O último momento de um corno

Ele sabia que a tinha perdido. Achava engraçado, depois de tanto ter rido com piadas de mulheres que traem os maridos com eletricistas, padeiros, carteiros e leiteiros, que hoje pudesse sentir na própria carne a dor de um verdadeiro corno.

Literalmente cornos. Inacreditavelmente cornos. Era o que tinha na cabeça naquele dia de frio e solidão.

Tudo acontecera numa manhã que era o dia das bruxas. Fazia muito frio e a neve caía impiedosamente, deixando-o ilhado em sua sala com aqueles rifles pendurados nas paredes e algumas cabeças de veados, sua coleção que tanto o deixava envaidecido.

Serve-se uma dose de conhaque e olha para o retrato na parede de sua louca e linda esposa de cabelos longos, da cor do sol se pondo. Os olhos de um azul escuro, quase cruéis, pareciam estar sempre  fitando-o com um brilho fosco de maldade e vingança. Um olhar de satisfação que causava-lhe um arrepio de horror, um medo que jamais sentira, nem mesmo se ficasse diante de um animal gigantesco com mil chifres apontados para ele.

Foram tão felizes nos três primeiros anos mas, não saberia dizer se era doença, porém, o fato era que sua esposa tão servil e dedicada mudara como da água para o vinho.

Lera em algum livro ser uma doença chamada  ninfomania.

Mas o nome ou a praga não importavam agora. A verdade é que sua bela e meiga mulher começara a ficar estranha no dia em que soltou os cabelos tão aristocraticamente presos em coque  elegante e nobre. Ela era descendente de húngaros mas resolvera casar-se com ele, um humilde lenhador das montanhas de Sidney.

Era e sempre fora um homem bom, embora até seus trinta anos vivera a vida a apanhar mulheres desprotegidas e iludí-las com seus encantadores olhos azuis e seus lábios sedutores em sorriso quase diabólico.

Nas tabernas e cantinas, nenhuma lhe escapava de uma investida sempre bem sucedida. Eram louras, negras, morenas, ruivas, indígenas. De qualquer idade ou procedência. Virgens ingênuas ou prostitutas, todas caíam aos seus pés.

Mas, ao completar trinta anos resolveu casar-se com bela e educada mulher estrangeira. Diante de um amor verdadeiro, deixara definitivamente sua vida de Don Juan das montanhas. Elas o perseguiam ainda mas seu coração estava entregue irremediavelmente àquela princesa linda e com fortuna guardada em bancos e cofres.

Deixara de ser lenhador humilde para se transformar em administrador de suas belas fazendas.

Foram três anos de amor, riqueza e muita felicidade.

Até, após exatos sete anos, notar que sua aristocrática esposa mudava aos poucos e seu coração apodrecera quando pela primeira vez vira a linda mulher nos braços de um camponês, em movimentos lascivos na cocheira, excitada como animal, gritando e sussurrando palavras jamais ouvidas por ele.

Daí em diante, cada vez era com um homem diferente. Até o negro caolho, o humilde carvoeiro ela já agarrara numa tarde e, ao chegar em casa estava lá, sua princesa encardida de manchas escuras de carvão mas com aquele já conhecido brilho de satisfação nos olhos azuis.

Mas, tamanho era seu amor pela mulher que resolvera, entre soluços de agonia e dor, perdoá-la para não perdê-la. Assim, passou a ignorar as saídas da beldade que sempre voltava desgrenhada e com aquele insuportável olhar de fêmea satisfeita.

Mas não bastasse tamanha humilhação, sem contar que quando raramente faziam amor, era de forma fria e calculada, o pior ainda estava por vir. Ele alí, humilhado sobre seu corpo nu, enquanto ela olhava uma revista ou um bordado de fronha.

Até que um dia,  finalmente se fora com o jovem adolescente, vizinho e amante mais afoito de sua interminável lista de machos provedores.

Passado um mês, ele notou algo crescendo em sua cabeça. Foi ao médico porque eram duas pontas duras e doía muito aquela coisa.

E, com todo o seu dinheiro, nenhum médico do mundo descobrira de que se tratava aquela anomalia.

