A invenção do amor romântico é uma invenção nova

 NO PRINCÍPIO ERA A POESIA… NO CÉREBRO DO HOMEM SÓ HAVIA IMAGENS… (Quintana)

Quem estuda dramaturgia sabe que o amor romântico passou a existir de pouco tempo para cá. Há alguns séculos as pessoas casavam-se por interesses os mais variados e o econômico era o mais visado.

No século XIX alguns escritores começaram a flertar com o açucarado amor à dois, com suspiros e lânguidas passagens e passionalismos dignos de heroínas e heróis.

A partir desses escritores surgiu o atualmente imprescindível MELODRAMA.

No Melodrama costumamos dizer, parafraseando Manoel Carlos, que escrever novelas e filmes românticos e contar  a estória nada mais é que um casal querendo trepar e umas quarenta pessoas para atrapalhar.

Sei que parece frio mas a vida é mesmo uma ilusão, nós não estamos preparados para o verdadeiro amor, por isso o inventamos e o levamos para a arte.

No Melodrama não há traições, o amor é fiel e a mocinha se entrega aos prantos ao seu ‘verdadeiro amor’.

Ela sofre todo o tempo, abdica de sua própria vida, de bens materiais, dos amigos e interesses pessoais. Tudo para conquistar seu grande e eterno amor. Que não existe. Por isso chamamos de ficção tudo que rola na TV e no Cinema.

Os roteiristas tendem a serem frios por conta de certas análises. Nós matamos, se quisermos, o herói. Nós fazemos a mocinha pular a cerca. Nós somos deuses do mundo por nós criado.

À nós pertencem a vida e a morte. Nosso vilão pode ser canalha e romântico ao mesmo tempo. Não seguimos necessariamente nenhuma regra pre-estabelecida, por isso o Brasil mudará dentro em breve sua visão de Teledramaturgia, o que alguns autores já estão fazendo, veja o exemplo da personagem vilã Bia Falcão que termina seus dias na Europa gastando seu dinheiro depois de sacanear todo mundo na novela.

Eu vou fazer cinema, veículo no qual poderei mostrar todas as facetas do amor humano, inclusive quando ele vira ódio e o herói, em sua jornada inóspita passa por perrengues que ninguém gostaria de experimentar. Sai em busca do elixir, seu objetivo último.

O roteirista está atento à imagem, e ela tem que ser transmitida de forma vertiginosa, contamos uma estória com gags e sangue, não nos importam valores da teledramaturgia.

O audiovisual retém o espírito humano preso ao visual das imagens. Contamos a estorinha, hipnotizando o espectador. Somos donos deste mundo criado por nós.

Então, cara pálida, quando estiver assistindo a um filme, seja um documentário, comédia, melodrama, tragédia ou mesmo um curta sem fala alguma a la Chaplin, pense sempre que um roteirista ficou por horas e horas a fio para transformar suas idéias em entretenimento para você.

Somos sim, um tanto incalorados, somos ficção ambulante, mas roteirista também tem coração e tratamos bem dele porque é aí que se concentram nossas emoções. As mesmas que levam alegria e lágrimas à vocês. Contraditório e quase incompreensível.

Particularmente caímos em tentações melodramáticas, mas como já é de costume, nós pretendemos escrever nosso próprio roteiro de nossa vida, assim, melodrama de roteirista se resume a amarmos se formos correspondidos. Nada pessoal, ossos dos ofícios. Somos nossos próprios personagens. Deuses de nossas vidas.

Dificilmente um roteirista se encanta por alguém sem que tenha olhos críticos, atentos a uma impossível para nós, desilusão. Nossa neutralidade é que nos permite transitar por TODAS as emoções já nascidas na alma do homem.

Syd Field já teve de ler 2.000 roteiros para escolher 40. Mas os 1.960 estavam lá, arquivados em suas imagens. Talvez não fossem comerciais. Ou tão bons. Mas eram roteiros.

Aprendemos e nos acostumamos a nos dar o privilégio do ‘final feliz’ porque, afinal, um roteirista infeliz provavelmente não escreverá bons roteiros, inda mais para falar de amor. Sairá no máximo, um filmezinho cult metido a besta com falas exóticas e chifres para todo o lado.

Mas, assim como os brutos, os roteiristas também amam. Mas escolhem com bastante critério seus eventuais parceiros.

O roteirista é o herói, portanto não há como não cumprir sua jornada, determinado a voltar para seu mundo comum, mais experiente e divino, depois de qualquer aventura à ele imposta.

Melodramático demais? Talvez. É que roteirista também flerta com a felicidade.   ;)

The End.

Anúncios

Sua opinião me interessa ;)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s