Clarice Lispector, não. Autor desconhecido

NÃO TE AMO MAIS

Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais…

( Agora leia esta poesia de baixo para cima. Pura arte … pura genialidade … )
 

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Só poesias agora…

CHACAL

NÚMERO DA PAIXÃO

na corda bamba quero ser teu contrapeso
no número das facas assoviar nos teus ouvidos
no globo da morte quero ser teu copiloto
no vai e vem do trapézio quero ser quem te segura
 
quero te acompanhar pelas ruas do rio sorrindo ou chorando
quero me molhar todinho só pra te deixar sequinha nesse temporal
quero te abraçar apaixonado sentir teu coração pulsar
quero te beijar do oiapoque ao chuí, bem te vi
 
porque eu sei que teus cabelos são tempestades que me alucinam
que despencarei cada vez que subir nos teus andaimes
que me esfaquearei transtornado com suas sutis insinuações sobre o
tempo
que me transmutarei em nêspera cada vez que me disseres:
hasta luego, luz del fuego
que vagarei sem esperanças quando não mais fizeres parte
dos meus próximos capítulos
que capitularei enfim, com a cabeça espatifada nos escombros
do meu próprio coração
 

TORQUATO NETO

O Poeta é a mãe das armas
& das Artes em geral –
alô poetas: poesia
no país do carnaval;
alô, malucos: poesia
não tem nada a ver com os versos
dessa estação muito fria.
 

O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral:
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval
(alô malucos), é traidor
da poesia: não vale nada, lodal.
 

A poesia é o pai das ar-
timanhas  de sempre: quent
ura no forno quente
do lado de cá, no lar
das coisas malditíssimas;
alô poetas: poesia!
poesia poesia poesia poesia!
o poeta não se cuida ao ponto
de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo
já sabe: não está cortando nada
além de minha bandeira\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\=
sem aura nem baúra, sem nada mais para contar
isso: ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. a
r : em primeiríssimo , o lugar. 

E se eu…

110911050172501.jpg… Ouvindo um Jazz do Luis Melodia começasse a divagar a respeito dos homens, hein?

E se eu ficasse muito tentada a falar deles? De novo? Machismo? Feminismo? Nada de minimalista, quando eu falo, sinto-me uma mocinha romântica querendo revolucionar esta coisa linda e irritante que é o homem. Macho charmoso e irreversivelmente complexo. Por isso não penso mais sobre. Mas minhas teorias continuam as mesmas.

Porém, como posso ser acusada e ofendida de todas as formas (Leila Diniz também) hoje resolvo ser mulher menos comunista – cansei de dividir com ele meus desejos – resolvi listar os piores e melhores tipos de homens. E com conhecimento de causa. Afinal sou careta, ou seja, totalmente heterossexual. Vintage. E sexy.

– Um homem bom é aquele que come quieto, afinal já dizia vovô que quem come quieto come duas vezes. Ou então não gostou. Ou não gosta mesmo da fruta.

– Um homem propício é aquele que não tem olhos arregalados como saísse do hospício direto para a cama de uma mulher equilibradamente nua.

– Um homem gostoso é aquele que não promete, mas faz, de surpresa, a mulher se sentir mulher e não uma bengala para seus problemas traumáticos – talvez de infância.

– Um homem livre é aquele que antes de tirar a roupa da mulher, ele próprio se despe de corpo e alma, quando ele tem uma.

– Um homem inteligente não se deixa humilhar porque sabe que mulher assume tudo que pensa, faz e goza.

– Um homem másculo é aquele que só mostra a força na hora em que ela quer apenas um forte abraço, nem que seja de amigo.

– Um homem respeitável é aquele que sorri de verdade e não esses que escrevem KKK, no lugar de apenas sussurrar algo engraçado pra mulher rir.

– Um homem gentil não causa dor no coração de uma mulher. Não brinca com seu corpo e alma como fosse ela um brinquedo, ou melhor, um objeto de curiosidade a ser aplacada.

– Um homem capaz é aquele que deve saber, antes de se aproximar, se tem culhão para encarar uma fêmea de verdade.  Geralmente esses acreditam na historinha de Adão e Eva. Ave César! Ave Adão!

– Um homem justo, reconhece que jogou sujo e volta com sua espada na bainha, se ajoelha, e como um cavalheiro, mostra ser um cavaleiro. E não o cavalo.

