Medo!

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Ele não sabe se mente ou se desfalece diante da faca, do azedo da boca, do medo da esquina em transe, da sirene da polícia, ou da mulher parindo em sua frente, no meio fio, debaixo do poste.

Só entende a língua da navalha e quase morre em cima dos jornais antes de ler sua própria notícia. Um assalto à mão armada. Ele entrega o Rolex. Ela está no carro tremendo, apavorada! Nunca ouvira o estampido de uma arma.

Ele se arrasta até o carro e joga-se no banco de trás. Esconde a arma e beija a mulher que o espera. Acertou um, com certeza.

_ Dirige!

_ Está sangrando, amor!

_ Dirige, porra!

O carro arranca e ele agoniza em dor. O sangue não estanca, a voz é rouca.

A mulher tenta estancar o sangue com a mão enquanto dirige. Faz frio e seus cabelos voam pela janela e seus lábios ressequidos tremem de medo.

Ela olha pra trás. Ele está se contorcendo. Balbucia com gosto de sangue na boca:

_ Mais… rápido!…

_ Dói muito, amor?

_ Dói como ferro quente, como… como doeria perder você, mulher…

_ Não vai! Não vai!…

_ Mas vou morrer, sangro demais!…

_ Calma, querido! Já estamos chegando!

O carro aumenta a velocidade. Quase derrapa. Ele já está semi-consciente. Ela chora enquanto as lágrimas embaçam sua visão. E se batesse no poste? Ou se jogasse o carro no precipício? Morreriam os dois. Ninguém mais sofreria!

Ela soluça:

_ Não morre! Eu lhe amo demais…

Ele, por amor a ela sacode a cabeça espantando o desmaio, sorri com seus dentes brancos e finge que a dor desapareceu.

Ela sorri também:

_ Ah, querido… você vai ficar bem, eu sei!

Ele sabia que a sombra negra estaria por vir mas por ela manteria-se vivo, o quanto pudesse e se pudesse, pra sempre!

Passa a língua pelos lábios ressequidos e canta a canção dos dois. U2.

Ela canta junto e sorri como criança. Uma felicidade enorme invade seu corpo. Fala entre um verso e outro da canção:

_ Quando você ficar bom, iremos para Salvador. Férias, amor!

_ Sim, querida… ai!… Salvador…

Ela pára o carro subtamente.

_ Você não está bem, eu sei! O sangue não estanca!…

Arranca a camiseta de malha e fica com os seios à mostra. Amarra no pescoço dele. Parecia um ferimento de raspão, era só uma faquinha, mas… sangrava demais!

Ele sorri e canta baixinho A Day Without Me. Sua respiração está falhando mas ele quer cantar a música até o fim. Por ela  conseguiria.

Ela, pensando que ele está bem pede que fale a letra da música traduzida. Ele sussurra já dormente e vendo tudo ficando cinza:

“Começei um deslizamento em meu ego…
Olhei do lado de fora
Para o mundo que deixei para trás…”

(seu cérebro parece em convulsão)

Estou sonhando… você está acordado…
Se eu estivesse dormindo
O que estaria em risco?…”

(ela é linda e ele a ama mais que tudo)

“Um dia sem mim…

Quais sejam os sentimentos, eu continuo sentindo…
Quais são os sentimentos que você deixou para trás?…

Um dia sem mim…”

(queria tanto beijá-la)

“Começei um deslizamento em meu ego…
Olhei do lado de fora… (ai!…)
No mundo que deixei para trás…”

(nem foram felizes, só agora estavam de fato juntos. Que dor aguda na ferida…)

“Enxugo seus olhos e o deixo ir…
No mundo que deixei para trás…
Deixo uma lágrima cair e deixo o amor ir…”

Ela liga o carro. Sai em disparada. Ele sorri, ela pensa que  ele aguenta até chegar ao hospital. Que bom, ele está quase perdendo a visão. Não dura mais cinco minutos. E ela com os seios trêmulos dirige rápido. Os seios pulando como as veias no pescoço dele.

Ela fala o último verso da canção:

“Deixo uma lágrima cair e deixo o amor ir…”

E, subtamente, antes que ele perceba, ela dá uma guinada no volante e precipita o carro no despinhadeiro.

“Deixo uma lágrima cair e deixo o amor ir…”
 

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