Sob as rodas do ônibus

200498925-001.jpgEu estava correndo pro ponto do ônibus. Meus passos eram nervosos, com pressa, com falta de ar.

A roupa de sempre, a sandália de sempre, a pressa de sempre, o batom e o perfume se foram, era tarde.

Dia que saco, monótono enfadonho suspenso no ar. Que medo eu sentia num dia ruim, era dia de prova, eu sabia a matéria? Porra nenhuma, eu colei na cabeça a vontade de ir, ir embora pro ponto do ônibus, pro ponto do ônibus, de volta pra casa e voltar a dormir.

Que dia estranho, que gente esquisita, por que todos olham? Por que uns sorriem, eu já sei, é a pressa eu arfando o tamanco sandália a sandália tamanco toc que toca tum tum. Eu preciso fugir eu não quero ver gente eu não quero ser gente eu só quero ir embora pro ponto do ônibus de volta pra casa e voltar a dormir.

Pra que ler Voltaire, tanta regra Allan Poe e Sinclair. Meu roteiro eu rasgo não quero filmar é ruim Syd Field me ferra e eu só quero ir embora pro ponto de ônibus, eu quero minha cama eu quero a nudez de meus sonhos eu só quero dormir.

To estranha  com raiva de gente eu preciso de um trago eu preciso ir pra casa eu só quero dormir.

Eu não quero sonhar eu não quero lembrar dos instantes do amor que perdi da letrinha de prosa do meu grande afair da mania à noite eu não quero filmar eu não quero amar eu só quero um ônibus eu preciso sonhar então eu vou dormir e minha cama espancar.

Onde estão os poetas e onde a vitrine e as tais estrelas  que eu nunca vi meu roteiro pifoi ele é muito ruim eu não quero filmar só queria com ele meu amor firmar mas eu quero meu ônibus a gente me olha será estou rasgada não meu irmão eu só estou bocejando eu estou enfadada e fadada a sonhar.

Eu preciso de um ônibus meu carro já era eu só quero ir embora olhar o asfalto e o meu carro pela janela eu preciso ruir meu roteiro é  má escaleta esta prova de fogo queimou meu neurônio onde está o maldito esperado meu ônibus.

O ônibus veio parou e freou enquanto eu apago o cigarro lá está um homem debaixo do sonho debaixo do ônibus que me levaria pra casa e me jogaria na cama e eu só queria dormir.

O mundo parou e em câmera lenta eu fiquei a olhar as tais pernas do homem debaixo do ônibus eu cuspi gosto de sangue acendi outro cigarro e chorei pelo carro, e o roteiro e as pernas do homem embaixo do ônibus.

Resolvi: eu não vou mais dormir vou voar pro PC escrever outro tema outro caso o roteiro das pernas do homem debaixo do ônibus.

Outro ônibus vem outra espera e eu vou, sento e pela janela dou adeus às pernas do homem debaixo do ônibus.

Mas que louca eu sou hoje não acordei bem e o homem escorrega de baixo do ônibus. Está vivo e sorrindo está vivo e lá se foi meu roteiro outra vez.

Um ônibus enguiçado e um homem abaixo só olhando engrenagem não dá roteiro.

Ah, eu quero dormir, eu quero gritar eu só queria dormir…

Por que não morreu?

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A cara do cara – Poesia de Dan R.

A cara dele
os dentes
o pau
os dedos
os pentelhos claros
a língua
os medos
os pêlos do antebraço
os palavrões
as brigas
a rouquidão cigarro
o cigarro
o olho água
a porra
o leite
o nariz agudo
o cansaço
o choro
o cheiro quando acorda
a timidez
os desejos
os bagos
os tornozelos
as sardas
o riso
o espeto barba
a curva do pescoço
os apelos
Falam as partes de um todo?
Eduardos, Marcelos, Leonardos, Renatos e Ricardos foram só variações do seu rosto.
Vertigem sob a língua na floresta negra, num céu baunilha de Monet, numa tarde clara de abril ou junho.
Drummond sob a capa de chuva, quarta-feira de manhã, amarelos dentes e escarlates sorrisos, ‘do you remember’?
Boca boca
mãos costas
cabelo mão
língua ouvido
pescoço língua
pescoço dente
peito peito
mão mamilo
língua mamilo
dente mamilo
mão coxa
coxa mão
pica mão
pica boca
pica boca
pica boca
pica boca
pica boca
porra boca
e um “ai” de gozo que corta a respiração!
Posso escrever os mais lindos versos.
Dizer que te amo em várias línguas, pelo menos três.
Te fazer um elogio filosófico.
E mesmo assim continuo sem saber como dizer: “não te amo!”

