Desejo de Alessandro Martins

marilyn_homep.jpgO desejo, diferente do

que se pensa, não

queima. Na verdade,

inunda o ser, que

enfim se afoga em

bálsamo. Uma onda de

lassidão toma o corpo

e, seletiva contrai

alguns músculos e

descontrai outros.

Acorda, assim, quem

antes dormia e agora esfrega a pele nos lençóis. Embora a sensação seja ígnea, o desejo é úmido, cálido e se apega à carne viva como um tempero que provoca espasmos. Desejo é sede de boca mordendo e de língua lambendo. Quem aumenta voluntariamente seu desejo alimenta-se de fome.

Mais evidente que a verdade, pois não há como negá-lo nem como, através de subterfúgios da lógica, encobri-lo. Urgente como uma dor – que não dói, mas suplica -, não há como ignorá-lo. Não há como evitá-lo e, para arrefecê-lo preciso é satisfazê-lo. E assim, com ele satisfeito, pode-se observá-lo – com o olhar do espanto e da volúpia – novamente a crescer ainda maior, ainda mais forte e avassalador.

Não é flor. ÿ semente. E por vezes cai no solo em região desconhecida, em momento ignorado. Espera o melhor momento, seja o dia de chuva, a noite de sereno, a manhã de sol. Nem sempre o desejo é pra já. E sem que se perceba germina. E sem que se perceba dá tronco, folhas, cria raízes. E, então, é uma planta enorme que, ao tomar conta de tudo, grita por dentro e, por si mesma alimentada em sua própria ânsia, se expande. Menos satisfeita, mais cresce. Derruba paredes, levanta o telhado da casa e lá dentro, na cama, na sala, na cozinha, onde for, alguma pessoa finalmente se mostra nua, sem paredes, sem telhado. Desejar é saber-se sem roupa em meio a uma humanidade vestida.

Ter desejo dá vontade de partir para voltar em seguida pra que ele jamais se esgote. Mas ele nunca se esgota. Dá vontade de, ainda que ele esteja dentro da lama, enfiar-se nela até o pescoço e até mesmo mergulhar e, assim, achar a lama, aconchegante, morna e voluptuosa. Camufla-se nessa lama, assume-se um personagem vagamente antropomórfico, disfarçado. Pernas, braços, tronco, cabeça são mera sugestão de corpos que viajam sem forma. E, neles, que se encontram juntos um do outro, só se vê o branco dos olhos. O branco dos olhos é o desejo que faísca no escuro.

O ser que deseja é identificável por uma certa agitação e um certo foco. Ao mesmo tempo em que ele age, algo lhe chama a atenção e o distrai. ÿ o desejo, que o quer todo para si e carrega sua consciência, nos momentos mais inesperados, para onde ele quer. O desejo chupa os pensamentos de canudinho. Deixa só a carne e é o suficiente.

Mas muitas vezes, na maioria, o desejo, independentemente de pensamentos ou de carne, ele se basta.

Por isso, não quero saber de onde você vem, que língua fala, o som de sua voz, o que carrega em sua mala, qual o seu nome, sua comida preferida, que livros leu, que discos ouve ou que roupa usará. Não quero nada disso.

Venha trajada de seu desejo e eu a reconhecerei na multidão.

Para Deia

(mas como não a encontrei na multidão achei que não se chatearia com a senhorita Monroe)

http://www.alessandromartins.com/

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Sobre Day

As pessoas que consideram que a coisa mais importante da vida é o conhecimento lembram-me a borboleta que voa para a chama da vela, e, ao fazê-lo, queima-se e extingue a luz. (Tolstoi)
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