Doralice

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Naquele bairro classe média todos eram amigos de infância. Ou quase todos.

Jacó, o amigo mais calmo, resolvera abrir um barzinho. Desses onde encontram-se os tais amigos de infância. Uns, músicos, outros militares, escritores, vagabundos, alcoólatras, gays e simpatizantes. Todos amigos de infância.

Era uma sensação de bem estar, afinal eram uma tribo e cada um sabia dos segredos do outro.

Idiossincrasias à parte, havia Doralice. A Dora. Dizem que era a mais bonita menina do bairro. E até hoje, mulher de seus quarenta anos, casada, separada, casada de novo, ainda era muito bonita e comunicativa. Formada em Comunicação, Dora trabalhava em rádio, produzia eventos artísticos. Uma vida bem agitada. Cult, como ela mesma classificava.

Dora bebia bem. Chegava sempre no barzinho, sentava-se, cruzava as pernas e toma-lhe cervejas geladas.

Não fossem os drinks quentes…

Dora era dessas pessoas que têm pavio curto. E ainda por cima não era do tipo que ’sabia beber’.

Toda vez que excedia nos drinks, ela via coisas onde não existiam, como achar que estavam falando dela, que reparavam sua roupa, ou ainda que subestimavam sua inteligência.

Mas Dora atravessava uma difícil fase em seu segundo casamento e desta forma passara a desconfiar de todos os homens. Levantou bandeira homofóbica e passou a achar que os homens estavam virando gays. Que o mundo era gay.

Até aí tudo bem se ela não estivesse ficando psicótica com o assunto.

Assim, toda vez que bebia olhava em volta e via os amigos com olhos antropológicos. Na primeira oportunidade vociferava, bêbada como só ela sabia ficar.

_ “Aqui neste bar só tem viado!”

Os amigos não ligavam porque sabiam que Dora passava por uma fase delicada. Segundo casamento desfeito. Crise de idade. Essas coisas.

_ “Não vejo ninguém com mulher aqui nesse bar. Me engana que eu gosto! Só dá viado! Vi-a-do!!”

Jacó, o dono do bar, refletiu e achou que de certa forma Dora estava certa. Muito homem reunido, sem contar com os que eram mesmo gays.

Jacó resolvera então convidar umas garotas para enfeitarem o bar. Umas meninas dúbias que saíam da terma e iam para lá.

Dora não dava descanso:

_ “Agora é o apocalipse! Puteiro desgovernado! Cadê a polícia? Aposto que tão vendendo droga também!”

Jacó, deprimido tentou convencer a amiga descompensada a ir para casa mas foi surpreendido por um tapa no peito:

_ “Sai daqui, idiota! Tu também é viado! Não te vejo nunca com mulher! Me larga!”

E Dora foi ferindo, magoando e ofendendo a todos os amigos de infância.

Jacó, desiludido com a vida e com os negócios, passou o bar para outro amigo, o Cláudio. Só que Claúdio era militar. Mas para Dora não fazia a menor diferença:

_”Você pode até ser homem, mas eu sei o que você faz neste bar depois de fechado com essas piranhas aí. E tua mulher, cadê?”

A situação estava ficando fora de controle. Até que numa madrugada de sábado, Dora cumprira sua promessa e chamara a polícia, dizendo que naquele bar rolava de tudo.

A polícia já estava indo embora, depois de mil explicações dos amigos. Mas Dora, de olhar enviesado (mais pela bebida) apontou para os policiais:

_”vocês também são…?”

Não deu tempo de terminar a pergunta. Os policiais a algemaram e ela passou umas horas na delegacia, refletindo sobre as opções sexuais das pessoas.

Valeu a experiência, pois parece que a moça está de namoro com o policial que a prendera.

E no bar dos amigos tudo voltou ao normal.

Mas quando Dora entra, mesmo para só comprar cigarros, dá pra escutar de longe um silêncio de terror.

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