Curta um Curta meu – cinema

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756911466471731.jpgPTROJETO – CURTA METRAGEM
De Daisy Carvalho.

AS ORTOPÉDICAS CRISES DE JULIÃO TAMARINDO

JUSTIFICATIVA

Vejo neste curta metragem, a possibilidade de explorar o interior do ser humano, suas crises e medos, a partir do ponto de vista de um menino que, por morar em um lugar deserto e quase não ter com quem falar, vira um ser pensador que consequentemente fará o espectador refletir sobre as diversas possibilidades da existência. O filme fala essencialmente do Medo, e da beleza do espírito e do mundo invisível.

Fala das limitações humanas e do descaso sofrido por uma criança órfã de mãe. O cenário nordestino é para que a narrativa se torne propositadamente seca, como o agreste. Metáfora oportuna.

O drama do personagem se comunica com o espectador, à medida que a solidão vai descortinando, levando-o à morte… Imaginária?
Surreal e dramático final, faz com que se veja a possibilidade de se repensar a vida e talvez, controlar o próprio destino, ao vencer o medo da vida.
Uma história praticamente narrada por imagens e pensamentos do personagem.

ARGUMENTO

AS ORTOPÉDICAS CRISES DE JULIÃO TAMARINDO

Trata-se do um drama existencial de JULIÃO TAMARINDO, 11 anos, um menino nordestino que, além de portar deficiência física -nasceu com os pés virados para dentro-, teme, de maneira quase patológica a possibilidade de morrer. Solitário, nasceu no agreste. Mora com o pai e a irmã deste, sua tia, pois a mãe morreu quando tinha cinco anos. Todos na pequena casa de pau a pique falam pouco. Praticamente se ignoram.

JULIÃO conversa muito mais com seu cão chamado CAJÚ, e a galinha de estimação, SERENA. Este é o mundo do personagem que ameaça desabar quando o pai comunica que está marcada a operação de reabilitação. Irão para uma cidade próxima.
O pavor toma conta de JULIÃO, pois em sua cabeça, é certo que vai morrer. Na manhã da viagem, JULIÃO resolve se despedir dos amigos, o cão e a galinha. Aposta uma corrida com o cão, corre, pela primeira vez. Se cair, não há problema. Vai mesmo morrer. E ele cai, desmaia.
Acorda na sua cama e, milagrosamente está curado dos pés. Todos se sentem aliviados. Menos um transtorno.
JULIÃO se torna um rapaz franzino e vai para uma cidade maior, trabalhar com o padrinho, um remediado dono de gráfica. Conhece moça no trabalho e se casa.
A esposa, ambiciosa, percebe que JULIÃO não é exatamente um homem batalhador. O casamento vai mal, e chega o dia em que JULIÃO flagra a esposa com um amante em sua cama. Como não é de luta, acaba sento esfaqueado e morre.

Acorda no céu, está dormindo em uma cama branca, lençóis brancos. Um quarto. Ouve passos. É sua mãe que o toma pela mão e o leva a um lugar parecido com um belo bosque. À medida que JULIÃO avança, descobre que está nos fundos de seu velho quintal, no agreste. Vê-se ainda um menino, desmaiado após aquele tombo. Vê o pai e a tia resmungando e o levando para dentro. Vai tomar outro banho para viajar e se operar.
O contato com a mãe o fez ver seu futuro. E essa experiência, muda a vida e o destino deste nordestino peculiar.
É uma viagem no tempo, de um menino herói, que luta e vence a morte.

ROTEIRO FINAL

AS ORTOPÉDICAS CRISES DE JULIÃO TAMARINDO

CENA1-QUARTO DE JULIÃO-INT.-DIA

VOZ OFF DO PAI O CHAMA.

PAI – Ô, Julião! Ta na hora!

JULIÃO, MÁ VONTADE DESCE DA CAMA. CALÇA OS CHINELOS. ANDA DE VAGAR ATÉ A PORTA. CLOSE UP DOS PÉS TORTOS. CAMINHA ATÉ A PORTA.

CENA2-CORREDOR DA CASA-INT.-DIA

JULIÃO ANDA APOIANDO NAS PAREDES, PREGUIÇA.
VOZ OFF DA TIA SEM PACIÊNCIA.

TIA – Esse endiabrado ta fazendo corpo mole, é? Ó, Julião!

CORTE PARA

CENA3-COZINHA DA CASA DE JULIÃO-INT.-DIA

TIA COA CAFÉ. O PAI SENTADO, TOMA CAFÉ. POV DELA VENDO CÃO E GALINHA QUE BRINCAM NO QUINTAL.
JULIÃO CHEGA E SE SENTA À MESA. SERVE SEU CAFÉ. COME PEDAÇO DE BROA.

