Projeto Duo Feliz – Conto do Jefferson

sis_042.jpgÉ muito bom poder escrever a quatro mãos. Não é a primeira vez que Jefferson e eu fazemos esta experiência. O prazer é tão gratificante que gostaria de convidar os amigos para este deleite doce de leite que é escrever junto com alguém. Quem quiser fazer a ‘brincadeira’ é só me convidar.
O conto é do Jeff, eu só viajei na continuidade. Espero que gostem, principalmente o autor do conto.

Primeira parte

AFASTA DE MIM ESTE CÁLICE (Jefferson Maleski)

O copo refletia o seu conteúdo bem fundo nos olhos do observador imóvel. Frente a frente, um sobre a mesa, outro sentado na cadeira, esperavam na expectativa de quem agiria primeiro. Mais cheio que vazio, o copo hipnotizava lascivamente o homem calado. Aquela bebida cintilante fora servida por e para ele. Ambos se aproveitavam daquela simbiose. Um desejava consumir, o outro, ser consumido. Um queria penetrar, o outro, ser invadido. Comungavam concomitante um pacto sagrado, uma relação amorosa, devassa, nauseante, um começo e um fim.

Perguntava se arremessaria toda a culpa por seus problemas sobre a bebida ou sobre ele. Mas culpar um deles não redimia o outro. Cabisbaixo, o homem procurava não lembrar onde tudo começara: perdera dinheiro, muito dinheiro, dignidade, não muita, emprego, o único, mulher e filhos, únicos também, tudo devido aos ininterruptos e sucessivos achegos dele com a bebida. Tornaram-se amantes exclusivos. Ao menos era o que ele pensava, pois pelas suas costas ela o traía com outros amantes. Para ela, quanto mais possuísse, melhor.
E ele cada vez mais distante dos seus. Era uma típica relação de vantagens unidirecionais, um contrato, um pacto diabólico entre senhora e escravo.

Depois do sexo selvagem sempre sobram cicatrizes profundas e doloridas. O homem custava admitir que já fosse tarde demais para ele. Os que outrora tentaram ajudar já haviam sido machucados em demasia, a paciência alheia já não o suportava mais, os seus socos e agressões já não eram tolerados como antes. O cômico tornara-se trágico e nauseabundo.

Não sou má pessoa, disse ao copo, você me tornou assim. O copo nada respondeu: quem cala consente. Lembrou da época em que era um trabalhador com contas a pagar, casa para dormir, mulher para amar, vida pobre, porém feliz, para viver.

Por isso resolvera dar um fim àquela situação. Já não mais suportava tamanha agonia em desmedida. Vociferou a promessa pelo ar a quem tivesse disposto a ouvir, mas só o amigo copo prestou atenção àquelas palavras: romperia com a bebida naquele último cálice ordinário: seria o seu divórcio, a sua carta de alforria, o seu recomeço de uma nova existência.

Nesta hora olhou de novo para o copo. Ele continuava ali, parado, como que esperando que o pobre diabo tomasse uma atitude de homem. Ou simplesmente zombava daquele disparate todo. O que quer que o copo pensasse, o homem precisava agir.

Era chegada a hora. Primeiro, previu apanhar o copo com as mãos trêmulas, mas resolutas, e o leva rapidamente até a boca e bebe o líquido todo de um gole só. A bebida desce queimando pela garganta. Estrondosamente, abandona o copo sobre a mesa. Observa o líquido restante descendo lentamente pelas laterais do copo até o fundo, como pequenos riachos onde antes existia o oceano. Eram como veias exangues. Aquele copo agonizava na sua frente. Revelava quem vencera a batalha final. Nunca mais se encontrariam novamente.

O homem escolhera como sua última bebida o veneno mais forte que encontrara em casa, o que exterminava os ratos. Enfim, estaria livre do vício.

Mas seus devaneios chocaram-se com a realidade. Era muita responsabilidade tomar o seu último gole de uma bebida que nunca apreciara anteriormente. Se fosse para morrer, que fosse ao menos de vodca, uísque, cerveja, vinho, saquê, champanha, espumante, birinaite, pinga ou qualquer outra dessas porcarias. Não tinha jeito, o homem reconhecidamente era um covarde. Perdeu – novamente – mais uma batalha contra o vício.

Levantou envergonhado, buscou alguns trocados no bolso e viu que daria para beber até desmaiar lá no bar do Tonin. Deixou o copo calado olhando e sorrindo para ele enquanto saía rumo a mais uma noite nos braços da amante cruel.

