Fulminante amor e ainda por cima em Ipanema

Tinha alguém preso no planeta. Ele saiu de casa. Desceu pelo elevador, a escada tava com defeito, os degraus ruíram e a lixeira estava de greve. A empregada não fora e ele não praticara sexo.

Entrou na padaria e pediu um charuto. Molhou a ponta no leite morno e lembrou das tetas da diarista. Auréolas róseas como as cerejas no bolo de três dias rodando na vitrine. O frango assado lembrou-lhe as pernas da mulata do vizinho. Apagou o charuto no chá da velha ao lado e imaginou quão fogosa ela seria com aquele batom extra-vermelho e um excitante perfume noturno usado pela manhã.

Atravessou a rua com seus vinte e poucos anos e foi à praia. Comprou um baseado com a menina loira do vôlei. Entrou na água com ela e teve um rápido orgasmo pensando na senhora gostosa da padaria.

Voltou para casa e enrolou-se nas cortinas, pois as toalhas mofavam no chão da  lavanderia . A empregada safada não veio, não vinha. Chorou um pouco com Blake e invejou Bukovski quando a mulata bateu à porta pedindo açúcar. Deu-lhe a xícara e uma ereção prontamente ignorada pela fiel porta-bandeira. Aquela criatura doce e endiabrada, feita para o amor.

Dormiu no sofá, depois de amar a velha senhora cheirosa e sorriu lembrando da menina loirinha da praia, a Kátia Flávia contemporânea pra botar a surfistinha no chinelo.

Escutou um ruído e acordou com gosto de tabaco e porra na boca. Alguém lambia sua perna e era Argos, o labrador roubado de um sítio em Jacarepaguá, um sítio vizinho à mansão da Xuxa, aquela cachorra lésbica estranhamente rica que tanto baseado já fumara nos idos 70, também em Jacarepaguá. Perdeu a excitação ao pensar na loira dos baixinhos e de novo veio-lhe a imagem da senhora gostosona.

Depois do banho e barba, perfumou-se e vestiu um Mister Wanderful que coloriu seus ombros largos. Amarrou os cachos dos cabelos castanhos claros e usou brilho nos lábios ressequidos.

Na padaria pediu uísque na parte que era bar. Ah, essas padarias do Rio! Abriu o caderno para revisar o argumento de seu próximo curta. Mas não encontrava um gancho para o desfecho da cadela da protagonista. Ou seria uma vaca?

Perdera o baseado da surfista e o uísque era nacional. Estava infeliz, mais por pensar ainda na sexagenária perfumada e provavelmente úmida de boca e lábios vermelhos.

Agora estava em dúvida se já a conhecia. Acendeu um Malboro e estalou os dedos, deixando a caneta cair no chão. Seu notebook caíra do oitavo andar. Caralho, custara uma fortuna no cartão de crédito da empregada. Juros sobre juros em vestidos e sandálias plataforma da botique da patroa no Leblon.

Lembrou: a velha gostosa era mãe da maconheira deliciosa do vôlei! Ipanema era mesmo uma festa. Putarias intelectuais e promíscuas coincidências. Estava apaixonado pela mãe da atleta canabística de belas coxas.

Riu alto e o garçom trouxe outra dose. Mais tarde, bêbado, jogou o caderno e a caneta no lixo e foi pra casa. Quando entrava em seu prédio uma voz o deteve. Era a senhora lindona com seu caderno na mão: “Não quer mesmo seu caderno?”

Ele só olhava para aqueles seios sardentos que oportunamente escondiam num escapulário de ouro uma medalha da Virgem. Acreditava agora num Deus safado e convidou a mulher para subir ao oitavo andar. Ela aceitou e ele sorriu para a Virgem de forma condescendente.

Em lá chegando, ele tirou a roupa dela e observou extasiado aquele corpo maduro, cheio de truques e desejos.

Acordou com gosto de perfume francês na boca e sentiu-se o cara mais feliz da Zona Sul.

