O telefone…

1525r-79983.jpg Edson, apaga a luz!

Foi assim que de repente o telefone tocou Sufocando a voz em

Susurro,

A pele arrepia as veias alteram-se e o Pássaro acorda e canta

Pra mim…

Os passos silenciam o corredor da paixão e Deus existe

Pela primeira vez neste ano de sol ardente…

Ausculto o tal  meloso coração

O idiota que esperava Godot,

Ri um riso bobo de quem gozou!…

Os passos calam-se de novo o corredor

E neste momento minha vida se resume em morrer

De amor alí, na cama dos afortunados, das almas infantis

Que ainda brincam de amar econdido hehe!

E ninguém imagina como o som é silêncio

E como o encanto do mistério do corpo

Responde de pronto seu pedido de, ai!…

Não sei por que nasci assim, nem sei se como, se

 Eu como ou sou comida!

A fome é devastadora, dai-me o trigo!

E minha mãe sempre me disse… não que fosse pecado

Mas que fosse ao menos em recato, mas eu saí do recanto das

Mentiras e das bolinações envergonhadas meninas.

Hoje descanso o telefone e amanhã o Mar (ataízes)

Trará  minhas tão merecidas férias de amores

execrados em subsolos de ficção.

(Vou nadar no mar do pecado)

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Brutos e cravos

jl_dk_062505_09.jpgCom que delicadeza ele me pega

Desprevenida,

Encostada no cansaço de escrever,

Abomina meu trabalho e diz com doce voz

Larga tudo que te quero amar!

Com que paciência sabendo-o ignorante

do meu ofício o recebo com ternura…

Largo tudo pela metade e o deixo me beijar

Até que a noite vira dia e meu trabalho inacabado

Espera porque sabe que voltarei a ele

Mais leve, mais cantada e rubricada,

Destemida e ainda úmida de candura e fogo…

A folha do papel, a tela a me olhar eu volto

Mas já não posso imaginar quais versos

Ou que diálogos pintarei na tela em branco

Porque é vermelho meu corpo e minha boca sorri

No meio da madrugada, escondida e travessa.

E ao invés de escritos e anotações eu durmo

Por cima das folhas e canetas  escondendo

No final da pilha o número do telefone

do céu…

Quem me influencia – Série

wilde.jpgOSCAR WILDE

Oscar Fingel O’Flahertie Wills, escritor inglês de origem irlandesa. Adepto do do hedonismo, produziu obras-primas na fase madura. Autor de aforismos que o celebrizaram.

Quer em seus hábitos, quer em seus textos, Wilde assumiu de início a atitude de um dândi, ligado, com um comportamento extravagante, ao esteticismo da arte pela arte. Seu talento superou no entanto essa fase superficial, para florescer com pujança em obras-primas maduras, depois de sua carreira ser cortada pelo escandaloso processo por homossexualismo que o levou à prisão.

Soneto à Liberdade

Não que eu ame teus filhos cujo olhar obtuso
Somente vê a própria e repugnante dor,
Cuja mente não sabe, ou quer saber, de nada

É que, com seu rugir, tuas Democracias,
Teus reinos de Terror e grandes Anarquias
Refletem meus afãs extremos como o mar,
Dando-me Liberdade! -à cólera uma irmã.

Minha alma circunspeta gosta de teus gritos
Confusos só por causa disso: do contrário,
Reis com sangrento açoite ou seus canhões traiçoeiros
Roubavam às nações seus sagrados direitos,

Deixando-me impassível e ainda, ainda assim,
Esses Cristos que morrem sobre as barricadas,
Deus sabe que os apóio ao menos parcialmente.

Quem me influencia – Série

tagore.jpg TAGORE

Poeta, contista, dramaturgo e crítico de arte hindu; nascido em Calcutá. Nasceu no dia 7 de Maio de 1861. Ele foi o maior poeta moderno da Índia e o gênio mais criativo da renascença indiana.

Além de poesia, Tagore escreveu canções (letras e melodias), contos, novelas, peças de teatro (em prosa e verso), ensaios sobre diversos temas incluindo críticas literárias, textos polêmicos, narrativas de viagens, memórias e histórias infantis:
Seu pensamento abriu novos caminhos para a interpretação do misticismo, procurando atualizar as antigas doutrinas religiosas nacionais.

 Verdades

Roubo do hoje a força
Fazendo nascer o amanhã.
Da janela acompanho com olhar
As nuvens do céu.
De novo a sombra sinistra
Tolda tristemente meus sonhos.

Tua imagem me acompanha
Por todos os lugares por onde ando.
E em todos os momentos
É a tua presença que espanta
As brumas do desconhecido.

Não faço perguntas.
Tenho medo das respostas que já sei.
Liberta do invólucro físico
Devolverei a matéria ao pó de que fora feito.

Vivi meus três caminhos na terra.
Purgatório. Inferno. Céu.
Tudo de acordo com meus projetos,
Minhas atitudes,
Procurando não cair nos mesmos erros.

Agora — vago e espero
Entre tropeços e flagelos
O ressurgir da verdade.

Aforismo

 Desejo

Desejo dizer-lhe as palavras mais profundas, mas não me atrevo, porque temo sua gozação. Por isso acho graça de mim mesmo e transformo em brincadeira meu segredo.
Duvido de minha angústia, para que você não duvide.

Desejo dizer-lhe as palavras mais sinceras, mas não me atrevo, porque temo que não acredite. Por isso as disfarço de mentiras e digo o contrário do que penso.
Me esforço para que minha angústia não pareça absurda para que você não ache que é.

