Salve Djabal!

Este conto maravilhoso é mais que uma homenagem à mulher. É pura expressão do sentimento que mora femininamente em nossas almas. Aqui o autor Djabal se superou genialmente.

Albalice

Sou filha de migrantes pernambucanos. Filha entre muitos filhos fui punida com a beleza. A beleza combinada com a pobreza e religião é algo muito explosivo. Desde menina fui proibida de entrar no banheiro quando meu pai se barbeava. Fui punida cada vez que levava uma cantada. Inocentemente contava para pedir ajuda e proteção, recebia um castigo. Talvez fosse tomada por uma oferecida. Aprendi a calar. Existia uma espécie de escuridão em casa, e nela eu aparecia como uma espécie de ponto fulgurante. Brilhava para sofrer. Bastava estar presente, para ser o centro das atenções, recomendações e conselhos.

Teimosa, jamais revidei uma violência, e também jamais aprendi com conselhos. Só com meus próprios meios. Sempre fiz o meu caminho, independentemente dele estar certo ou errado. Aprendi fazendo ou não fazendo.Aos poucos fui me calando, calando, apesar de falar o tempo todo. Falava para desviar a atenção sobre mim.

Fui trabalhar para custear meus estudos, apaixonei-me pelo patrão, silenciosamente. Ganhei coragem e me declarei. Ele não acreditou. Fui mandada embora.Trabalhei, trabalhei, namorei pouco. Aprendi a fazer bem o que faço. Tudo que consegui foi trabalhando. Amor e dinheiro.

Casei com um colega do trabalho.Ele: descasado com dois filhos e trabalhava o suficiente para pagar a pensão deles. Parece esperar a herança de alguém.Bebia muito, ouvia Pink Floyd quando estava pra baixo e Bach quando estava alegre. Inteligente, calado, tímido.Toda vez que a parte alegre da minha natureza despontou fiquei desapontada.

Casada há vários anos, tive a idéia de me pintar, arrumar o cabelo, ficar bonita e nua em pêlo coberta com meu melhor casaco desci as escadas e fiquei parada no patamar. Esperando a sua ereção, aliás, sua reação. Olhou-me, com um ar indeciso entre surpreso e alegre; tirei meu casaco, abri os braços e pedi por ele, derretida em méis pela esperança fulgurante daquele olhar.

Ouvi:– Qui que é isso Alba? Isso não é coisa de mulher honesta.

Depois de algum tempo, consegui minha filha. Depois de mais algum tempo, consegui me separar. Sem alegria, com peso na consciência, levei três meses tomando coragem para falar.

Hoje estou só. Tentando lidar com a escuridão que me envolve. Aquela força contida em mim, que iluminava tudo a minha volta, ora some, ora aparece. As coisas a minha volta me prendem, me puxam, para um lugar que não conheço.

Aprendi a gozar sozinha. Tenho um sonho de poder compartilhar isso com um companheiro, sem ser chamada de vagabunda.

Alguma coisa ficou estampada em mim, que não permite que eu saia do lugar. Preciso encontrar alguém que também não saia do seu lugar e seja feliz, alguém que não seja possuído pela ira.

Aos poucos percebo que a ira não é boa conselheira, ela me torna ainda mais medrosa. Com a raiva que sinto de mim, por não conseguir sair do lugar, consigo forças para ter raiva do outro que se aproveita de mim. E a raiva do outro volta com a força de um contato desfeito, de uma queda do pago, do sumiço do mercado.

Tocou o telefone. Esqueci de dizer que agora estou bem melhor, tenho um namorado virtual.

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