Alma penada… (trechos do livro)

fant031.jpgALMA NUA – A VERDADEIRA HISTÓRIA DA SOLIDÃO (1998)

Era uma noite calma de desespero mudo, escondida atrás das cortinas do meu quarto úmido e eu mergulhava distraidamente no meu copo de uísque, desvirginando a possibilidade de esquecer o mundo inteiro, convidando para irmos ao fundo da solidão, eu e você com seu roupão cor de abandonado, buscar a loucura ausente por tanto tempo, durante a guerra do nosso interior, numa patética disputa de valores senis e sem sentido.

Foi quando abandonei o meu mais novo vestido no patamar da tua tristeza. Assim, morremos algumas vezes de prazer sem sabermos a quem pertenceria a vitória vitoriana de nossos antepassados encarquilahados pelos sofrimentos das dúvidas religiosas impostas pelo ventre de suas loucas genitoras sem perspectivas de orgasmos.

Era um tufão nossos braços ávidos por sensações libidinosas, e reconstruíamos nosso prazer esquecido pelas doenças do século, onde Deus de mentira escondera a vaselina de que tanto precisávamos naquele momento em que romeuejulietamente nos matamos por vinte e quatro horas, esquecidos naquele velho porão…

Descansamos em travesseiros de madeira e recitamos sonetos de Shakespeare e o hino nacional de uma pátria fora das fronteiras de todos os mapas. Era apenas o nosso mundo.

Um terror na madrugada porque nossos fantasmas não quiseram sair para jantar, então resolveram comer aranhas com bastante molho extraído de nossas jugulares excitadas e mortas ao mesmo tempo.

Era uma festa vampiresca e as bruxas não faltaram, sorvendo fartas doses de Martine, fazendo strep tease, mostrando lascivamente suas entanhas dormentes de cocaína.

Ficamos enjoados e fomos juntos ao banheiro vomitar nossas psicanálises e as tristezas de mais uma noite comum.

Visto de novo meu vestido agora velho, borro de guache o teu roupão abandonado e, com cara de embrião, você aceita o meu desejo, pedindo meu colo e o meu peito pra chupar enquanto edipianamente eu o recolho em meus braços entrelaçados e tesos, quando finalmente nos sentimos felizes e mórbidos ao ouvir o leiteiro entregando o pão que o diabo amassou e o leite com o qual banhamos nossos corpos saciados de sexo e dor.

O rádio volta a tocar uma valsa trepidante num mix demoníaco, e na estante observo que os personagens voltaram para seus respectivos livros empoeirados, num canto calado de minha mofada sala sem visitas. A estante era podre e Dom Quixote estava dependurado entre as farpas da madeira. Algumas aranhas ainda se arrastavam por Cem Anos de Solidão enquanto o Pequeno Príncipe enrubescido ouvia as estórias de Napoleão, o cabo de vassoura coberto de cupins…

Acabara a festa.

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