JULIÃO- To cum febre. To dolorido. Vou não.

PAI – Ó, que eu perco o prumo, danado! Doente nada!

TIA MEDE A FEBRE COM OS DEDOS. DÁ DE OMBROS.

TIA – Quente ele ta. Mas num morre.

JULIÃO – E que eu morrê, hein, hein?

JULIÃO LARGA A BROA, ESBARRA NA CANECA DE CAFÉ. VAI PARA O QUINTAL.

CENA4- QUINTAL-EXT.-DIA

JULIÃO CHEGANDO PERTO DO CÃO. POV DO CACHORRO VENDO ELE SE APROXIMANDO. CLOSE UP DOS PÉS TORTOS.

CORTE PARA

CENA5-COZINHA-INT.-DIA

TIA TIRA A MESA DO CAFÉ. SENTA-SE À MESA COM LEGUMES PARA DESCASCAR.

TIA – Depois que minha cunhada se foi, ele pioro.

PAI – É doido. Igual a falecida. Cabeça de confusão.

TIA – Depois que opera os pé, fica bom da cabeça.

CORTA PARA

CENA6-QUARTO DE JULIÃO-INT.-DIA

TIA ARRUMA UMAS ROUPAS E OBJETOS NA MALINHA DE JULIÃO. PÕE UM RETRATO DA MÃE DELE POR CIMA.

CENA7-QUINTAL-EXT.-DIA

JULIÃO SENTADO NO CHÃO. ACARICIA O CÃO E A GALINHA.

JULIÃO – Hoje, me dano. Vão cortar meus pé. Vou morre. Se sou desse jeito, desajeitado, torto… Deixa! Mas não, vão me operá. Sei que morro. Não vejo mais vocês.

LEVANTA-SE. TEM UMA IDÉIA.

JULIÃO – Bora aposta uma corrida, CAJÚ. Eu, você, mais SERENA. Se eu cair, não faiz mal. Vou morre mermo. Morro feliz, com meus amigo. Ninguém mais vai lembra de Julião Tamarindo

PEGA A GALINHA NO COLO.

JULIÃO – Não. A Serena eu carrego no colo. É covardia. Você corre mais que ela.

CORTE PARA.

CENA8-COZINHA-INT.-DIA

O PAI E A TIA NA MESA.

PAI – Se não dá certo, ele fica por lá. Tem orfanato.

TIA – Pode estuda. Aqui já tem muita desgraceira. Quase não tem cumida pra três.
PAI – Nós ta ficando velho. Só tem nóis dois no mundo. Dois irmão velho.

CORTE PARA.

CENA9-QUINTAL-EXT.-DIA

JULIÃO SE PREPARA PARA COMEÇAR A CORRIDA. FALA COM O CÃO.

JULIÃO – Que eu morre, você toma conta de Serena. Ela é fraquinha. Num deixa o pai bota ela na panela.

COMEÇA A ANDAR. MEDO. TENSÃO. AOS POUCOS VAI AUMENTANDO A VELOCIDADE DOS PASSOS. O CÃO ALEGRE. A GALINHA NO COLO DE JULIÃO. CORRE DESAJEITADO. JULIÃO CAI. DESMAIA.

CENA10-QUARTO DE JULIÃO-INT.-DIA

JULIÃO ESTÁ NA CAMA. ABRE OS OLHOS. SORRI PARA O PAI E A TIA.

JULIÃO – Eu morri?

PAI – Não, abestado. Arrumou foi jeito de cair e se sujar.

TIA – Anda, menino doido. Vem se limpa. Cumpadre Nazareno não tarda.

PAI – Se perde a charrete, como chega na rodoviária?

JULIÃO DESCE DA CAMA. SURPRESA. QUANDO ANDA, OS PÉS ESTÃO NORMAIS. A TIA OLHA COM ESPANTO PARA O PAI. INDAGAM-SE.

TIA – Mas ele ta bom, oxente!

PAI – De doido, se espera de tudo. Vai vê nem era aleijado, o abestado.

JULIÃO RI. COMPULSIVO. GARGALHADAS. CORRE PELO QUARTO.

JULIÃO – Não murri. Não murri!

CLOSE UP DOS OLHOS DE JULIÃO. FUSÃO PARA SEU ROSTO JÁ RAPAZ.

CENA11-QUINTAL-EXT.-DIA

FUSÃO JULIÃO RAPAZ, MALA NA MÃO. DSEPEDE DO PAI E TIA.

TIA – Respeita teu padrinho, Julião. E trabalha direito. Gráfica deve dá muito dinheiro.