– E finalmente, um homem que quer ser eterno não deve queimar sua dignidade, sua moralidade e sua ética por uma tola e infantil ânsia de conquistar uma mulher só. Porque ela jamais está só. Ela divide o aluguel com a vingança. São amigas.

– Mas o homem sábio se recolhe em silêncio e descobre a sós se é mesmo homem. E se talvez não for tão homem, que seja cabeça feita. Afinal ser viado não é crime. Mas mentir, oh não!

– Mas nenhum homem merece meu desprezo porque, como disse, eu sou fora de moda. Daquelas que de fato são 100% mulheres. Uso baton, echarp, lenço de papel, fêmea na hora certa, mãe e santa na hora de rezar. E amo ter um homem que jogue  a casaca na poça de lama. E sou tímida.

Minha Conspiração ganhou!!! :P

04.jpgRecentemente participei de um sério concurso no site de meu amigo Christian Gurtner, o www.escribacafe.com  onde ele produz maravilhosos Pod casts com textos lindos, filiosóficos e quase proféticos. Uma sumidade. Precisam conhecer o Escriba café.

Tratava-se de Conspirações. Publiquei a minha e tive a felicidade de ganhar! Embora tenha sido páreo duro – a do André Gazola, por exemplo, do www.Lendo.org estava uma maravilha sobre a disputa dos deuses através do jogo de Xadrez.

Agradeço ao Christian que, assim como outros amigos, me levam a sério, pois apesar de ser ‘brincalhona’ eu amo e respeito todos os meus amigos blogueiros e muito admiro e incentivo seu árduo trabalho de manter um blog a todo vapor.

Eis minha TEORIA DA CONSPIRAÇÃO:

“Tudo acontecerá muito rápido. A terra será ‘chupada’ e todas as almas ruins estarão confinadas em planetas inferiores à Terra (são três abaixo e três acima).

Cristo não volta, porque já teve suas NOVE encarnações messiânicas – Buda, Krsna… Mas vem em seu lugar, O ANJO GABRIEL, ou melhor, Ele já está por aqui, em uma família próspera e elevada espiritualmente. Gabriel está com uns OITO anos mais ou menos.

Não sei se pode ser chamada de Conspiração, ou ao menos, que não conote malignitude porque a missão de GABRIEL é unificar os pilares cristãos com os espíritas e assim, demover da face da Terra os protestantes que chamam pela Besta em seus templos.

O que posso garantir é que os bons (verdadeiros) voltarão a habitar um planeta limpo de demônios e os mais elevados subirão aos céus superiores (esses três acima de nós).

Minha amiga pediu ao “ALIEN” que me deixasse vê-lo por um momento.
Qual foi minha surpresa por Ele tê-lo permitido.
Uma ofuscante e ao mesmo tempo embaçada luz azulada tomou conta daquele lugar ( um descampado em Minas Gerais).
Tive muito medo mas não perderia a oportunidade de perguntar a Ele, através de minha amiga, o porquê de eu estar aqui neste sofrimento já que não sou capaz de experimentar qualquer sentimento diferente de AMOR e TRISTEZA por ver meu planeta se acabar nas mãos capitalistas da BESTA.

Reparei, neste momento, que ela chorava copiosamente.
Desviou o olhar do SER SUPERIOR (são mais altos que nós) e me olhou com um sorriso de luz.
Eu, emocionada indaguei com o olhar. Ela respondeu, depois que a Nave se fora:

_ Ele disse que vocês ESCRIBAS têm papel importante aqui na Terra. Porque serão vocês, elevados ao planeta superior. E entre as fontes cristalinas de sua reserva, estarão todos os ESCRIBAS a contar esta histórica Conspiração contra o PLANETA TERRA.”

Obrigada Christian pelo maravilhoso prêmio que é teu livro “A CIDADE DOS MILAGRES”

Beijo da Dai  )

Trilhos Urbanos – E um menino de rua

887t.jpgTodos os dias ele atravessava os trilhos, olhava para os dois lados e, depois de certificar-se de que não vinha o trem, passava para o outro lado, tranquilo e triste, em busca de seu sonho: ela estava sempre lá. Ignorando-o como sempre, esnobe em cabeleira com perfume de xampoo caro daqueles salões especiais para os que nasceram com a sorte dos ricos.