Acompanhou a mulher até a porta mas não a deixou sair enquanto não ouviu um “sim” para seu pedido de casamento. Ela se foi prometendo voltar e ele olhou para a janela pensando que se jogaria caso não a visse mais.

Porém ela voltara e viveram felizes para sempre. Até o último dia da existência dela que era cardíaca e morrera depois do maior orgasmo de suas vidas.

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Trindade obscura

73347607.jpg373111127626991.jpg9246611795340052.jpgElas andam sempre de mãos dadas e seus nomes são tão bem conhecidos.

Elas usam roupas decotadas, são puro fetiche, uns tesões as desgraçadas mocinhas Gang ou Prada.

Provocam casados, solteiros, todo tipo de gente ávida por prazer e morte. Tem até gente que morre de tanto gozar.

São loiras, morenas, negras, assanhadas mulatas, ruivas e transparentes madrugadas.

E todas dançam libidinosamente sensuais macabras e se despem casualmente na moda e na estação que for.

Ah, mocinhas involuntárias, safadas, indecifráveis mulheres cheirosas, almiscaradas e céticas.

Estas deusas beijam na boca, fazem sexo oral e se vão. Deixam chorando o cabra de pau na mão.

Fazem estragos na conta bancária e riem demoníacas quando abandonam suas vítimas moribundas e macilentas.

Os nomes tão corriqueiros e aclamados, chamados pelo interfone, no bar ou em pleno dia de sol. Não importa, todos as chamam e as abraçam com desejo insano:

_Vem, Cachaça!

_Vamos, Cocaína!

_Boa noite, linda Morte!

(Enquanto isso, cristãos discutem algumas descriminalizações num salão onde se reúnem adeptos das mocinhas… e todos usam ternos)

Desesperos…

aa034286.jpg Por mais que eu escreva e sangre minhas mãos e distorça o verbo e as palavras, inventando formas sem sentido e até gritando em surdina as vãs colocações gramaticais e acentuando minha língua enquanto beijo os erros das fonéticas,

Quando discordo desastrosamente as concordâncias da insanidade, e ainda assim eu estarei morto.

Por mais que eu viva e morra pelas palavras e por uma frase de surto efeito menos medíocre que minha própria vida; e ainda que eu saiba que nada mais farei na vida a não ser escrever, a não ser escrever!…

Eu vejo cada vez mais longe minha qualidade literária e vomito em todas as minhas estórias e poesias, estas tão tortas quanto os passos de quem as faz.

Ainda que eu durma com um soneto shakespeareano no cérebro, meu coração acorda e erra e lá vou eu de novo imaginar defeituosamente uma forma de escrever perfeito,

Mas não tem como iludir-me e meus caminhos sempre se cruzam nos erros e aberrações de minha vã literatura e meus fonemas são como aqueles enganos ao telefone quando pensamos ser quem não é do outro lado da vida.

Não sou escritor e nem sou nada mais que um corpo que envelhece a cada dia e desmaia na frustração do não saber.

E o mistério jaz entre as células machadianas que eu não herdei e nem poderia, pois que eu mesmo sou um fracasso que na literatura se esconde inventando coisas frívolas, ludibriando os ingênuos leitores meus. Ai deles.

Por mais que eu chore e sangre mesmo sobre a folha de papel em branco, era melhor que continuasse eu em branco ou voasse em outra direção.

Mas que direção seria esta, se em cada curva que viro, minhas mãos trementes só querem voar sobre a poesia e a prosa intumescida ogra em meus dormentes dedos…

