Irônico, safado e irreversível

Num dia de silêncio
Pergunte onde está o Salvador
Continue em silêncio
E ouvirá…
Silêncio…
Silêncio…
Silêncio!

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Put’Ana

Alguém tem uma filha puta
Mas a filha está grávida
O bebê irá chorar querendo peito
O pobre bebê filho da puta.

Mas quem de vocês não gostaria
De invadir a vida desta putana
Que por coincidência
Chama-se Ana?

E o bebê vai ser o quê quando crescer?
Aviador filho da puta?
Professor de literatura? Médico?

Ana diz que não importa
Ele vai ser homem e traçar as gatas
Ele será macho e cantará para elas.

Então será músico o filho da puta?

Talvez Presidente da República!
Não… Um presidente filho da puta não…
Não teria graça
Pois isso já existe, disse-me Ana.

Dois


Um é aquele que já estava lá quando ela chegou
O outro mandou buscar
Para brincar de roda e pique-esconde.

O primeiro conhece a sua alma encardida
Mofa com ela nos escombros dos destinos
Enquanto o segundo cheira a talco e brinca de médico
Quando acaba o filme cult que ela decupou…

O mais antigo dorme com seu espírito
Conhece seus sonhos e guia seus pensamentos
O mais recente nem entende o que ela fala
E quase não a deixa dormir.

O que faz companhia ao chá escuta
Os lamentos loucos da alma vadia
Cuida das feridas e enxuga seus cabelos

O que faz aventura a acompanha no bar
Não ouve o que fala e nem ri do seu roteiro
Disfarça as suas cicratizes
Com lambidas caninamente suaves…

O primeiro chegou na frente e se instalou
Como cupim em sua alma de madeira
Hospedeiro atento, a vigia noite e dia

Enquanto o outro é hospedeiro e invasor
Manipula a alma erótica da doidivanas
E arqueia as sombrancelhas quanto ela grita
_ Eu amo os dois!

GISELE


Era tarde da noite quando Gisele saiu de casa, deixando para trás seu marido e alguns filhos inconvenientes.
No dia anterior havia falado com o Pastor de sua igreja que não mais voltaria a orar, tampouco cantar para Jesus, seu ex-Deus. Era ‘Evita’ da igreja, seja lá o que isso possa significar.
Olhou em volta e correu para pegar o ônibus, sumir de Botafogo e embrenhar-se num bairro modesto do subúrbio, onde finalmente sentir-se-ia livre. Pobre, mas livre de sua tortura.
Conheceu um velho que passou a ajudá-la regularmente.
Aos poucos foi fazendo amizade no bar da esquina. Um bar freqüentado por homens e rapazes do bairro. Gisele observou que eram homens bonitos, alegres e simpáticos.
Então ela passou a dar asas à sua imaginação. Como seria a vida de uma mulher livre, sem filhos, marido, igreja ou santidade?
Assim Gisele experimentou todo tipo de relação amorosa.
Por fim apaixonou-se por dois rapazes ao mesmo tempo.
E sempre que pode, gasta o dinheiro do velho com esses meninos e se dá por satisfeita.
Afinal, ela sempre soubera que a liberdade era um mundo diferente.
Desligou o telefone mais uma vez dizendo para o ex-marido que continuava em sua clausura espiritual.
Jogou uma jaqueta por cima dos ombros e sorriu um sorriso ateu, associando a liberdade à mentira.
Gisele estava finalmente feliz.

(Baseado em fatos reais e o nome foi mantido)

O QUE HÁ DE ERRADO?…


Com os domingos nas praças, cadê os namorados?
Com os shows nas areias das praias? Violência?
Com os dedos de minhas mãos, dormência? Demência?
Cadê a poesia, a música, os livros e livreiros?
Internet se mete se mete se met!
Cadê meu gibi e meus discos, minhas fotos feias?
E no bar, mataram a garçonete, coitada!
Foi ela, foi a net, foi a internet
Que matou a Margaret…

Não atirem

Morre meu amor de vez
morre de vez minha agonia em compensação
e em compensação não durmo mais agoniada
a esperar por seus beijos
e mordidas.

Não precisa dizer mais nada
e nada direi também, afinal morremos os dois
um em cada lado da vida, de noite
com frio e dó de nós.

Queira desculpar minha dor selvagem
é que sinto falta mesmo é da cama
e das línguas esfregando-se
e dos suores pelos corpos e do banho
frio e feliz depois de tudo…
e como eu te amo!

Não esqueça deste amor louco
das fofocas e da barra pesada
dos vinhos e blasfêmias atrozes
entre nossas vidas comprimidas
de tesão e medo de acabar.

Mas acabou, não é mesmo?
Acabou como haveria de ter um fim
uma tão fraca vontade de vencer
aqueles monstros que pulavam na cama
e faziam amor conosco toda vez…

Agora eu volto a escrever e você volta a ler
as coisas que escrevo…
ou paro eu de escrever e saio pelo mundo
em busca de lugar inexistente?