Algo que o emocionava porque sempre ficava tentando entender esse Sistema que exclui a uns e beneficiam a outros, e nesta fatia dos acabados ele morava, fazia parte, humilhado e quase abnegado com sua sorte de cavalheiro pobre.

Quando  criança, lembrava que o pai orgulhava-se de sua postura ereta, elegante, e sempre o fazia pensar e acreditar que seria grande, teria sorte e a vida faria dele alguém respeitado e com posição que daria o privilégio do orgulho aos familiares, aos irmãos e irmãs e principalmente à sua já cansada mãe que viera morrer de câncer antes mesmo dele entrar na puberdade. Aprendia também que discriminação racial deveria ser ignorada pelos os de coração nobre.

O pai sofrera terrivelmente mas aguentara firme e assim, ele e os irmãos foram criados de maneira pobre, mas unidos. Só mais tarde partiriam, um a um , em busca de seus destinos mal traçados.

Uns morreram na marginalidade das ruas, outros foram adotados. Desses adotados, uns dois tiveram a sorte de uma família feliz, porém uns três sofreram as crueldades de gente que faz de um ser adotado, escravo para os bem servir.

Sobrara ele e o seu velho pai.

Mas era este um dia triste demais porque seu pai adoecera de mal da velhice e o jogaram em hospital que mais parecia a morada da própria morte. Ninguém o deixara entrar e ele, claro, adivinhara que o velho estava morto.

Agora, era só aquele amor impossível para fazê-lo aliviar a dor de estar só no mundo. Absolutamente só.

Ela nem o olhava, era certo, mas ele poder observá-la já era todo o seu prazer, e embora para os outros parecesse loucura satisfazer-se com tão pouco, para ele era a plenitude do amor celestial.

Chegou ao outro lado da ferrovia, enquanto o som do trem se aproximava.

Imaginou-se sob os trilhos, livrando-se definitivamente daquela insuportável dor da pobreza. Mas não, balançou a cabeça e correu em direção à sua amada. Ela vivia o dia todo no salão, sempre linda, cheirosa. Ele apenas a olhava pelo vidro da loja e com alguma sorte, ela, aquela linda criatura feita pessoalmente pelas mãos de Deus, raramente lhe dedicava um furtivo olhar. De raspão. E só ele sabia que isto era o que considerava o beijo ganho, ou melhor, roubado.

Chegou ao salão e de pronto seu coração acelerou numa batucada melancólica dos sambas da Central do Brasil. Ela não estava lá.

Semanas se passaram e nada. Ela se fora! Possivelmente se casara, viajara, o fato é que se fora para sempre.

E assim, nosso herói ficou definitivamente sozinho no mundo.

E lá, no coração da Central, não poderia haver ninguém mais triste que ele, depois de ter perdido seu grande amor. Sua amada namorada branquinha de olhos negros e profundos. Sua cheirosa e meiga poodle.

E os olhos tristes do vagabundo ficaram conhecidos por anos na estação dos trens…

                                        PAZ!!!

Coisas que eu não entendo: Que país é esse?

images.jpgSe eu dissesse que às vezes não entendo as culturas de outros países, até tudo bem. Mas depois que enveredei por este universo da blogosfera descobri que das duas uma: ou carioca é mesmo o melhor povo do Brasil ou somos burros e não compreendemos certas coisas.

Tem amigos que falam o português, mas moralmente rola uma dialética de um dialeto que no fim das contas eu saio pro meu choppinho na praia e esqueço que não entendo meus amigos brasileiros de outras regiões.

Dá até vontade de estudar antropologia, sociologoa, sei lá, só pra desvendar este mistério intra-regional que me afasta dos amigos brasileiros.

Ainda bem que Brasília me deu o Renato Russo, ufa!

Quer coisa mais simpática que nosso maravilhoso carioca Alexandre Kovacs? E Alessandro Martins que é do Sul, e que de frio não tem nada, que cara maneiro!

Se é da região Sul, ok, é frio, então as pessoas são mais… distantes? Mas só que esses dias, eu conheci dois gaúchos recém chegados ao Rio de Janeiro. Pai e filho, bronzeados, risonhos e vendendo cachorro quente (delícia) como fossem cariocas há tempos. Neste caso o André Gazola fica fora de questão. Deve ser idiossincrasia ou charme dele, sei lá.

