Projeto Duo Feliz – Conto do Paulo Vilmar

rbv0180195.jpgDai!
Você pediu para escrevermos um conto à quatro mãos. Gostei do desafio e estou te mandando a parte inicial, coloque um fim ao nosso sofrido personagem…rsrsrs

ELE

Saiu, naquela noite, como sempre saía, sem esperança alguma. Tinha que sair, distrair-se, tomar um porre qualquer, em qualquer lugar, depois voltar, eternamente voltar para seu espaço físico minúsculo, chamado refúgio, onde havia uma cama de casal e um roupeiro antigo, muito antigo, com um dos pés substituído por um tijolo, nada mais.

Parecia um filme, que se repetia todas as noites. Durante o dia, passava entre velhas máquinas de escrever, numa antiga repartição pública, esquecida da administração, pipocando metralhando intermináveis laudas e relatórios vomitados em papel branco, de ofício, com timbre em relevo (as armas da República já amareladas), enviadas para ser deglutidas por outras repartições, igualmente esquecidas, voltarem com alguns carimbos a mais, serem refeitas, assinadas, carimbadas e devolvidas.

Chegou, ainda cedo, ao bar, fazia frio, muito frio. Pediu duas doses de conhaque Senador e tomou-as em um só gole, como se fosse água, pediu, então, mais duas, ficou saboreando e observando o diminuto bar. Há mais de dez anos freqüentava aquele estabelecimento, desde o dia da morte de sua mãe.

Lembra bem daquele dia, ele chegou a casa, no mesmo refugio que ainda mora e a velha estava morta sobre a cama, gelada, deitou ao seu lado e dormiu umas duas ou três horas. Acordou, colocou um cobertor na mãe e foi ao bar tomar duas doses de conhaque, voltou de madrugada, completamente bêbado. Empurrou o corpo da mãe para o lado da parede e apagou até as sete horas! Levantou, foi ao banheiro barbear-se, vomitou, pediu desculpas para a mãe, a ouviu dizer que não era nada, assustou-se, pegou o pulso frio e viu que estava, definitivamente, morta.

Chamou o síndico, que chamou um médico, que atestou morte súbita. Enterrou-a ao meio-dia, no cemitério, somente ele e os dois coveiros, chovia, ligou (pela primeira vez) para o secretário do chefe, pedindo desculpas por não ter ido trabalhar aquela manhã. Chegou à repartição eram catorze horas, assinou o livro ponto e começou a datilografar.

Ao chegar a casa, olhou para a janela, no quarto andar e viu a luz acesa, na pressa, certamente esquecera! Abriu a porta e viu sua mãe sentada na cama, reclamando da demora dele para chegar. Sentou ao lado, ela fez um carinho no seu queixo, beijou seu rosto. Ele chorou, lágrimas pegajosas e independentes que escorreram deixando sulcos em seu rosto de menino solitário. Saiu para beber duas doses de conhaque, a mãe consentiu com a cabeça, voltou de madrugada, bêbado, a mãe ainda estava lá, ele a empurrou e deitou.

Nunca tivera uma namorada, uma amante ou algo parecido. Somente uma vez chegou próximo ao que se chama sexo, a mãe tinha viajado, ele foi a um cabaré, bebeu Campari até quase cair(não é fácil tomar porre de Campari), tomou também coragem e levou uma mulher para casa. Deitaram na cama onde dormia com a mãe, abraçou-a e ferrou no sono. A mãe chegou às seis da manhã, ele tinha vinte e cinco anos, ela gritou, ele acordou, a puta acordou. A velha gritava, a puta ria vestindo-se e exigindo dinheiro, ele de pé, as cuecas lambuzadas, a porra escorrendo pela perna! A mulher bateu a porta, ao sair, sua mãe sentou ao seu lado na cama e contou sobre a viagem.

 Depois daquele dia nunca mais nada sobre sexo, sempre que saía, tinha uma esperança, mas vinha até sua mente aquela sujeira que fizera contra sua mãezinha e ele bebia, bebia até cair, então voltava para casa. Há dez anos era assim, chegava do trabalho, beijava a mãe, conversavam sobre o tempo, saía para beber e voltava completamente bêbado.

Mas, neste dia ele não ficou bêbado, apenas lhe doía a cabeça, pagou o que devia, saiu a caminhar, talvez procurar outro bar, o ar gelado da noite lhe cortava o rosto, preciso comprar um cachecol, pensou ele.

Ao passar numa esquina dois rapazes, vestindo ternos apertados e escuros lhe estenderam um folheto, duas árvores, um rio de águas limpas, uma grama bem verde e em baixo, em letras garrafais, “EM TUDO ESTÁ A MÃO DE DEUS”, era o que tinha no folheto, além do endereço da Comissão Episcopal “ Deus é amor”. Guardou o folheto no bolso e continuou a caminhada, rumo a algum lugar, qualquer lugar.

Entrou num bar totalmente enfumaçado, ao abrir a porta cinqüenta olhos o examinaram dos pés a cabeça para logo depois o ignorarem por completo. Pediu uma cerveja e uma dose de trigo velho a um garçom, tão velho quanto o terno que vestia. Sentou numa cadeira próxima ao banheiro e bebeu devagar, quase a sorrir, enxugou algumas lágrimas teimosas e pediu outra cerveja. Estava quase feliz, seria capaz de cantar se soubesse alguma letra de música. Um velho, de cara amarrotada, subiu numa espécie de palco, pegou um violão e cantou um blues…

 Pagou a conta depois de quatro cervejas, precisava caminhar. O frio havia aumentado e um vento gelado soprava, levantou a gola do casaco e pensou que precisava comprar um cachecol. Era de madrugada, não havia ninguém nas ruas, caminhava a passos lentos, estava indo em direção a sua casa, mas não queria ir, caminhava como um boi caminha em direção do matadouro.

Um rapaz o atacou, pediu fogo, seus olhos eram azuis, procurou nos bolsos, revirou e encontrou uma caixa de fósforos. O rapaz fez uma concha com as mãos enquanto ele tentava acender o palito, estava usado, uma velha mania que tinha, de por os palitos usados na caixa, tentou novamente, outro usado, o rapaz sorriu, vestia um cachecol vermelho. 

Paulo Vilmar    http://www.caldodetipos.blogspot.com/

(Continua amanhã… com Dai)

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Sobre Day

As pessoas que consideram que a coisa mais importante da vida é o conhecimento lembram-me a borboleta que voa para a chama da vela, e, ao fazê-lo, queima-se e extingue a luz. (Tolstoi)
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