Natal Natal Natal

Dia vinte de dezembro e a cela estava fria enquanto as bombas detonavam lá fora. Era um cativeiro. Um cativeiro aprisionando sua alma em hematomas. Era noite fria, as feridas ardiam e sangravam pelas veias do coração. Os pés inchados rachavam em cortes de tanto andar pelo mundo, procurando uma saída de emergência para que pudesse entrar, nem que fosse no inferno. No céu. Qualquer lugar diferente daquele onde cresceu em pânico, em êxtase negro, em negror de mera alquimia das drogas estocadas na farmacologia da impunidade.
Sexo, violência, abortos, tiros, batons e cabrochas enfumaçadas a rebolarem em volta de sua cama, esticando beijos e orais por toda a noite até a bebida e os sonhos acabarem.

Frio…

Um cobertor fino, escova de dentes gasta, fotos em paredes, injeções de insulina e filtros solares ganhos da prostituta que roubava o supermercado da esquina.

Estava febril, os braços batiam um no outro e aproveitava para fazer as mãos aplaudirem o espetáculo mórbido da solidão de um retirante da vida. Era morto em vida e os pés embranquecidos já não diziam aonde ir e a cor da pele já não diferenciava nada. Sua raça, seu misturado sangue de norte a sul. Um pouco de judeu, D’us, Oxalá e bode morto em sacrifício ao amor da prostituta. O habeas corpus que não veio e então sentiu-se culpado diante de Jesus Cristo. E era dia vinte de dezembro.

Frio…

Os lábios eram secos e se viu menino a bolinar a prima e a empregada do amigo rico classe média que deixava-o brincar na piscina para servir de lacaio ou experiências das mais crueis. Sexo era pecado mas ele não negava, a piscina era boa de brincar, a água era limpa e azul. Azul como deveria ser o céu depois do outro céu que ele já não mais via de sua cela.

Mais frio…

As sombras à noite faziam desenhos no chão do cativeiro. Que estranho. Era um rosto a lhe olhar. Barbas e olhos azuis. Olhos azuis? Deveria ser Jesus. Era ele sim! Balbucia uma reza esquecida e dita sem boas concordâncias, sem sentido ou força. Por que não conseguia perguntar sobre o pobre cordeirinho, as mentiras da Madalena… Sua prostituta não ligava mais pra ele, mas a outra não era santa? Não roubava como a sua. Esse cara deu mole, por que deixou jogarem pedras tantos séculos nela. Bunda mole. Vacilão.

Muito frio…

Agora só queria rir da cara da morte. Ele estava bem acompanhado, batizado e perdoado hehe. Mas sai daí das sombras, já que voltara por que não abria todas as celas e punha juízes e pedófilos em seus lugares? Sem essa. Roubar era normal. Era legal. Saia das sombras e liberte tua prostituta, faz ela ir com a minha ao mercado e deixe-as roubarem shampoos e lápis de sombrancelhas. Com batom vermelho ficam lindas.

Escuridão…

Droga. Apagaram as luzes. A sombra se foi. A boca ainda consegue sorrir da covardia deste homem. Eu sou mais macho que todos eles, eu vivi aqui de verdade, me furei e fui baleado. Rasguei e fui sangrado. E roubei. Eu sou ladrão. Não quero perdão. Só queria entender por que sou desta forma. E o amigo da piscina. Aquele viado vai à missa e se confessa toda semana, mas não paga advogado. Não o chama para o céu azul.
Não importa. Agora sabe que depois daquele céu… não há mais céu. Tudo mentira. Era só invenção o tempo todo.

_ Guarda!… Água…

Água boa, pura, que coisa boa, melhor que cachaça, melhor que qualquer droga. Quem inventou a água? O guarda! Foi ele sim… Entrega este poema pra minha puta… diz que escrevi no dia vinte de dezembro…

RELIGIÃO

Creio
Que todos os povos
Haverão de duelar e sangue na festa
Não vai faltar.

Louvados os carrascos
Que jogam fora o pão
E trepa o povo sem tesão
Para não ficar parado.

Benditos os ricos, seus iates
Que assassinam os olhos pobres
De quem só pode olhar
Enquanto o mar se encolhe de vergonha…

Que na santa ceia façam um esforço
Pra depois da cocaína
comerem o pão.

(Feliz Natal, minha amada Madalena)

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