Goiás do Jefferson, que eu só sabia de pequi e Leandro e Leonardo, me fez ficar surpreendida com maus modos, quase falta de educação, coisa que carioca não comete de jeito nenhum. Carioca, mesmo em discussão, acaba amigo e rindo da irrelevância das coisas aborrecidas. Enfim…

O chato é que cada blogueiro representa sua região e imagina eu ficar achando que todo goiano é grosso ou que todo gaúcho é frio? Xi!

E o Piauí que queriam até tirar do mapa, me encanta na figura do Daniel Lopes, intelectual sem charminho ou afetação, que brinca, mesmo lendo 10 livros por mês he-he-he!

Paraná me encanta com Paulo Plozonoff e Maga e mais uns aí. A linda e meiga Patrícia eu não posso esquecer.

Às vezes pegamos pesado mas é algo passageiro e como sempre a amizade continua porque carioca só leva a sério o que de fato for sério, como a nossa política de merda e nossos governos falidos. O analfabetismo e a violência nas ruas. O resto é chopp, meu amigo. Pra você que vem nos visitar, eu ofereço caipirinha com camarão na brasa, hum.

São Paulo eu já conheço, é nota dez, o Maldito representa bem e o Bravus net. Sem falar do Rafael do Leitura diária. E o grande Ulisses.

Acho que ao pisar na blogosfera, melhor não colocar no perfil de onde é, se não puder representar com bom humor e simpatia o seu estado. Bom, é minha opinião. Carioca fala o que pensa. Não escondemos nossos sentimentos, por isso somos protegidos pelo imenso Cristo lá.

Somos amigos e parceiros para sempre. Não papamos a goiaba, a comemos com humildades junto com seus bichinhos, afinal bicho de goiaba é goiaba.

Quando eu terminar este post, estarei rindo, indo pra fila do banco pagar umas coisas, pegar dinheiro e comprar uma porrada de futilidades, como um biquini novo, roupa pro namorado e algumas guloseimas. E cerveja em lata. E vinho e petiscos.

Não se preocupem, portanto com minhas palavras, não se aborreçam, só acho que Goiás e Rio Grande do Sul são maravilhosos. Assim como o Rio de Janeiro.

Por isso eu dei ataque hoje de “carioquice” e desabafei sobre esta caretice de meus amigos Jefferson e André Gazola. Vocês estão precisando de praia e chopp. he-he-he.

Posso garantir que as coisas aqui são beeem diferentes, menos sérias, porém muito mais prazerosas. Não é a toa que fomos eleitos um dos povos mais simpáticos e hospitaleiros do mundo.

Não estou provocando discussões de xenofobia, carioca odeia bairrismos. Só desabafei antes de ir dar o meu mergulho.

Mas não vou me estender com esses papos de região, embora nem tenha mencionado Santa Maria, no RS do meu querido e simpático Paulo Vilmar, porém, é fato que somos diferentes de todos os estados do Brasil. Nós jamais deixamos um colega em apuros, não ficamos sem dialogar, sempre estamos rindo e de bem com a vida. Não somos vagabundos, estudamos, trabalhamos e somos o maior leque cultural do país.

Fazemos música, livros, cinema, escultura nas areias da praia e botamos a boca no trombone com sindicatos no centro da cidade, na Cinelândia. Aqui o bicho pega!

Reinventamos a paz em passeatas e temos ongs e órgãos especializados em organizar a sociedade civil carioca.

A mídia que nos perdoe,  mas o Rio não é bem assim. Eu transito pela cidade de dia ou de noite e assaltos e violência existem em todas as metrópolis.

Mas se há algo que honestamente eu não encontrei na blogosfera, foi uma união perfeita dos representantes dos estados e cidades.

Que país é esse? É a porra do Brasil! he-he-he!

Mas ainda gosto do pequi de Goiás, do Leandro e Leonardo e dos vinhos do Rio Grande do Sul he-he-he.

Um beijo carioca para TODOS e um especial para meu amado mochileiro Diego Dotta. Também do Sul P

A propósito, André: Boas férias. Tente se divertir um pouco.  ;)

Projeto Duo Feliz – Conto do Jefferson

sis_042.jpgÉ muito bom poder escrever a quatro mãos. Não é a primeira vez que Jefferson e eu fazemos esta experiência. O prazer é tão gratificante que gostaria de convidar os amigos para este deleite doce de leite que é escrever junto com alguém. Quem quiser fazer a ‘brincadeira’ é só me convidar.
O conto é do Jeff, eu só viajei na continuidade. Espero que gostem, principalmente o autor do conto.

