Apenas um olhar…

Tudo começou quando senti que ela estava profundamente carente. Irritantemente carente. Eu era sua única amiga nesta fase e posso garantir que jamais havia convivido com uma mulher tão problemática. Bebia, filosofava, vomitava e dormia em algum lugar que eu não sabia. Ela chegava e sumia como fosse uma aparição.

Não poderia passar, porém a imagem de uma louca, embora em muitos momentos eu não tivesse dúvidas de sua insanidade. Uma mulher talentosa, bonita, dessas que onde chegam espalham glamour e charme, deixando as pessoas com um prazer estranho nos olhos, um certo brilho de ‘quero mais’.

Mas ela não via isto. Sentia-se em dívida com alguém ou alguma coisa. Parecia que o mundo cobrava-lhe o que jamais seria pago. Não possuía religião, nem ódio, nem nada que a caracterizasse uma mulher comum. Conversava sobre os últimos lançamentos em DVD e dominava qualquer assunto com certa presunção discreta e elegante.

Entretanto, a última vez que nos encontramos fez com que eu tivesse coragem de falar desta mulher que até hoje não sei nem mesmo o nome ao certo. Apenas um apelido.

‘Sol’. Este é seu nome. Ou era. Sua idade então eram tenros e lindos vinte e seis anos. Mas só eu enxergava séculos naqueles olhos azuis. E no rosto, ao mesmo tempo angelical, exposto em sorriso rascante de mulher que por mais que tivesse sido perseguida e amada, expunha tamanha dor de alguém totalmente só.
Recebia pecúlio e dele vivia, mas aceitava ajuda de vários homens que lhe davam punhados de dinheiro em troco de um único olhar seu.

Ela tinha um marido. Um homem invisível que se comunicava por telefone. Dizia ser fiel a ele. E eu apenas sorria porque sabia que nem mesmo este tal homem era presente em sua estranha solidão. Até pensei que Sol mentisse sobre o cônjuge para afastar ao menos a metade dos pretendentes aos seus lábios carnudos. Às vezes até repetia a roupa, o que demonstrava que sua angústia era tão grande que ficava sem tomar banho. Ou vestia-se automaticamente. Os pés eram lindos e delicados mas por algum motivo deixava o esmalte denunciar seu pouco amor próprio. E falava por tempo impreciso naquele celular com o tal esposo virtual.

Mas certo dia ele apareceu. E foi a última vez que a vi. Estávamos em um banco de concreto numa praça quando seu marido apareceu. Um belo homem com óculos escuros e andar suave. Calças jeans e mãos de rei. Lindas mãos. Ele parecia drogado porque nenhum homem deixaria uma mulher daquelas numa praça. E notei que ele não lavava os cabelos há muito tempo, pois os cachos estavam cansados de descansar em seus ombros. Mas tinha elegância magra e rara.

Ele sentou-se entre nós duas e disse ‘boa tarde’. Ela, a Sol, sorriu e mo apresentou muito gentilmente. Eu me perguntei em silêncio por que uma mulher deixaria um homem daqueles. E por que Sol seria tão carente. E fiquei tonta em meio a um turbilhão de perguntas.

E ela, adivinhando meus pensamentos, dirigiu-se ao ‘príncipe’ e pediu:

_ Diga para minha amiga por que sou carente. Pois é assim que ela me vê.

Fiquei em desconforto mas confesso que esperei ansiosamente aquele belo homem moreno e misterioso falar comigo.
Ele então apenas puxou minha amiga pelo braço, agarrou-a – os dois de pé – e disse, sem nem ao menos olhar para mim:

_ Se as corujas não olhassem em tantas direções, talvez nem fossem consideradas rapinas.

E se foram, abraçados e tranqüilos. O belo casal estranhamente perfeito. E eu fiquei, na ocasião com duas dúvidas: se a beleza atraía a inveja ou se a inveja inventava beleza onde não existia.

E fiquei até ao anoitecer naquela praça, olhando as pessoas passando. Olhando?!
Neste momento descobri que eu era um símbolo.
E nunca vão saber que esta estória foi contada por uma coruja solitária e perdida, numa praça-cativeiro.

Por Dai e Beto Júnior.

Anúncios

Sua opinião me interessa ;)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s