prancha e se agarrou a mim. Eu pensei que chegara meu dia. E Niltinho dormindo os sonhos dos justos e do Bob Marley lá na areia. Pensei que se morresse ele seria minha última visão. Ninguém merece, olhar Niltinho enquanto morre afogada por causa dele mesmo.

 

A vantagem de ser maluca é que a relação com a morte é outra, quer dizer, eu não teria noção da dimensão de morrer afogada nos mares de Saquarema he-he-he.

Negócio seguinte. A onda estorou em cima de nós! Pranchas voando e  eu me afogando porque a guria se agarrava em meus ombros, me afundando. Aconteceu umas três vezes: eu emergia para tomar fôlego e ela de novo me afogava para ficar com a cabeça fora d’água.

Todas as vezes que eu conseguia olhar a vida, eu via Niltinho – meu salvador – dormindo na areia, provavelmente sonhando com o Hawai.

No terceiro ‘mergulho’ eu já aceitava a idéia de que iria partir desta pra melhor. Mas só queria fôlego, um pouquinho que fosse, apenas para xingar Niltinho, meu assassino! Depois eu morreria feliz.

Mas como dizem, tem uns santos aí que cuidam de pescadores e surfistas. Mesmo não crendo tanto assim eu acho que alguém nos salvou. O mar ficou calminho e consegui nadar até a areia. A menina também. A menina? O demônio que me mostrou como os peixes se sentem fora de seu habitat. Me senti com aquela boquinha deles abrindo e fechando até virar pirão.

Enfim (ufa!) chegamos à areia. Me joguei quase desmaiada ao lado de Niltinho. Tentava recuperar forças para esganá-lo ainda dorminndo pra ele nem saber por que morria.

Mas de repente ele acorda com aqueles olhos vermelhos e sorri pra mim:

_ Qual é Daisynha! Tá com maior cara de campeã! Encarou quantas?

_ Quantas tentativas de assassinato?

_ O que foi, o que rolou lá dentro? Se deu mal?

_ Não, imagina, sua amiguinha só me afogou várias vezes!

_ Putz! Bem que meu sono estava meio conturbado!

_ Ah! Legal! E se eu morro, hein!

_ Qual é, você é forte, mulherão de fibra! he-he!

Meus olhos desviaram de Niltinho e olhei para o marzão, pensando se não teria uma forma de eu matá-lo sem levantar suspeitas. Mas me levantei e fui pra casa, agradecendo aos deuses e jurando que nunca mais eu falaria com Niltinho.

Para quem (ainda) não conhece esta figura, ei-lo.

http://dai.lendo.org/quem-nao-tem-colirio-apela-pro-dialogo/

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