Primeira parte

AFASTA DE MIM ESTE CÁLICE (Jefferson Maleski)

O copo refletia o seu conteúdo bem fundo nos olhos do observador imóvel. Frente a frente, um sobre a mesa, outro sentado na cadeira, esperavam na expectativa de quem agiria primeiro. Mais cheio que vazio, o copo hipnotizava lascivamente o homem calado. Aquela bebida cintilante fora servida por e para ele. Ambos se aproveitavam daquela simbiose. Um desejava consumir, o outro, ser consumido. Um queria penetrar, o outro, ser invadido. Comungavam concomitante um pacto sagrado, uma relação amorosa, devassa, nauseante, um começo e um fim.

Perguntava se arremessaria toda a culpa por seus problemas sobre a bebida ou sobre ele. Mas culpar um deles não redimia o outro. Cabisbaixo, o homem procurava não lembrar onde tudo começara: perdera dinheiro, muito dinheiro, dignidade, não muita, emprego, o único, mulher e filhos, únicos também, tudo devido aos ininterruptos e sucessivos achegos dele com a bebida. Tornaram-se amantes exclusivos. Ao menos era o que ele pensava, pois pelas suas costas ela o traía com outros amantes. Para ela, quanto mais possuísse, melhor.
E ele cada vez mais distante dos seus. Era uma típica relação de vantagens unidirecionais, um contrato, um pacto diabólico entre senhora e escravo.

Depois do sexo selvagem sempre sobram cicatrizes profundas e doloridas. O homem custava admitir que já fosse tarde demais para ele. Os que outrora tentaram ajudar já haviam sido machucados em demasia, a paciência alheia já não o suportava mais, os seus socos e agressões já não eram tolerados como antes. O cômico tornara-se trágico e nauseabundo.

Não sou má pessoa, disse ao copo, você me tornou assim. O copo nada respondeu: quem cala consente. Lembrou da época em que era um trabalhador com contas a pagar, casa para dormir, mulher para amar, vida pobre, porém feliz, para viver.

Por isso resolvera dar um fim àquela situação. Já não mais suportava tamanha agonia em desmedida. Vociferou a promessa pelo ar a quem tivesse disposto a ouvir, mas só o amigo copo prestou atenção àquelas palavras: romperia com a bebida naquele último cálice ordinário: seria o seu divórcio, a sua carta de alforria, o seu recomeço de uma nova existência.

Nesta hora olhou de novo para o copo. Ele continuava ali, parado, como que esperando que o pobre diabo tomasse uma atitude de homem. Ou simplesmente zombava daquele disparate todo. O que quer que o copo pensasse, o homem precisava agir.

Era chegada a hora. Primeiro, previu apanhar o copo com as mãos trêmulas, mas resolutas, e o leva rapidamente até a boca e bebe o líquido todo de um gole só. A bebida desce queimando pela garganta. Estrondosamente, abandona o copo sobre a mesa. Observa o líquido restante descendo lentamente pelas laterais do copo até o fundo, como pequenos riachos onde antes existia o oceano. Eram como veias exangues. Aquele copo agonizava na sua frente. Revelava quem vencera a batalha final. Nunca mais se encontrariam novamente.

O homem escolhera como sua última bebida o veneno mais forte que encontrara em casa, o que exterminava os ratos. Enfim, estaria livre do vício.

Mas seus devaneios chocaram-se com a realidade. Era muita responsabilidade tomar o seu último gole de uma bebida que nunca apreciara anteriormente. Se fosse para morrer, que fosse ao menos de vodca, uísque, cerveja, vinho, saquê, champanha, espumante, birinaite, pinga ou qualquer outra dessas porcarias. Não tinha jeito, o homem reconhecidamente era um covarde. Perdeu – novamente – mais uma batalha contra o vício.

Levantou envergonhado, buscou alguns trocados no bolso e viu que daria para beber até desmaiar lá no bar do Tonin. Deixou o copo calado olhando e sorrindo para ele enquanto saía rumo a mais uma noite nos braços da amante cruel.