Realismo fantástico – Dos personagens

Carl Gustav Jung

Realismo Fantástico

Este é um gênero difícil de ser explorado. Nós já temos tendências naturais para a fantasia. As imagens nos sonhos.
Roteiristas são operários da psicanálise e de estudos antropológicos. De que outra forma nós poderíamos ‘inventar’ personagens?
Há filmes – brilhantes – que se originaram de grandes livros, sem dúvida, como o super clássico E o vento levou Porém, aí neste livro a escritora Margaret Mitchell invariavelmente desenvolveu seus personagens a partir de um estudo sobre seus perfis psicológicos. Não necessariamente em cima de psicanálises, eu presumo. Afinal os roteiristas são seres repletos de idiossincrasias e são vários os métodos de criação.
Criar um personagem é muito mais que escolher uma ‘pessoa’ para protagonizar ou antagonizar uma estória. O personagem, via psicanálise, é um ser real e ele já nasce vivo na mente do autor. Ele é verossímel e será eternizado em sua obra, seja na literatura ou no audiovisual que é do que tratamos aqui.
Meus personagens respiram, defecam, têm realções anais, erram e sonham. Mas não há como ignorar a complexidade de compor um personagem ‘real’.
Eu pessoalmente seria incapaz de conceber meus personagens sem fundamentar-me em dois assessores que eu assumi há tempos. Desde que, adolescente, escrevia e rabiscava pequenos contos e diálogos, na pretensão de serem parte de alguma peça para teatro.
Meus personagens têm sangue e loucura. Consciente e inconsciente. E, de certa forma, minha principal base de conteúdo criativo são Jung e Freud. Muitas vezes relidos por autores contemporâneos. Mas a base psicanalítica é uma constante em minhas criações.
Esses dois são meu bálsamo na hora em que sangro em busca de verdades para meus arquétipos.
Jung separou-se de Freud quando divergiram com relação a origens existenciais. Doutor Freud cria totalmente base sólida nas essências sexuais e traumáticas do indivíduo; enquanto Gustav Jung, por sua formação religiosa e cega (por parte de seu pai), passa a desenvolver a teoria de que há um espiritualismo atuante em cada ser individual e no todo, de certa forma. Já salientava aí, a partir de Jung o Holismo, bem mais aceito e buscado hoje em dia.
Criar personagens, definitivamente não é tão fácil assim. Se mesmo nós, digamos, personagens reais, precisamos de autocredibilidade para refletirmos no outro, que dirá um personagem fictício, que é mais metafísico, fantasmagórico que a maioria de nós?
Por exemplo:
Eu tenho uma personagem no teatro, a Valquíria, que carrega em si outras personagens na forma de síndrome de múltiplas personalidades.É a peça “A demência das Valquírias”. Neste contexto dramatúrgico eu exploro algumas possibilidades de desdobramento de uma mulher, do ser humano. É a metáfora da hipocrisia, onde Valquíria é, ao mesmo tempo, um escritor de thrillers, médica psiquiatra, prostituta e ainda mantém um romance pecaminoso com um meio irmão. Pura análise da alma humana, mas fundamentada em estudos freudianos e jungueanos, claro.
Este post era para falar de realismo fantástico, gênero que mistura surrealismo com certa necessidade de dramatizar a vida. Mas acho que ficará para a próxima. Odeio posts longos.

Verdadeiro amor… o livro!

livroantigo.jpgNesta sexta feira de chuvinha fina, serena, silenciosa aqui onde estou, acordei com um aperto diferente no meu já tão explorado coração.

Fui lá atrás e me vi menina boba, delirando com Dostoiévski, Jorge Amado, Clarice e Lobsang Rampa, entre outros.

Lembrei de como eu era feliz até mesmo entre as páginas dos best sellers de Morris West, Sheldon e Greene, pra não falar de minhas viagens com Pasolini e Aghata Christie.

Hoje, vivo sentada na frente de meu PC, lendo rápida e virtualmente, fragmentos aqui e ali. Livros estão mais raros aqui em minha cabeceira.

De repente me vejo assustada com este monstro que me consome e até chorei ao ler um artigo no Alessandro Martins sobre o perfume dos livros.

Voltei para cama e escolhi um Kundera para reler. Mas A insustentável leveza do ser eu já relera.

Então sorteei, de olhos fechados, um livro para reler e matar minha saudade de intensa leitura.

Qual não foi minha surpresa ao deparar-me com Machado de Assis. Pensei ser seu fantasma.

Mas com este tempinho gostoso eu até achei de acordo um Machadão a me assombrar.

