Conto do amor alienado

16611496820891.jpgEla era uma mulher bonita e seus passos suaves encantavam meus olhos toda vez que subia as escadas. Eu abria minha porta porque morava no primeiro andar. Sempre que a ouvia chegar, entreabia a porta para admirar suas pernas subindo as escadas. Seus sapatos de executiva – achava que fosse secretária – e suas saias apertadas, delineando os joelhos me enlouqueciam ao extremo. Impressionava-me que mesmo depois de um dia de trabalho ela ainda espalhava um doce perfume pelo corredor.

Todos os dias, naquele mesmo horário meu coração batia mais forte, meu sangue circulava em minhas veias e eu ficava excitado como um adolescente, um garoto desses com espinhas no rosto e muitos sonhos na cabeça.

Ela era o meu sonho, o meu desejo. Os cabelos estavam sempre amarrados e eu ficava imaginando como seria ela no banho, com aqueles negros cabelos colados nas costas sedosas. Seu corpo de pele morena  molhado e escondido nas espumas do sabão líquido com cheiro de rosas… Seu perfume que me inebriava…

Mas havia algo que muito me entristecia e até, confesso, assustava. Que me tirava o sono e eu ficava por toda a noite lamentando nada poder fazer naquelas noites em que meu amor chorava e soluçava por horas a fio em sua cama.

Sim, eu escutava nitidamente porque ficava com os ouvidos colados em sua porta. Uma agonia me espremendo o peito. Eu alí, diante de  sua porta por toda a noite sem nada poder fazer. Sem coragem de bater e pedir para entrar. Talvez fosse um covarde mas o fato é que toda vez era assim. Eu a esperava adormecer e voltava para meu apartamento.

Pelo menos umas três vezes por semana aquele homem com um pesado sobretudo vinha visitá-la. Ficava por umas horas e quando saía, era certo, a linda morena chorava por horas a fio. Eu apenas escutava seus gemidos em sua doce voz: “Por quê?… Por quê?…

Ela amaria tanto aquele homem a ponto de aceitar suas visitas que tanto a faziam sofrer? Mas que amor seria esse que deixava minha excitante vizinha tão desesperada?

Eu nada tinha contra os idosos, mas aquele homem de sobretudo e cachimbo nas mãos era muito velho mesmo. E talvez por ser casado não pudesse assumir aquela relação.

Se ela soubesse o quanto eu e  meu coração estávamos livres para ela… Como eu a queria em meus braços, em minha cama, no chuveiro comigo. Sei que poderia fazê-la feliz por toda eternidade, sei que meus beijos a curariam de sua dor. Eu era o seu homem mas como a convenceria disto? Invadiria seu apartamento e simplesmente diria que a amava em segredo por tanto tempo? Semanas, meses? Faltava-me coragem.

Um homem, entretanto, não pode ficar nesta dúvida, esta angústia sufocante, neste desespero calado…

Resolvo que falaria com a morena misteriosa naquela noite, assim que seu amante se fosse. Eu estava decidido a amá-la em sua casa. Eu a beijaria tanto que seu ar escaparia de seus pulmões. Tamanha era minha paixão. O meu desejo…

À noite, como sempre, o velho se vai e ela começa a soluçar. E hoje parecia mais angustiada que nunca, mais desesperada, mais solitária. Não! Hoje ela seria minha! Eu não poderia aguentar mais um dia sequer!

Subi as escadas decidido. Dei dois toques na porta. Meu coração era de um homem mas tamanha emoção confesso que mesmo minhas mãos estavam trêmulas. Eu falaria com ela! Eu a beijaria finalmente! E a levaria para sua cama…

A porta se abriu e ela surgiu, linda como sempre imaginei: estava com um  roupão branco e seus longos cabelos negros e molhados caíam pelos ombros como ondas de algum mar desconhecido por mim.

Seus olhos piscaram algumas vezes como se achasse impossível ter alguém em sua porta. Em silêncio ela se afastou para dar-me passagem. Em silêncio eu entrei.

Seu apartamento era decorado de forma meio… bem, pouco convencional. Fotos dela espalhadas por toda parte, coladas em paredes e até no chão havia um poster gigante, mas nesta foto ela estava loira, mas era ela, com certeza.

Notei que seus olhos carregavam um brilho algo intenso demais, mas achei que fosse pela emoção pela minha presença.

Eu digo: “Boa noite, sou seu vizinho…”

Ela nada responde e liga um minúsculo gravador de onde eu escuto, entre surpreso e assustado, uma lamentação. É o som daqueles choros e gemidos que há semanas eu ouvia sair de seu apartamento. Seus olhos ficam mais profundos e adquirem um brilho inconfundível – o da loucura!

Sinto vontade de sair correndo, mas nada entendo. O que significava aquilo, afinal?

Não tenho como fugir, vou perguntar: “Por que escuta esta gravação todas as noites?”

Ela desliga o aparelho e me olha como se eu não existisse. Sem querer eu vejo num porta retratos uma foto com duas mulheres abraçadas. Idênticas. Ao lado a foto do velho do sobretudo e  em baixo escrito: “Papai ama minhas duas princesas gêmeas”. E mais uma foto onde uma família se reunia num funeral. O funeral da irmã de minha louca amada!

Meu coração dá saltos e sinto medo. Então… resolvo ir embora porque sei que ela está louca! Tenho medo de verdade…

Mas meu coração é apaixonado  e grita mais alto que a razão e eu a envolvo num longo abraço. Beijo-a com todo meu desejo, e quando a afasto, já não há brilho de loucura em seu olhar. Ela apenas sorri e me diz:

“Por que demorou tanto para me libertar deste cativeiro? Sempre soube que somente um amor verdadeiro poderia me curar de minha profunda tristeza…”

E creio que nenhum homem jamais tenha beijado uma mulher com tanta paixão como eu naquela noite…

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O médico desliga o gravador e balança a cabeça:

_ Sem dúvida, caso de síndrome de múltiplas personalidades… Todas são vozes de uma mesma pessoa… Enterne-o!

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