Segunda parte (Dai)

TONIN, O SALVADOR DALI

Tonin o olha com sua boca ressequida, os lábios rachados. Olha as roupas em farrapos daquele seu antigo freguês, e sem precisar ouvir a voz aguda do homem, estica o braço e escolhe na prateleira a bebida mais ordinária para seu fiel cliente que de cabeça baixa, aguarda numa mesa, a mais escondida, que sua amante chegue quente e solícita para ser sugada por toda a noite, inebriando-o e deixando-o trêmulo, satisfeito, leve como só amantes verdadeiros se sentem depois de noitada em orgia.

Tonin o observa, enquanto num momento de compaixão e conivência, pousa a garrafa de pinga na frente do amante voraz que o olha surpreso. Fita os olhos do dono do bar tentando descobrir se ele saberia de sua desistência da vida horas atrás. Em dúvidas fica a se perguntar se não estaria ele, Tonin celebrando o fato de não ter perdido seu mais fiel cliente das alucinações. Das perdições orgásticas de álcool e dor.

Aceita de bom grado uma nova rodada de lascivas cuspidas no chão, babas escorrendo pelo canto da boca, a língua inchada e dormente daquele amor inocente, que não pedira para existir. Pecaminosamente cruel, sexualmente dolorido. Um amor que chegava ao fim, ele pensava, enquanto Tonin, orgulhoso, sentia-se o bom samaritano ao dar aquela garrafa a um homem que estava visivelmente morrendo de amores. Desamores. Saudades. Morte lenta aos abandonados, aos aflitos e encachaçados lobos solitários de uma região chamada Lugar Nenhum.

Ele via através da garrafa as imagens de sua mulher e dos filhos e como num flashback via passar toda sua vida naquela garrafa esverdeada em sua frente. Sentia o sangue pulsar covardemente em suas veias alcoólatras, seu corpo mal cheiroso rescindia ao desânimo e ao medo de olhar de novo aquele mundo ao redor de seu esculhambado ser.

Reviveu em sonhos seus dias de fortuna e paz, cada filho que nascia, o xixi bebido com os amigos, a cervejada. E não sabia que seu sangue pediria mais e mais os xixis dos miseráveis. As crianças crescendo e ele não parava de comemorar a vida e o nascimento deles com sua progressiva morte.

E Tonin, ironicamente deposita mais uma garrafa em sua frente. Que diabo! Este homem jamais fora tão benevolente. E já andara de olho em sua tão amada esposa no passado, mas que soubesse, ela jamais teria se envolvido com ninguém daquela pequena cidade. Tinha lá sua dignidade, a Maria. Ele sempre fora seu Tião Bão. Viveram amor feliz até um tempo atrás. Mas ela se fora com os meninos e os trapos na mala velha de fecho enferrujado, como seu coração e mente agora.

Mas, e se ele estivesse errado e Maria se encontrasse numa cidade próxima, sendo a manteúda de Tonin? E se todo esse tempo ele fora apenas o humilhado naquela birosca, a pocilga que Tonin chamava de bar?

Então, ele esfregou os olhos inchados, balançou a cabeça. Era isso: sua honesta esposa estava nos braços de Tonin todo esse tempo! Agora era tudo muito claro e lúcido na cabeça do homem-gambá. Ele era um rato-gambá. Escória, o desgraçado que perdera sua esposa para Tonin.

Em troca, garrafas e garrafas de pinga! Por isso sempre tinha doses extras! Ele via no fundo da garrafa sua mulher nua nos braços de Tonin, e o dono do bar levantando as saias da cadela, pondo seus seios à mostra, abocanhando as carnes da mulher que fora sua, casada na igreja, sim senhor!

E ele via as partes pudicas se abrindo para Tonin que sorria como um cahorro empestiado devorando Maria com dentadas de capeta, oh deus! Ele comia como fruta sua santa mulher enquanto ele caía na orgia com aquela fria garrafa dada pelo desgraçado birosqueiro.
Via o rosto de Maria contorcido em caretas de luxúria e pecado de vadia, em escárnio dele próprio.

Maria sorria enquanto revirava os olhos aos céus onde ele não deixaria Tonin entrar, não naquele dia onde já tentara morrer e não conseguira! O rato!

E o desgraçado do Tonin ainda por cima o deixa saber que sua amada mulher era agora dele! Só podia ser, rensga! Por que teria regalia de pinga de graça! Anos e anos ele degustava sua mulher virgem enquanto o entupia de delírios afim de cegá-lo os cornos!

Enxugou a baba podre de cachaça. Andou cambaleante até o balcão.
Tonin lhe sorri cândido. Não, cínico este desgraçado duma porra!

E com a garrafa quebrada no balcão, o homem corta a garganta de Tonin e depois seus próprios pulsos. Mais sangue junto nunca se viu. Misturados no balcão e pelo chão.
E o bar, já fechado foi a única testemunha da desgraça de dois homens inocentes.

Fim

PS – Não serão chamados os críticos convidados por eu não ter recebido a permissão do autor.

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