PAI – O cumpadri tem apreço por você. E deve de está rico. Cidade grande. Juízo, abestado. Não roba. Não mata.

JULIÃO – E eu lá sou de robá e mata? Mais fácil matarem eu. Só de pensar me tremo todo.

TIA – Manda notícia.

PAI – E dinheiro. É a paga da comida que gastou.

JULIÃO ABRAÇA A TIA E O PAI. SECOS.

CORTA PARA.

CENA12-GRÁFICA DO PADRINHO-INT.-DIA

JULIÃO TRABALHA CONCENTRADO. DOIS FIGURANTES E UMA MOÇA. JULIÃO E A MOÇA TROCAM OLHARES DE FLERTE. CHEGA O PADRINHO.

PADRINHO – Julião Tamarindo. Nesses dois anos, você só me deu orgulho. Bom trabalhador, nunca falta. Sou homem sozinho no mundo. Deus mandou você.

(MOÇA DEMONSTRA INTERESSE AMBICIOSO)

JULIÃO – Pois pode contar com esse aqui, padrinho. Não deixo o senhor, não.

CENA13-IGREJA-INT-DIA

CASAMENTO DE JULIÃO COM A MOÇA. O PAI E A TIA PRESENTES. E O PADRINHO. ALGUNS FIGURANTES. O PADRE OS CASANDO. SEM SOM. SÓ IMAGEM. MÚSICA DE FUNDO.

CORTA PARA.

CENA14-QUARTO DO CASAL-INT-NOITE

NOITE DE NÚPCIAS. JULIÃO E A ESPOSA SE DEITAM NA CAMA. MULHER DE JULIÃO EVITANDO FAZER AMOR. VIRA PARA O CANTO E DORME. JULIÃO TRISTE, DORME TAMBÉM.

PASSAGEM DE TEMPO.

JULIÃO CHEGA EM CASA. ABRE A PORTA DO QUARTO, VÊ A ESPOSA NA CAMA COM OUTRO. O HOMEM PULA DA CAMA.

CENA15-QUARTO DE JULIÃO-INT-DIA

JULIÃO ESTÁ CAÍDO NO CHÃO, ENSANGUENTADO. O AMANTE DA MULHER FUGINDO COM ELA. CLOSE UP NO ROSTO DE JULIÃO.

FUSÃO PARA.

CENA16-CÉU-QUARTO-INT-DIA

JULIÃO ESTÁ DORMINDO. É UM QUARTO BRANCO. CAMA BRANCA. TUDO BRANCO. MEIO ENFUMAÇADO.

VOZ OFF DA MÃE – Acorde, Julião! Julião, meu filho, acorda.

JULIÃO ABRE OS OLHOS. VÊ A MÃE ENTRANDO NO QUARTO.

JULIÃO – É você mermo, mãe?

MÃE – Sim. E você ta um homem.

JULIÃO – Desta vez, eu morri mermo.

A MÃE O PEGA PELA MÃO. ABRE A PORTA DO QUARTO E DÃO COM UM BOSQUE.

CENA16-BOSQUE-EXT.-DIA

A MÃE CONVERSA COM JULIÃO, ENQUANTO CAMINHAM.

MÃE – Agora, vá.

JULIÃO – Não, mãe. Deixa eu ficar, visse?

MÃE – Vá, menino. Não é pra sempre, não. E tome cuidado.

JULIÃO – Eu te amo, mainha.

MÃE – Vá ao médico. Cuidado!

JULIÃO – Pode deixar.

MÃE – VÁ!

CENA17-QINTAL DE JULIÃO CRIANÇA-EXT.-DIA

JULIÃO BOQUIABERTO. POV DELE ADULTO VENDO ELE MENINO DESMAIADO NO QUINTAL DEPOIS DO TOMBO. ESTÃO O PAI E A TIA LEVANTANDO-O.

TIA – Acorda, menino. Seu Nazareno já tá esperando.

PAI – Limpa ele logo. O abestado bateu com a cabeça. Se perde o médico…

JULIÃO SE LEVANTA COM A AJUDA DA TIA. CAMINHA. CHORAMINGA. OS PÉS TORTOS.

CORTA PARA.

CENA18-QUINTAL-EXT.-DIA

JULIÃO RAPAZ, TRISTE. OLHOS ÚMIDOS. DE REPENTE, BARULHO NO MATO. SÃO CAJU E SERENA. O RAPAZ, SURPRESO, SE ABAIXA E ABRAÇA SEU ANTIGO CÃO E PEGA A GALINHA NO COLO, ENQUANTO VÊ O MENINO JULIÃO QUE SE AFASTA PARA DENTRO DE CASA. OLHA PARA O CÉU E SORRI.

FIM

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