Segunda parte (Dai)

TONIN, O SALVADOR DALI

Tonin o olha com sua boca ressequida, os lábios rachados. Olha as roupas em farrapos daquele seu antigo freguês, e sem precisar ouvir a voz aguda do homem, estica o braço e escolhe na prateleira a bebida mais ordinária para seu fiel cliente que de cabeça baixa, aguarda numa mesa, a mais escondida, que sua amante chegue quente e solícita para ser sugada por toda a noite, inebriando-o e deixando-o trêmulo, satisfeito, leve como só amantes verdadeiros se sentem depois de noitada em orgia.

Tonin o observa, enquanto num momento de compaixão e conivência, pousa a garrafa de pinga na frente do amante voraz que o olha surpreso. Fita os olhos do dono do bar tentando descobrir se ele saberia de sua desistência da vida horas atrás. Em dúvidas fica a se perguntar se não estaria ele, Tonin celebrando o fato de não ter perdido seu mais fiel cliente das alucinações. Das perdições orgásticas de álcool e dor.

Aceita de bom grado uma nova rodada de lascivas cuspidas no chão, babas escorrendo pelo canto da boca, a língua inchada e dormente daquele amor inocente, que não pedira para existir. Pecaminosamente cruel, sexualmente dolorido. Um amor que chegava ao fim, ele pensava, enquanto Tonin, orgulhoso, sentia-se o bom samaritano ao dar aquela garrafa a um homem que estava visivelmente morrendo de amores. Desamores. Saudades. Morte lenta aos abandonados, aos aflitos e encachaçados lobos solitários de uma região chamada Lugar Nenhum.

Ele via através da garrafa as imagens de sua mulher e dos filhos e como num flashback via passar toda sua vida naquela garrafa esverdeada em sua frente. Sentia o sangue pulsar covardemente em suas veias alcoólatras, seu corpo mal cheiroso rescindia ao desânimo e ao medo de olhar de novo aquele mundo ao redor de seu esculhambado ser.

Reviveu em sonhos seus dias de fortuna e paz, cada filho que nascia, o xixi bebido com os amigos, a cervejada. E não sabia que seu sangue pediria mais e mais os xixis dos miseráveis. As crianças crescendo e ele não parava de comemorar a vida e o nascimento deles com sua progressiva morte.

E Tonin, ironicamente deposita mais uma garrafa em sua frente. Que diabo! Este homem jamais fora tão benevolente. E já andara de olho em sua tão amada esposa no passado, mas que soubesse, ela jamais teria se envolvido com ninguém daquela pequena cidade. Tinha lá sua dignidade, a Maria. Ele sempre fora seu Tião Bão. Viveram amor feliz até um tempo atrás. Mas ela se fora com os meninos e os trapos na mala velha de fecho enferrujado, como seu coração e mente agora.

Mas, e se ele estivesse errado e Maria se encontrasse numa cidade próxima, sendo a manteúda de Tonin? E se todo esse tempo ele fora apenas o humilhado naquela birosca, a pocilga que Tonin chamava de bar?

Então, ele esfregou os olhos inchados, balançou a cabeça. Era isso: sua honesta esposa estava nos braços de Tonin todo esse tempo! Agora era tudo muito claro e lúcido na cabeça do homem-gambá. Ele era um rato-gambá. Escória, o desgraçado que perdera sua esposa para Tonin.

Em troca, garrafas e garrafas de pinga! Por isso sempre tinha doses extras! Ele via no fundo da garrafa sua mulher nua nos braços de Tonin, e o dono do bar levantando as saias da cadela, pondo seus seios à mostra, abocanhando as carnes da mulher que fora sua, casada na igreja, sim senhor!

E ele via as partes pudicas se abrindo para Tonin que sorria como um cahorro empestiado devorando Maria com dentadas de capeta, oh deus! Ele comia como fruta sua santa mulher enquanto ele caía na orgia com aquela fria garrafa dada pelo desgraçado birosqueiro.
Via o rosto de Maria contorcido em caretas de luxúria e pecado de vadia, em escárnio dele próprio.

Maria sorria enquanto revirava os olhos aos céus onde ele não deixaria Tonin entrar, não naquele dia onde já tentara morrer e não conseguira! O rato!

