A RUA

ELE acordou estranhamente tranqüilo naquela manhã de inverno. Olhou pela janela e viu que a neve caía, anunciando a estação da solidão, onde sempre sentia-se ilhado e longe de tudo que mais amava. Mas resolvera que quando passasse este vácuo estremecedor, tomaria coragem e finalmente entraria naquela rua…

Sentou-se em sua antiga poltrona e descobriu que já estava maduro o suficiente, trinta e dois anos. Que se despediria de sua senhoria e seus dois filhos pequenos que tanto o adoravam. Ficou em dúvida entre Proust e Kardec. Afinal, sua sensibilidade já o incomodava mais que poderia supor. Aquele dom que nascera com ele de fato agora chegava mesmo a assustá-lo.

A vizinha bateu à porta. Ele abriu e recebeu um bule de chocolate quente, bolo e a incubência de olhar os meninos enquanto ela fosse às compras. Ele olhou as crianças: Joseph e Carlo. Sete e cinco anos. Crianças adoráveis. Entrarm e aconchegam-se no felpudo tapete que ficava estrategicamente em frente à lareira que estalava seus gravetos quase que silenciosamente.

Tomaram a bebida quente e fartaram-se daquele bolo fofo que esfarelava em suas bocas alegres.

Joseph em dado momento o olha e pergunta se vai mesmo partir. O menor pára de mastigar e mostra-se profundamente concentrado em sua resposta. Juan sorri com os jornais entre as pernas e adivinha a tristeza dos meninos. Mas chegara a hora de convencê-los de que a vida seguia sempre em frente e, embora eles não tivessem pai, não era necessário apegarem-se a todo inquilino de sua mãe.

Juan explica que tem uma missão e que depois que o inverno se for ele precisará encontrar uma pessoa querida que há muito não via. Então os meninos indagam quem é esta pessoa. O homem responde “não sei bem…” e Joseph ri e o chama de louco. O menor, Carlo chora disfarçadamente enquanto Juan pensa em Ana.

Só a vira uma única vez mas mesmo passando-se tanto tempo, uns três invernos, ele não conseguia tirá-la da cabeça. Nunca tivera envolvimento com nenhuma mulher, pois seu dom o impedia. Esta estranha forma de ver as pessoas pelo lado de dentro às vezes o deixava verdadeiramente mortificado.

Já na infância via homens de dentes pontiagudos e mulheres nuas e promíscuas debaixo de suas saias comportadas. Nenhum padre explicara, nenhuma rezadeira. Nada fazia sentido e assim Juan passou a ser considerado o louco do Condado. O alienado da família, reclusando-se em profunda solidão.

Mas decidira que encontraria sua Ana e tudo que sabia era a rua onde ela entrara quando ele, distraído esbarrara nela derrubando uns pacotes e alguns livros. Um dos livros era de Kardec e desde então ele voltara a ter esperança de ser um homem normal e feliz.

O inverno se foi e Juan partiu em direção à rua. Na esquina havia uma tabacaria onde comprou cigarros e pela primeira vez, tomou uns drinks no lugar do já acostumado café expresso.

Mas ficou bêbado, talvez por pura emoção de saber que entraria na rua e encontraria aquela mulher que fizera uma paixão insana brotar no coração de um homem que jamais sentira qualquer sentimento particular por ninguém.

Não percebeu mas seu organismo fraco ou santificado impedia-lhe de intoxicar-se e assim, Juan dormiu na calçada, bem na curva da entrada da rua de Ana. Quando acordou, o hálito amargo e dedos queimados de cigarro, levantou-se. Arrumou o terno amassado. Ajeitando os cabelos, empertigou-se e entrou finalmente na rua.

Mas, já no segundo quarteirão descobriu que não era mais uma rua mas uma infinita avenida onde pessoas as mais estranhas cruzavam com ele e ninguém, por quilômetros e quilômetros sabia informar o paradeiro de Ana.

Só depois de muito tempo Juan desconfiou que estivera em transe. Aquele seu maldito poder talvez mediúnico, divino ou diabólico fizera com ele percebesse uma única mulher tão linda por dentro, sem nada de mal. Mas descobriu que seria procurar uma agulha no palheiro pois mesmo depois de meses viajando naquela rua, Juan não conseguira encontrar uma única pessoa bonita por dentro. Ninguém com o interior de sua linda Ana.

Assim, parou em um bar e desistiu da procura. Pediu bebidas e resolveu que seria apenas um bêbado, pois desta forma passariam despercebidos seu olhar sem Ana e seu dom. Afinal os bêbados eram mesmo loucos.

Olhou pro céu e estalou os lábios úmidos de Rum. Acendeu mais um cigarro preparando-se para dormir enquanto transeuntes horrendos o apontavam em soslaio. Mas Juan aprendera a ignorá-los, afinal, ele pensou antes de fechar os olhos, era somente dormindo que podia enxergar a beleza. A beleza de Ana…

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2 comentários em “A RUA

  1. Você pode acreditar que acordei ontem com uma história de um bêbado em mente? Li a sua história e ela é uma investigação bem profunda dos porquês dessa condição especial. Linda história, romântica e sobre o amor desvairado, numa de suas rosetas e facetas. Agora, tenho que esperar uns dias para não plagiar você. E, assim mesmo, não garanto nada. Bjs.

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