Desejo dizer-lhe as palavras mais valiosas, mas não me atrevo, porque temo não ser correspondido. Por isso me declaro duramente e me orgulho de minha insensibilidade.

Desejo sentar-me silenciosamente a seu lado, mas não me atrevo, porque temo que meus lábios traiam meu coração. Por isso falo disparatadamente, escondendo meu coração atrás das minhas palavras.
Trato a mim mesmo com dureza, para que você não o faça.

Desejo separar-me de você, mas não me atrevo, porque temo que descubra minha covardia. Por isso levanto a cabeça e fico perto de você com ar indiferente.

A constante provocação de nossos olhares remove minha angústia sem piedade.

Quem me influencia – Série

1152413.jpg WILLIAM BLAKE

                                                                 
Poeta, pintor e ilustrador inglês. Bem a frente de seu tempo, William Blake viveu toda a sua vida à beira da pobreza e morreu sem ter o devido reconhecimento. Quando criança, Blake desejava ser um pintor. Ele estudou desenho e aos 14 anos foi aprendiz do ilustrador James Basire. Blake começou a escrever poesias aos 12 anos e desenvolveu o hábito de ilustrá-las.

Blake fez muitas ilustrações para outros artistas que ficaram com os créditos e lucros. Ele morreu pobre e admirado por poucos em 1827 deixando incompleto um ciclo de gravuras que ilustrariam a Divina Comédia de Dante
 

Pesia

O Jardim do Amor

Tendo ingressado no Jardim do Amor,
Deparei-me com algo inusitado:
haviam construído uma Capela
No meio, onde eu brincava no gramado.

E ela estava fechada; “Tu não podes”
Era a legenda sobre a porta escrita.
Voltei-me então para o Jardim do Amor,
Onde crescia tanta flor bonita,

E recoberto o vi de sepulturas
E lousas sepulcrais, em vez de flores;
E em vestes negras e hediondas os padres faziam rondas,
E atavam com nó espinhoso meus desejos e meu gozo.
 

Frases

 Conduz teu carro e teu arado sobre a ossada dos mortos.

O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.

Se o tolo persistisse em sua tolice, sábio se tornaria.

Prisões se constroem com pedras da Lei; Bordéis, com tijolos da Religião.

Dize sempre o que pensas e o vil te evitará.

O fraco em coragem é forte em astúcia.

Como o ar para o pássaro, ou o mar para o peixe, assim o desprezo para o desprezível.

Melhor matar um bebê em seu berço que acalentar desejos irrealizáveis.

Aquele que deseja e não age engendra a peste.

Aquele cuja face não fulgura jamais será uma estrela.

                   

Quem me influencia – Série

11529571.jpgBAUDELAIRE – Final séc. XIX.

Poeta francês – famoso por suas Flores do mal. Influenciou a poesia simbolista. Revolucionou mundialmente esta arte e com sua atitude foi a base da poesia maldita na França. E no mundo.

UM FANTASMA

I – AS TREVAS

Nos porões de tristeza impenetrável
Onde o Destino um dia me esqueceu;
Onde jamais um róseo raio ardeu,
Só com a noite, hospedeira intratável,

Sou qual pintor que um Deus, por diversão,
Na treva faz mover os seus pincéis,
Ou cozinheiro de apetites cruéis
Que assa e devora o próprio coração.

Súbito brilha e faz-se ali presente
Fantasma esplêndido e de graça extrema
Em oriental postura evanescente.

Ao atingir a perfeição suprema,
Nela percebo a bela visitante:
Ei-la! Negra e contudo fulgurante.

II – O PERFUME

Leitor, tens já por vezes respirado
Com embriaguez e lenta gostosura
O grão de incenso que enche uma clausura,
Ou de um saquinho de almíscar entranhado?

Sutil e estranho encanto transfigura
Em nosso agora a imagem do passado.
Assim o amante sobre o corpo amado
À flor mais rara colhe o que perdura.

Da cabeleira espessa como crina,
Turíbulo de alcova, ébria almofada,
Vinha uma essência rútila e indomada,

E das vestes, veludo ou musselina,
Que sua tenra idade penetrava,
Um perfume de pêlos evolava.

III – A MOLDURA

Como à tela se ajusta uma moldura
– Não importa do artista a sutileza – ,
Isolando-o da imensa natureza,
Um não-sei-quê de mágica textura,

Assim jóias, metais e douradura
Ajustavam-se à sua irreal beleza;
Nada ofuscava-lhe a integral clareza,
E tudo lhe era como cercadura.

Dir-se-ia muita vez que ela supunha
Tudo existir para adorá-la e expunha
Sua nudez com gozo e encantamento

Às carícias do linho e do cetim,
E, suave ou brusca, a cada movimento
Mostrava a graça ingênua do sagüim.

IV – O RETRATO

A Doença e a Morte tornam cinza todo
Aquele fogo que por nós ardeu.
Dos olhos a me olhar daquele modo,
Da boca onde meu ser se dissolveu,

Dos beijos sempre fiéis a uma ordem dada,
Dos êxtases mais vivos que fulgores,
Que resta? É horrível, ó minha alma! Nada
Mais que um pálido esboço de três cores

Que se extingue, como eu, na solitude,
E que o Tempo, sem pressa e em toda a parte,
Vai roçando com asa amarga e rude…

Negro assassino da Vida e da Arte,
Jamais hás de matar-me na memória
A que foi meu prazer e minha glória!

(Continua)