Minha primeira vez entre as acácias

01378192_100.jpgEla estava desiludida e cansada, enfadada com uma vida insossa e medíocre ao lado daquele homem que ultimamente só servia para saciar-lhe os instintos mais grotescos.

Uma trepada na semana, um beijo esporádico de língua e o resto dos dias para se arrepender. Depois de satisfeita ficava nua, fumando entre os lençóis, com uma sensação deveras desconfortável.

Uma espécie de náusea e raiva de si mesma, de sua acomodação, ou fraqueza. O fato era que não dava um fim naquilo tudo.

 Por que simplesmente não ia embora, pegando o primeiro avião ou o trem ou um pacato ônibus na rodoviária e batia em qualquer cidadezinha do Espírito Santo, ou qualquer lugar do mundo onde pudesse olhar um novo olhar, um novo corpo, uma boca ainda não conhecedora de sua língua quente e de suas falas poéticas e alegres…

Mas sua boca ultimamente só proferia palavras de desgosto, frases frias: “Não, não quero.” “Estou cansada, minha cabeça dói!” ou “Há quanto tempo não vamos à um  motel?”

Sua salvação eram suas telas e o óleo, a aquarela que coloria seus sonhos em forma de arco-íris e acácias. E estava alí, naquele hotel a beira-mar para pintar e esquecer seu imenso vazio, sua já acostumada falta de amor. Cálido, como deveria ser.

Sua paixão maior era pintar acácias, de todas as cores, em tantas paisagens que até mesmo dentro de um imenso coração ela pintara uma árvore destas – sua tela mais apreciada que ela não vendera por nada porque achava que um dia aquele quadro se transformaria em realidade, ou seja, seu coração seria repleto de calor e tomado de prazer genuíno, como fosse uma planta florida e livre.

Entrou no banheiro com esses pensamentos que a ajudavam a sobreviver  àquele chamado casamento, que nada mais casava na relação, a não ser aquele sexo rápido, instintivo e frio. Como se o amor fosse um eterno satisfazer-se em agoniado cio.

Mergulhou carente na banheira. Afundou o rosto e sentiu vontade de morrer afogada de tristeza. Seu corpo macio e quente treme de prazer só em imaginar um novo homem alí com ela, massageando suas costas, suas pernas, encontrando com os dedos sutis seus segredos e desejos mais íntimos…

Adormece na hidro, sob efeito do vinho branco e de um Wagner entrecortado como seu espírito de mulher. Um Wagner fragmentado em acordes de angústia e desterro.

Sonha com uma rua sem fim, onde há um homem – belo e  jovem – aguardando-a, com a mão estendida, para que entrasse junto com ele naquela rua.

Um prazer infinito e espetacular invade toda ela quando percebe que a rua é margeada de… acácias!

Mas a campanhia toca. Ela, sobressaltada e frustrada sai da banheira, enrola-se negligentemente na toalha e quando atende a porta, nota que o garçom não tira  os olhos de um seio à mostra.

Ela sorri quase infantil e percebe como para alguém ela poderia ser muito importante, valiosa e rara, como uma tela de Cézanne.

Dá passagem ao  garçom que, trêmulo deposita a champanhe na mesa. Derruba uns morangos no chão.   “Queira desculpar-me…”

Ela sorri enigmática. Guarda o seio atrevido e o convida para uma taça.

O jovem aceita, já sem o olhar subserviente de antes.

Ela, tranquila e ainda sorrindo tira-lhe a gravata austera e o beija com sua língua quente e sedenta.

O dia amanhece e desta vez, mesmo estando a sonhar que era uma verdadeira felina trepada numa árvore, não há frustrações em seus pensamentos porque algo dizia-lhe que sua tela de acácias no imenso coração poderia ser valiosa para seu marchand, entretanto para ela se traduziu numa absurdamente simples tarde de hidro e champanhes. Como era singela a vida, deliciou-se.

E de novo o sensual tilintar da campanhia. Ela balança a cabeça rindo e corre para o banheiro. Liga a hidro e nua vai atender a porta…

                                               

PS – As acácias são um presente para Anny – http://anny-linhaozzy.blogspot.com/

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