Estava chovendo e eu de óculos escuros…

gse_multipart20468.jpg 

VAMPIRO  (Jorge Mautner)

Eu uso óculos escuros pras minhas lágrimas esconder

E quando você vem para o meu lado, ai, as lágrimas começam a correr

E eu sinto aquela coisa no meu peito

Eu sinto aquela grande confusão

Eu sei que eu sou um vampiro que nunca vai ter paz no coração

Às vezes eu fico pensando porque é que eu faço as coisas assim

E a noite de verão ela vai passando, com aquele seu cheiro louco de jasmim

E eu fico embriagado de você

Eu fico embriagado de paixão

No meu corpo o sangue não corre, não, corre fogo e lava de vulcão

Eu fiz uma canção cantando todo o amor que eu sinto por você

Você ficava escutando impassível e eu cantando do teu lado a morrer

E ainda teve a cara de pau

De dizer naquele tom tão educado

“oh! pero que letra más hermosa, que habla de un corazón apasionado”

Por isso é que eu sou um vampiro e com meu cavalo negro eu apronto

E vou sugando o sangue dos meninos e das meninas que eu encontro

Por isso é bom não se aproximar

Muito perto dos meus olhos

Senão eu te dou uma mordida que deixa na sua carne aquela ferida

Na minha boca eu sinto a saliva que já secou

De tanto esperar aquele beijo, ai, aquele beijo que nunca chegou

Você é uma loucura em minha vida

Você é uma navalha para os meus olhos

Você é o estandarte da agonia que tem a lua e o sol do meio-dia

Meu peixe tem olhos verdes mas o mar o levou…

73013797.jpg De repente meu mundo ruiu

 De repente meu aquário explodiu

E mil peixes não conseguiram

Atravessar

O mar vermelho

Um toque de guitarra distorceu minha língua

No momento em que eu diria eu te amo

 Eu estava no banheiro olhando minha cara

Que uns dizem ser bonita

Outros riem de inveja

Ou nem olham em meus olhos negros

Mas ninguém deixa de olhar-me

Ainda que através do espelho

Cristalino do Zé Ramalho

O cara da camisa de vênus

E das estrelas que apanhou na beira bar

Um taxi pra estação lunar… 

Mas nada disso me traz de volta a sensação única

Do primeiro contato

Desemediato

De grau nenhum porque fui abandonada

Antes de pisar nas areias do amor.

De qualquer forma

Vesti-me de novo envergonhada

Por ter esquecido de olhar mais à frente

E este foi meu erro porque lá no horizonte

Eu deixei negligente e desavisada

Um peixe dourado de olhos verdes

(esperança não cansa)

Dar-me adeus batendo suas barbatanas

Defendendo o seu Deus

Que teve por mim ojeriza porque fui egoista

E entre Deus e meu amor

Preferi ir para o inferno

E sei que cada chama que me queima hoje

Diz com voz de Torre que não mais me quer

Mas já sei como lidar com a situação

Mesmo lendo Platão

Sei que vou morrer, não sei o dia

Só sei que levarei saudades do meu filósofo

Único sabor de amor

Que provei e cuspi com medo

Porque na hora estive desamparada

Sem entender que tinha em minhas mãos

O mais lindo peixe do oceano…

(Para Peri Tamerlão)