Amargurado e sofrendo dores atrozes, se fechou em uma de suas  fazendas e não recebia ninguém além de seus empregados mais chegados.

Sempre que olhava no espelho percebia que aqueles chifres cresciam sem parar, encurvados e pesados.

E numa noite de bruxas e muito frio, neve para todos os lados, ele resolveu dar fim em sua vida com a melhor espingarda de sua coleção. Seria sua própria caça. Seu próprio caçador.

O primeiro tiro não o acertou, mas achou que fosse pelo peso estranho dos cornos. Mas nada o atingia.

Assustado e em desepero jamais visto, ele correu para fora, lágrimas grossas rolando no rosto peludo.

E, quando pensava que descobrira finalmente o que era o inferno, já conformado com sua sina, escuta uma voz feminina que saía de trás de uma árvore:

_ Hei, lenhador!… Veado… venha até aqui!

O homem olha em volta.

_ Venha, tolo de cornos! Estou aqui…

Ele caminha com medo e curiosidade até a árvore. Aos poucos vai aparecendo a figura de uma mulher  com longo vestido rústico e cabelos soltos e escuros. Os seios são fartos e firmes. Parece mesmo uma bruxa, mas muito bonita, com a pele bronzeada e lábios carnudos e sensuais. Vermelhos.

Ele, já não suportando a dor, indaga num sussurro agoniado:

_ Quem… quem é você, mulher?…

Ela se aproxima, toca seus chifres. Sorri com piedade:

_ Talvez não se lembre de uma menina de doze anos seduzida e desgraçada por um lenhador de vinte anos…

Ele, apesar da imensa dor na cabeça, lembrou-se da menina que ele deflorara anos e anos atrás. A menina engravidara e sua mãe a levara do vilarejo, antes de serem expulsas pela comunidade.

A velha mãe jurara, na época, amaldiçoá-lo pela crueldade cometida contra sua filha.

Ele balbucia incrédulo:

_ A velha bruxa desgraçada!…

A mulher sorri, ainda muito bonita e jovial:

_ Sim, minha mãe o amaldiçoou no dia em que quase morri na hora do parto. Meu filho nasceu morto…

Ele, com lágrimas de dor e emoção:

_ Mereço a morte, certamente. Diga-me como morrer… e eu pago o que fiz com meu sofrimento e sangue.

Ela acaricia seus chifres e diz, numa voz cálida de quem ainda tem amor e paixão:

_ Minha velha mãe morreu ano pasado, por isso vim atrás do senhor. Ela incutiu ódio mortal em meu coração porque somente eu poderia desfazer este feitiço, caso o amasse com paixão como quando era uma menina. Por anos a fio eu quase o odiei…

Ele não entende muito bem, mas espera que ela termine.

Ela gentilmente esfrega os cornos com a neve para aliviar sua dor lancinante. Como mágica o alívio é imediato. Ele suspira calmamente e seu coração se aquieta. A ausência da dor era de fato a mais real das felicidades, ele pensou.

Ele diz constrangido:

_ Você não me odeia…

Ela olha para o céu e a neve cai suavemente em seu belo rosto.

Quando fala, a neve cessa e seus cabelos voam  suavemente como se anjos os soprassem.

_ Não consegui, por mais que tentasse, odiá-lo verdadeiramente ou a quem quer que fosse. O senhor já teria morrido da forma mais dolorosa se assim o fosse. Algo que minha velha mãe jamais foi capaz de entender…

_ Sim… por favor, continue…

Ela abraça o homem-veado e sussurra em seu ouvido:

_ … Que uma mulher quando ama verdadeiramente, nada, nenhuma força é capaz de destruir tal sentimento, porque ele vem do mesmo lugar que esta neve que recai sobre sua dor…

Mas ele já não sentia dor alguma. E notou que também já não havia chifres em sua cabeça.

Ela sorri e pergunta muito tímida e carinhosa:

_ Acredita no meu amor…?

Ele, sentindo-se surpreso, livre e feliz, responde chorando, ajoelhado na neve, enquanto veados correm felizes entre as árvores:

_ Mais que no amor, eu acredito no perdão!…

E lágrimas de pura felicidade hidrataram o rosto do caçador.