É, vou reler O alienista.

Antes que fique eu mesma  completamente alienada da boa leitura (de livros).

Bom final se semana a todos. Eu terei… ;)

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Escombros do vácuo

Duda Ribeiro







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Esse aí, ao lado da Carol Castro e do Marcelo Faria é Eduardo Ribeiro, o Duda. Além de ser meu amigo, é um cara ser humano e que vem me dando muita força em meus trabalhos, eu que sou uma eterna aprendiz das artes.
Não por acaso, Duda Ribeiro é um de meus mestres, e como professor autodidata como ele mesmo diz, tem se superado, dado um banho de cultura e sabedoria nos quesitos roteiro, direção, atuação, dramaturgia. Ou seja, o cara sabe tudo e mais um pouco.
Profissional dedicado, ele vê a arte como toda a finalidade da vida.
Estar com ele é sempre uma festa, pois a alegria que emana de seu espírito é contagiante.
Acima algumas fotos na minissérie Amazônia, como Jeca Tatu no Sítio do Pica-pau amarelo e na recente montagem de Dona Flor e seus dois maridos. Sucesso absoluto.
Como estou em meu último semestre, achei legal homenagear um dos maiores profissionais do meio. Um dos maiores atores, diretores e roteiristas do Brasil.
Vida longa e merda sempre Duda Ribeiro.

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Doralice

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Naquele bairro classe média todos eram amigos de infância. Ou quase todos.

Jacó, o amigo mais calmo, resolvera abrir um barzinho. Desses onde encontram-se os tais amigos de infância. Uns, músicos, outros militares, escritores, vagabundos, alcoólatras, gays e simpatizantes. Todos amigos de infância.

Era uma sensação de bem estar, afinal eram uma tribo e cada um sabia dos segredos do outro.

Idiossincrasias à parte, havia Doralice. A Dora. Dizem que era a mais bonita menina do bairro. E até hoje, mulher de seus quarenta anos, casada, separada, casada de novo, ainda era muito bonita e comunicativa. Formada em Comunicação, Dora trabalhava em rádio, produzia eventos artísticos. Uma vida bem agitada. Cult, como ela mesma classificava.

Dora bebia bem. Chegava sempre no barzinho, sentava-se, cruzava as pernas e toma-lhe cervejas geladas.

Não fossem os drinks quentes…

Dora era dessas pessoas que têm pavio curto. E ainda por cima não era do tipo que ’sabia beber’.

Toda vez que excedia nos drinks, ela via coisas onde não existiam, como achar que estavam falando dela, que reparavam sua roupa, ou ainda que subestimavam sua inteligência.

Mas Dora atravessava uma difícil fase em seu segundo casamento e desta forma passara a desconfiar de todos os homens. Levantou bandeira homofóbica e passou a achar que os homens estavam virando gays. Que o mundo era gay.

Até aí tudo bem se ela não estivesse ficando psicótica com o assunto.

Assim, toda vez que bebia olhava em volta e via os amigos com olhos antropológicos. Na primeira oportunidade vociferava, bêbada como só ela sabia ficar.

_ “Aqui neste bar só tem viado!”

Os amigos não ligavam porque sabiam que Dora passava por uma fase delicada. Segundo casamento desfeito. Crise de idade. Essas coisas.

_ “Não vejo ninguém com mulher aqui nesse bar. Me engana que eu gosto! Só dá viado! Vi-a-do!!”

Jacó, o dono do bar, refletiu e achou que de certa forma Dora estava certa. Muito homem reunido, sem contar com os que eram mesmo gays.

Jacó resolvera então convidar umas garotas para enfeitarem o bar. Umas meninas dúbias que saíam da terma e iam para lá.

Dora não dava descanso:

_ “Agora é o apocalipse! Puteiro desgovernado! Cadê a polícia? Aposto que tão vendendo droga também!”

Jacó, deprimido tentou convencer a amiga descompensada a ir para casa mas foi surpreendido por um tapa no peito:

_ “Sai daqui, idiota! Tu também é viado! Não te vejo nunca com mulher! Me larga!”