Se alguém quiser conhecer  as loucas aventuras de uma carioca chamada Nara…

 http://www.epifaniascariocas.blogspot.com/

Desejo de Alessandro Martins

marilyn_homep.jpgO desejo, diferente do

que se pensa, não

queima. Na verdade,

inunda o ser, que

enfim se afoga em

bálsamo. Uma onda de

lassidão toma o corpo

e, seletiva contrai

alguns músculos e

descontrai outros.

Acorda, assim, quem

antes dormia e agora esfrega a pele nos lençóis. Embora a sensação seja ígnea, o desejo é úmido, cálido e se apega à carne viva como um tempero que provoca espasmos. Desejo é sede de boca mordendo e de língua lambendo. Quem aumenta voluntariamente seu desejo alimenta-se de fome.

Mais evidente que a verdade, pois não há como negá-lo nem como, através de subterfúgios da lógica, encobri-lo. Urgente como uma dor – que não dói, mas suplica -, não há como ignorá-lo. Não há como evitá-lo e, para arrefecê-lo preciso é satisfazê-lo. E assim, com ele satisfeito, pode-se observá-lo – com o olhar do espanto e da volúpia – novamente a crescer ainda maior, ainda mais forte e avassalador.

Não é flor. ÿ semente. E por vezes cai no solo em região desconhecida, em momento ignorado. Espera o melhor momento, seja o dia de chuva, a noite de sereno, a manhã de sol. Nem sempre o desejo é pra já. E sem que se perceba germina. E sem que se perceba dá tronco, folhas, cria raízes. E, então, é uma planta enorme que, ao tomar conta de tudo, grita por dentro e, por si mesma alimentada em sua própria ânsia, se expande. Menos satisfeita, mais cresce. Derruba paredes, levanta o telhado da casa e lá dentro, na cama, na sala, na cozinha, onde for, alguma pessoa finalmente se mostra nua, sem paredes, sem telhado. Desejar é saber-se sem roupa em meio a uma humanidade vestida.

Ter desejo dá vontade de partir para voltar em seguida pra que ele jamais se esgote. Mas ele nunca se esgota. Dá vontade de, ainda que ele esteja dentro da lama, enfiar-se nela até o pescoço e até mesmo mergulhar e, assim, achar a lama, aconchegante, morna e voluptuosa. Camufla-se nessa lama, assume-se um personagem vagamente antropomórfico, disfarçado. Pernas, braços, tronco, cabeça são mera sugestão de corpos que viajam sem forma. E, neles, que se encontram juntos um do outro, só se vê o branco dos olhos. O branco dos olhos é o desejo que faísca no escuro.

O ser que deseja é identificável por uma certa agitação e um certo foco. Ao mesmo tempo em que ele age, algo lhe chama a atenção e o distrai. ÿ o desejo, que o quer todo para si e carrega sua consciência, nos momentos mais inesperados, para onde ele quer. O desejo chupa os pensamentos de canudinho. Deixa só a carne e é o suficiente.

Mas muitas vezes, na maioria, o desejo, independentemente de pensamentos ou de carne, ele se basta.

Por isso, não quero saber de onde você vem, que língua fala, o som de sua voz, o que carrega em sua mala, qual o seu nome, sua comida preferida, que livros leu, que discos ouve ou que roupa usará. Não quero nada disso.

Venha trajada de seu desejo e eu a reconhecerei na multidão.

Para Deia

(mas como não a encontrei na multidão achei que não se chatearia com a senhorita Monroe)

http://www.alessandromartins.com/