Um Ano Novo para alguém em Copacabana

Dez anos de casamento. Paixão e loucura por uma mesma mulher. Uma vida inteira dedicada a ela.

Eu só tinha vinte e quatro anos na época. Ela beirava exuberantemente os trinta. Casamos-nos nas primeiras semanas e então começou a aventura desumana em minha vida.
Éramos o que se poderia se chamar de casal perfeito: na cama, nas opiniões – as mesmas -, gosto pela arte, gastronomia. Líamos os mesmos jornais e até mergulhávamos no mar de mãos dadas. Quanto amor! Quanto desejo.

Fazíamos a toda hora, em qualquer lugar, até em cima do telhado e mesmo na entrada do prédio, em frente à janela da vizinha mais cruel. Aquela que ‘tomava conta’ da vida alheia. Mas era azarada a solteirona, pois jamais nos vira ou escutara ali, sob sua janela, bêbados, copulando em êxtase com sussurros e risos até gozarmos esperando saber no dia seguinte que todo o condomínio comentava nosso amor. Era infantil e idiota, mas sem dúvida excitante e eu sempre fazia todas as suas vontades. Como era gostosa minha mulher!

Era fogosa, o sangue italiano misturado com negro não dera uma química casta. Mas ela era só minha, morena de cabelos claros, ancas largas e lábios formando o que eu chamava de ‘a boca’. Sim, eu fazia-lhe todas as vontades e isso era bom porque eu mantinha o controle, embora quase a tenha perdido quando certa vez dormira com a boca sobre seu sexo. Eu estava tão cansado. Ela quase não me perdoara.

Dez anos e eu faço o balanço deste casamento tão agitado, louco, jamais monótono.
Era dia trinta e um de dezembro e a minha ninfa me deixara. Alegara ter conhecido um homem. Não, um homem não. Um rapaz magrelo de vinte e três anos por quem minha linda esposa se ‘apaixonara perdidamente’.

Era dia trinta e um, um ano depois e eu estava observando Gisele, a garçonete prostituta do bar. Ela ia com qualquer um, desde que ganhasse uma gorjeta.

Sentia pena de mim, a Gisele. Linda Gisele. Uma putinha mignon, olhos verdes e aplique de um rabo de cavalo louro a encantar aos incautos e pervertidos.

Ela me dissera que era apaixonada por mim e que sempre achara que minha mulher não me merecia. Eu sorri amargurado sem ter como fazer qualquer tipo de comparação entre minha ninfa honesta e aquela ninfa mais para piranha mesmo. Possuía uma boca enorme e seu sorriso era mais falso que seus olhos de cobra, porém eu apenas sorria, com uma ponta de pena daquela desgraçada que chegara do Interior e jogara-se nos braços de Copacabana.
Como ousava falar de minha deusa culta. Minha puta culta. A minha traidora mulherzinha doce e sexy.

Estava no terceiro drink quando minha ex-mulher chegou ao bar.
Olhou-me e abriu o sorriso mais lindo que eu jamais vira em dez anos, nem quando eu a fazia gritar de tanto prazer.

Ela se aproxima, cola um beijo leve em minha boca e senta-se.
Gisele chega à mesa de má vontade e serve-nos Martine e Uísque.
Minha insaciável amante ex-esposa me olha e diz que mudara de idéia, que fora apenas uma aventura e que estava voltando para casa.

Depois de um ano ela volta e me diz isso? Que entraríamos neste ano novo com nossas vidas renovadas. Que começaríamos tudo do zero. Depois de um ano eu vagando pelos bares de Copacabana, comendo todos os frutos do mar sem tempero algum. Sorri com pena de mim. De nós.

Enquanto ela falava, ali em minha frente, sensual, risonha e feliz, eu a atravessava com meu olhar e colava os olhos nos lindos peitos da Gisele. Invadia aqueles olhos verdes e imaginava-a sob meu peso, gemendo como uma louca. Eu sabia que ela era boa de cama. Todos sabiam.

_ E então, querido? O que acha?

Saio de cima de Gisele e rio para minha ex-cadela fiel. Sou curto e grosso:

_ Não vai dar não.

Ela sacode a cabeça e pasma me fita com surpresa e um certo ódio:

_ Como assim, não vai dar? Não vive dizendo por aí que ainda me ama?

_ Não, não amo não. A dor quer me provocou tirou o encanto daquilo tudo. Não quero mais você.

Então minha ex-mulher se levanta e frustrada me acena o anular. Sai rebolando, esbarrando em Gisele que olha seu traseiro com desdém, pois de fato a garçonete era mais gostosa. Mais jovem.

Sim, eu estava me vingando por ter passado por aquilo tudo. É claro que fui corno. Nenhuma mulher larga o marido por um amor platônico. Minha querida ex-fiel já deveria ter dado umas trezentas trepadas até descobrir que não me queria mais.
Levantei-me da cadeira, passei o cartão e paguei a conta. Olhei para Gisele e perguntei quanto ela queria para passar o réveillon comigo.
Ela, lânguida e sincera:

_ Sabe que não cobraria nada de ti. Sou apaixonada.

Então ela, a putinha do Interior saiu de mãos dadas comigo.
Atravessamos a rua e fomos para a areia da praia. Passamos toda a tarde nos beijando, mergulhando de mãos dadas e tomando água de coco para curar minha ressaca.

E no dia primeiro, quando acordei e olhei aquela mulher pequena, encolhida em meu peito, antes que eu soubesse o que estava se passando comigo, eu a acordei com um beijo e a pedi em casamento. Ela aceitou, claro.
E assim, descobri que é mais fácil tirar uma mulher carente da vida que perder uma santa para a putaria.

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