E o desgraçado do Tonin ainda por cima o deixa saber que sua amada mulher era agora dele! Só podia ser, rensga! Por que teria regalia de pinga de graça! Anos e anos ele degustava sua mulher virgem enquanto o entupia de delírios afim de cegá-lo os cornos!

Enxugou a baba podre de cachaça. Andou cambaleante até o balcão.
Tonin lhe sorri cândido. Não, cínico este desgraçado duma porra!

E com a garrafa quebrada no balcão, o homem corta a garganta de Tonin e depois seus próprios pulsos. Mais sangue junto nunca se viu. Misturados no balcão e pelo chão.
E o bar, já fechado foi a única testemunha da desgraça de dois homens inocentes.

Fim

PS – Não serão chamados os críticos convidados por eu não ter recebido a permissão do autor.

Antes que o tempo expire

Eu vou correndo buscar teu corpo aí na tua terra de céu oriental, baby, vou correndo voar contigo, em tua moto, em tuas asas, no teu corpo tão robusto e certo de querer o meu. Vou jogando fora documentos, passado, bagas e trecos em desuso como aliança, esperança, sobranças de uma vida que já se foi.

Vou voando e correndo salvar a minha vida e desafogar do mar de abelhas, me reapaixonar, me invadir sem medo com teu corpo a minha lua e o meu luar. Ficarão para trás as roupas velhas, as fotografias, os rolos de filme das festinhas em família canibal. Minha família será você e eu serei tua dona, a mantenedora de teus prazeres e ficarei adormecida em tuas asas até que a noite nos faça amor e a manhã nos beije com a paixão dos corajosos.

Eu vou voando em correria para teus longos braços tatuados, baby, vou deixando tudo para a casa de meu esquecimento, vou levando só meu corpo e minha vontade de gritar. E vou gritar quando estiver atrelada a tuas asas e voaremos em minha moto, em minha prancha celestial.
Teu céu é mais que azul e eu vou voar e correr nas estradas e curvas do teu corpo forte, enrolada em tuas mãos peludas e grandes que cobrirão meus seios e meu rosto quando eu chorar.

Eu vou buscar correndo você aí, no Espírito Santo, e santificada benzerei teus lábios e teus órgãos para que sintas o quanto eu serei tua até o tempo expirar, mas ainda assim, eu creio que continuaremos por vidas a fora porque não pode existir tanto amor numa única vida e num único tempo.

Amor de asas poderosas, me leva a voar pelas estrelas da tua praia, pelos escuros do teu ninho de paixão. Deixa eu cair lá do céu em tua cachoeira de prazer e me casa com você conforme prometido.

Serei tua esposa em pecado e amor traído e vou deixando para trás roupas, documentos e marido. Deixo móveis, lembranças e corações partidos.

Mas que posso fazer se encontro você, meu pássaro do tempo, tão jovem a me querer em tuas asas a voar contigo por céus desconhecidos?
Estou indo, voando e correndo para um céu de ventos e coragem. Terás tua mulher conforme prometido, serás o meu marido, minha asa, meu secular amor que esperei e não estava em nenhum lugar até o dia de hoje.

Agora não corro mais. Tuas asas me alcançam e eu descanso em teu peito, poeta, enquanto fecho os olhos neste momento em que rasgo as minhas roupas, os meus tratados, todo o meu documento.
Acabei de nascer.

(Para Beto Júnior)

Bom dia, Marilyn Monroe!

1574r-018115.jpgÉ PRIMORDIAL ACORDAR
É FATAL ACORDAR VIVO
IMPRESCINDÍVEL ACORDAR
ACORDAR PARA DE NOVO DORMIR
MAS NÃO DORMIR DE TOUCA
ESCOVAR OS DENTES, TROCAR DE ROUPA
CUSPIR A PASTA COLGATE
ENGOLIR O CAFÉ E SONHAR

MAS SE ACORDOU COMO
SONHAR? ACORDADO?
ENTÃO PODEREI SONHAR E ACORDADO
FECHO O PORTÃO DA GARAGEM
CUMPRIMENTO OS PÁSSAROS
E O PADEIRO, LIGO O CARRO
E ACENDO UM CIGARRO
LINHA AMARELA, MÉIER
OU ZONA SUL?
COPACABANA TÁ BACANA
ESTA ÉPOCA DE SOL E ASSALTOS