Deve haver algo assim
e se houver, te aviso e voltamos
a fazer aquilo tudo em silêncio
porque nenhum de nós
poderá falar mais nada depois
que atiraram pedras em nosso amor…

Quando o poeta chora

A mágoa quando vem no homem
Ele está desprevenido, subtraído em seu ser
Está com a cara pálida sem ver o sol nascer
Encontra-se longe da memória assombrada
Que um dia o fez crescer de amor
Mas a mágoa destrói ele por dentro
E o faz desistir da vida, da alegria de cantar…

A mágoa assombra este homem que mal começara andar
E nas estrelas em que confiou, descobriu
Que amor, ódio e impostos dão no mesmo
Que as igrejas blasfemam e enganam o pobre homem
E aprende que mulher alguma vale sua vida
E seus beijos tornam-se azedos e sem sentido

Que o tesão se vai entre as contas a pagar…
Voltar para um cidadezinha cinzenta e triste
Pode ser a única solução para quem morre de amores
Nos braços de mulher perversa e louca.

E a mágoa rondará seus dias naquela cidade
Onde não mais chegarão cartas ou e-mails
Telefonemas, faxs ou sinais de fumaça
Nada, nada a lembrar de sua musa tão desejada
E esbofeteada pela sorte de dois corpos em solidão

Mas, e Deus que os salvaria,
Onde esteve na hora da última lambida
Último orgasmo… e aquele adeus no aeroporto
Onde se finge estar tudo bem, afinal os civilizados
Ficam amigos depois de frustrado amor?…

Mas não!
A mágoa está lá, triturando o coração do homem
Daquele poeta sensível e meigo que jurara amor eterno…
Ela está no silêncio da noite onde o homem chora
Pela sua fé estragada nos braços de devassa santa
Entre as pernas perfumadas, calcinha de lado – excitante Pecado.

À noite só o vento sopra na janela do poeta que agarra
Suas magras pernas e deixa o cabelo cobrir seu rosto fino
Enquanto de sua boca saem palavras sussurradas… não, não São palavras
Mas um único nome a ser repetido por vezes até dormir…
O nome dela…

Mas ele não está só, a mágoa faz-lhe companhia
E ele adormece preso ao travesseiro, sem saber que um dia
Ela, seu amor, estará de novo em seus braços
Porque em sua própria poesia foi escrito uma vez
Que aquele amor era pra sempre e que nem era só desta vida

Assim, o poeta que descanse em paz porque ainda que levem Séculos
Sua musa estará de volta em seus braços longos a observar
A tatuagem da flor que carrega o nome dela

E por isso mesmo o amor dói, tem que sangrar porque acaba
Para começar outra vez
Talvez numa próxima cidade menos cinza e violenta.

Simples e complicado

Esta noite eu tive um sonho, ou melhor, esta noite eu tive uma noite. E dentro desta noite, senti meu corpo suavemente satisfeito pelas mãos de um cavalheiro que me dizia gentilmente que iria embora para nunca mais voltar.

Eu quase que chorava, mas ao mesmo tempo regozijava a alma em saber que era apenas um sonho. Neste caso eu não haveria de sofrer. Eu acordaria, afinal.

Mas a noite não acabava e se transformava em dias longos, sem sol, sem luz alguma a iluminar-me o espírito desertor, as pernas trêmulas e os lábios selados para sempre sem sorrir. Então, resolvi caminhar pela minha noite. Era insônia ou eu mesma que simulava talvez minha vontade de ser feliz ao lado de quem um dia me quis?

Invadi meu próprio sonho por fim e resolvi eu mesma controlá-lo em desespero enquanto sentia que meu corpo suava e minha testa sangrava em forma de gotas gélidas de um suor que só quem sofre uma desilusão sabe o que é.

Caminhei em direção ao nada onde talvez encontrasse explicação para a ida de meu segundo sol, meu pôr de lágrimas, meus melhores prazeres e, ai!, eu precisava continuar sonhando! Não iria acordar. Não nesta noite de adeus.

Já nesta altura, eu controlava cada segundo daquele sonho. Olhei para os lados e sorri esnobe e soberba. Eu era finalmente dona de mim, eu podia comandar meu sonho! Eu seria feliz… Lá no meu sonho… Lá, onde minha generosa alma esperava pacientemente que eu acordasse para uma terça-feira igual e quente de verão em Jacarepaguá.

Porém eu precisava aproveitar aqueles momentos e escolher um bom final feliz, um final de caso de amor onde eu não ficasse deitada por dias na cama, chorando como bezerro que perde sua teta. E enfurecida, continuei aquele sonho. Forçando barra eu decidi viver para sempre ali.

Mas, mesmo lá, no meio de meus devaneios entre lençóis e edredons, eu sentia que estava, ou sonhando acordada ou dormia com febre e algum delírio de esperança a queimar meu coração.

Mas, valente que sou, desisti de sonhar e abri meus olhos escuros. A primeira coisa que vi foi a realidade dormindo ao meu lado com uma expressão de escárnio no rosto sereno de quem vai embora, não se importando se quem fica sobrevive ou morre.

Tudo bem. Ao menos descobri que todo sonho tem um fim.
Mas todo fim pode ter um recomeço.
Afinal, sonhar não custa nada.