Poesia da Lady Cronopio

6100411629147837.jpgentre as notícias loucas que povoam jornais&TV,

eu antecipo teu sorriso e só assim, posso continuar o dia que mal começou

num sinal fechado com um pivete me ameaçando através da película escura que encobre

os vidros do meu carro. não me assustei quanto devia, pois o tormento

dos dias que se seguem são tão claramente violentos que tudo já parece trivial

por baixo dos meus cílios. liguei o rádio e ouvi uma canção do Chico que fala de um amor

guardado através dos tempos, a ser descoberto por escafandristas do futuro.

pensei em nós e nessa ausência de tudo que é normal que nos acompanha…

não sei teu cheiro, não me conheces o hálito. queria tocar tua pele, teu braço

e peito de remador.

queria minha cabeça no teu ombro e minha voz minha voz reconhecida no teu ouvido.

ah, mas eu também queria tuas mãos torturando minha pele,

encontrando as cicatrizes da alma e da palma da minha mão, onde um dia

a cigana te leu na minha vida: quando tudo parecesse deserto e findo.

ponto e vírgula para dizer que sim, já sei como te ver através dos minutos poucos que

tenho de ti.

estou de malas prontas e o navio me espera, pra cruzar o atlântico,

através de mares&ares, até te chegar e encontrar em meio a uma orgia de

palavras&gentes que nem sei se irás me reconhecer: eu uso óculos, não sei se sabias,

e mal enxergo sem eles, ou preciso estar nua para poder ver o que me passa

através do desejo e da dor desta saudade tensa e insana que me corrompe os dias e sóis,

atravessando minha carne feito lança de herói, ou suspiro ventania de faca

de atirador de circo que amador que é me atinge coração adentro,

te encontrando deitado sobre a minha nuca,sobre minha longa cabeleira

com mechas castanhas douradas pelo sol da minha metrópole cravada entre dois rios

e que proclama a fome e a dor de ser pobre num país pobre, católico por invasão

e incrédulo de tudo ao saber de mim e de ti, assim tão absolutamente desconhecidos

e amados, e desejados e queridos… ah, meu rei, se um dia cruzar contigo na saleta de um

aeroporto de uma pequena cidade no Japão, e eu te reconhecerei. mas e tu?

saberás que sou eu aquela que exala rosas em cada passo,

mas que acende um cigarro atrás do outro enquanto fustiga as páginas

de um livro de poesia e marca com caneta lilás o que acha mais bonito pra amanhã

ou depois te repetir através da galáxia láctea ou azul que é a cor do meu jardim,

que por hora não aflora pela imensa falta que faz esta tua voz quente aqui no meu

labirinto de ouvir.

http://www.anotacoesdecronopio.blogspot.com/

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