SONHO E SONHAREI AGORA:
ESTOU RICO, FAMOSO
MINHAS DORES SUMIRAM, SOU ETERNO
O MUNDO A MIM PERTENCE
NÃO TENHO MEDO
NEM DE AVIÃO, NEM BELCHIOR
NEM DOS TAIS ASSALTOS
SOU LIVRE COMO FERNÃO
O CAPELO GAIVOTA
SOU BANDIDO DE MIM
O TAL DO CARA BOM DE CAMA

MEU IATE ME AGUARDA NO PORTO DA ILUSÃO
MINHA CAMA NÃO É MAIS O CHÃO
O PÃO É CROISSANT E MEU CORPO
O MAIS BELO DA CIDADE
VÊ AQUELAS GATINHAS DE BIQUINI?
JÁ PEGUEI UMA A UMA
DELIREI COM ELAS
NA LADEIRA DO TABAJARA
E DO LEME AO PONTAL
DE IPANEMA À TAQUARA
TODAS ME QUEREM EM SUA CAMA
EU SOU O MÁXIMO, CAMPEÃO!

VÊ AQUELAS SENHORAS ARRUMADAS?
SÃO MINHAS TAMBÉM
ME ENCHEM DE OURO E VINTÉM
VEM QUE TEM EU DIGO
E ELAS TREMEM EM MEUS BRAÇOS
AS VELHAS ASSANHADAS
AI, COMO SOU BOM DE CAMA!
ELAS ME AMAM, ELAS ME AMAM!

E LÁ NO ALTO, AQUELE CRISTO ENORME
QUE VÊ TUDO ACONTECER!
O CARA É MEU AMIGO
NADA CONTA NADA CRITICA
É BOM DE JOGO
É UM CARIOCA DA PORRA!

E AGORA, AQUELA ALÍ DE VERMELHO, VÊ?
É MARILYN MONROE
MINHA LOURA FAVORITA MINHA PUTA
PREDILETA, A DEUSA DE MEUS SONHOS
COM ELA FICO HORAS E HORAS
SÓ NÓS DOIS
EM MEU CÁRCERE DA POLINTER.

Agora durmo só mas acordo acompanhada

891t.jpgDepois de meu post “Leia quem quiser, mas hoje acordei assim”, este que desabafo como acordei, além de ter ficado muito feliz com a presença dos amigos – do Maldito para quem dediquei o ‘poema’-, me surpreendo com o Paulo Vilmar que escreveu um dos poemas mais lindos de amor ao meu Rio de Janeiro. Nós, cariocas, sofremos com as coisas desorganizadas no Governo (que desandou com Garotinho e etc), porém, um amigo do Sul que me escreve este poema, sinceramente, acabou com meu coraçãozinho que faz batucada e se emociona com essas boemias… cariocas. Paulo, você deixou um coração carioca muito feliz. Estamos aqui, tristes com o pouco caso dos Governos (safados) mas continuamos cariocas da gema. Amamos os amigos de Goiás, Pará, Rio Grande do Sul, Minas, Paraná, São Paulo, Piauí, Amazonas, Bahia, Ceará, Santa Catarina, nossa! Todos! Carioca ama geral.
Emoção…

Eis o poema que meu amigo Paulo Vilmar fez pra mim:

MEDITERRÂNEOS SONHOS

É minha amiga,
tem dias que a gente acorda puto da vida,
de ressaca sem ter bebido,
com saudades de quem ainda não foi,
com raiva de tudo e de todos.
Aqui acontece também.
Mas aqui…
Nunca tem sol(para eu comparar),
Nunca tem mar(para eu reclamar),
Maconha e cerveja(aqui até tem)…
Vontade de Europa?(estamos juntinhos),
O Rio está sombrio?
Imagine aqui…
E, de sol, podes crer
Só quem não tem,
Pode entender.
Não tem mar,
Nem mesmo revolto(prá se morrer afogado)!
As pessoas nas ruas,
bom, as pessoas nas ruas,
aqui com aí,
têm todas as caras.
Os porres mediterrâneos.
Como sonho!
Com os porres mediterrâneos.
Mas, te garanto,
é muito melhor,
ficar puto da vida,
no Rio de Janeiro.
O Rio
é meu Mediterrâneo…
Para Dai.

posted by Paulo Vilmar @

Valeu, meu camarada, valeu mesmo! P