Os Santos (cont.)

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Primeira parte – A chegada

Queira perdoar-me, nativo, mas é que de onde procedo, costuma-se ter calma e cortesia nas conversações para que não reste dúvida alguma no resultado final das trocas.

Por isso vos falarei de minha queda, ou melhor dizendo, minha aterrissagem dolorosa em vosso domínio.

Quando caí, pousei meus descalços pés em lugar de bela vegetação. Absolutamente perfeita a sensação da grama sob meus pés e o frescor da vegetação invadindo-me pulmões e o espírito de alegria. Uma tal felicidade que suponho e sei que nenhum de vós já sentira. Não verdadeiramente. Mas não vos culpo, entendo que não fostes devidamente preparados para este lugar. Sabemos de tudo, porém não podeis isentar-se de culpa. Isso não.

Tudo ao redor me exalava esplendor e tremores percorreram todo meu corpo, parte a parte, das plantas de meus pés ao recôncavo mais profundo de meu cérebro. O que chamamos lá de energia pura transmissora, quando por aqui o sinônimo menos infiel seria vosso amor à natureza.

Minhas narinas dilataram-se e meus sentidos – todos os cinco – abraçaram-me com nosso costumeiro amor.

Em mim nada pode soar falso porque, como o afirmei anteriormente em nosso primeiro contato, não existe mentira em meu mundo. Inclusive devo admitir que muito ando curioso, porque como desconheço o que seja mentira, suponho-me alienado de prática das mais usadas em vosso planeta, já que me parece um artifício comum a absolutamente todos os bilhões de nativos daqui. Mas, naquele momento não dispunha de paciência para resolver tão simplória equação.

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Então saí da mata hospitaleira e vislumbrei vossos concretos armados em cima da terra. Os prédios, os postes, toda uma estrutura que, tenho conhecimento,  levou toda uma era para trocarem o verde pelo cinza.

Como disse, a mentira foi minha primeira experiência por aqui.

Dos quatro santos, talvez eu seja o mais contemplativo. Profundos olhos negros como as trevas mas brilhantes como os sóis de meu planeta. Sou dentre os meus alcunhado de Visão do Tudo.

Prazer em conhecê-lo, nativo.

Quando equacionei o misterioso sentimento vosso, sentimento excitante, sem dúvida, uma vez que a cada mentira proferida, tendes a breve sensação de algum controle sobre os outros. Senti-me em choque hipnótico ao contato com a vossa mentira. Assim, ao olhar o rincão deste sentimento, um fogo de desânimo, o fogo materializado e encandescente feriu meus olhos e decidi cegar-me enquanto durar minha estadia nesta terra. Desta forma meu cérebro permitir-me-á  escolher o que ver e o que enxergar.

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Moro em um pequeno apartamento em caquético prédio numa rua fétida e sem muita luz.

Não me acostumo e sempre perambulo tateando as paredes do prédio. Não o quero ver. Concreto decrépito em cima do mato. Já seria motivo suficiente para desistir porém não desistimos ante uma missão.  Geralmente vamos até o fim.

Toda vez que entrava e saía do prédio eu sentia um agradável perfume no ar. Minha desgraça começa assim porque não somos treinados a apartar o amor de nós, assim, quando dei por mim estava amando uma mulher, provavelmente moradora do inóspito local.  E embora em nenhum relatório nosso conste ligações de nós com outros, era fato notório e incontestável que eu a amava.

Não conhecia uma fruta adocicada com a qual fazeis a bebida vinho, algo que muito agradou meu paladar essencial (tenho dois).  E, por ter apreciado a uva, experimentei a sensação da euforia alcoólica que me remete ao vosso sexo e amor.

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Aconteceu quando estava subindo as escadas, voltando de minha costumeira reflexão, onde ficava na praça assistindo ao por do sol. Isso eu fazia todos os dias. Infalivelmente todos os dias. Depois o telúrico descobrirá o porquê.

Ela segura meu braço e me acompanha até meu apartamento. Entra em silêncio.

Não teria como descrever para vós tamanha beleza. Uma maravilha de espécime do sexo feminino. Cabelos de fogo caindo em caracóis até a cintura. Olhos que oscilavam entre o verde e o marrom. Alta, elegante, com boca de fazer qualquer um de vós seduzido. Qualquer um de vós!…

Antes que pretendeis subestimar-me, nativo, devo alertá-lo de que não tereis, em nenhum momento, domínio sobre o que vos falo. Não possuireis qualquer tipo de presunção a meu respeito. Até mesmo este amor que sinto por esta mulher, jamais nenhum de vós sereis capaz de experimentar. Depois, caso não fique enfadado de vós, é possível que continue relatando minha experiência por aqui.

Este não é um relatório oficial mas uma amorosa forma de vos contar o que de fato aconteceu em vosso planeta.  Considero justo. Em meu lugar a justiça é quem rege nossas vidas.

Assim, como um sobrevivente, vislumbrareis tudo o que aqui ocorreu desde nossa chegada. Passeis portanto, este livro adiante para seus eventuais e defeituosos descendentes por vir.

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