E Dora foi ferindo, magoando e ofendendo a todos os amigos de infância.

Jacó, desiludido com a vida e com os negócios, passou o bar para outro amigo, o Cláudio. Só que Claúdio era militar. Mas para Dora não fazia a menor diferença:

_”Você pode até ser homem, mas eu sei o que você faz neste bar depois de fechado com essas piranhas aí. E tua mulher, cadê?”

A situação estava ficando fora de controle. Até que numa madrugada de sábado, Dora cumprira sua promessa e chamara a polícia, dizendo que naquele bar rolava de tudo.

A polícia já estava indo embora, depois de mil explicações dos amigos. Mas Dora, de olhar enviesado (mais pela bebida) apontou para os policiais:

_”vocês também são…?”

Não deu tempo de terminar a pergunta. Os policiais a algemaram e ela passou umas horas na delegacia, refletindo sobre as opções sexuais das pessoas.

Valeu a experiência, pois parece que a moça está de namoro com o policial que a prendera.

E no bar dos amigos tudo voltou ao normal.

Mas quando Dora entra, mesmo para só comprar cigarros, dá pra escutar de longe um silêncio de terror.

Numa esquina escurinha na madrugada

CENA5-RUA-EXTERIOR/NOITE
MARCO E AMANDA CONVERSAM ENCOSTADOS NO MURO.

MARCO – O filme era ruim. Ainda sinto tesão e medo de mudar.

AMANDA – Um drama para você não cairia bem mesmo. Larga logo tua mulher.

MARCO – Não sei acordar sem aqueles cabelos no meu peito.

AMANDA – Isso é mesmo um drama. Mas se não tem amor. Discutem só a crise econômica e o preço do presunto. Ou quem vai lavar a louça?

MARCO – É fácil pra você ironizar as merdas dos outros. Mas não me engana, Amanda. No fundo você não é lésbica. Eu sei.

AMANDA – Só porque transamos em estado de absoluta solidão não significa que tenho dúvidas das minhas convicções.

MARCO – Sexo não é convicção. É questão de prazer. Vontade.

AMANDA – E você ainda sente prazer com tua mulher?

MARCO – Às vezes, quando estou bêbado.

AMANDA – Pois então, meu caro.

MARCO – E você se sente o máximo em colecionar garotas. É isso?

AMANDA – Marco. Eu não coleciono garotas. Eu apenas fico aberta a novas emoções. Se você se fecha em um casamento de merda, o prejuízo é seu. A vida corre e geralmente na contra-mão.

MARCO – Na contra-mão? Não entendo, Amanda. Suas metáforas são tão fraquinhas.

AMANDA – Só digo que é ridículo você ficar preso a um corpo que nem prazer te dá mais. Você é covarde, Marco. Simples assim.

MARCO – Quer transar?

AMANDA – Não sei. Você quer?

MARCO – Quero!

AMANDA – Tá.

CORTA PARA

Orgânico

margarida-branca.jpg

Tão distante de mim
Está a linha do mar, lá longe
Assim como a garrafa de Água,
E o cinzeiro que derrama
A cinza no chão.

No lado daqui
Um buraco e olho
Você tão distante
Catando letras embaralhadas
Fazendo poemas em vão.

E qual é o lado certo,
O que me vê
Pelo buraco negro
Do universo,
O que diz que loucos
Não têm imagem?

Pelo vidro entorto os dedos
E percebo homens nus
Que juntaram a poeira
Da criação.

E por que continuam
Tão longe
Você e a garrafa de água?

Por que as letras tremem
Na lembrança do passado,
Este lugar onde pulsa morto
Um coração de louco…

Parece droga, abandono
Ou cura…?
Mas é só tal amor
Desses de hospício
Com camisa-de-força
No lugar de Vênus.

É masturbação induzida
No lugar do sonho
Na vez do corpo.

Alcanço agora a garrafa
Mas já não é água:
São lágrimas aparadas
Na última chuva
Da minha solidão.